segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Senhor Invernoso


O pior de se acordar num domingo lindo como este, é abrir os olhos pela manhã e ter a certeza de que não vou vê-lo e nem vou sair para me divertir.Não há com quem sair ou o que fazer. Preferia que este domingo estivesse como aqueles frios, medonhos e chuvosos que tivemos nas últimas semanas.Domingo sempre será um dia triste para mim. Sozinho, sempre sozinho. Você se foi, e levou contigo o frio que eu adorava enfrentar em seus braços, o sabor que ficava na minha boca sempre que seus lábios encostavam-se aos meus. Não sinto mais nada disso.

Minha vontade é te ligar e dizer que ainda te amo, mas não devo fazer isso. Depois de tanto chorar deitado na cama, olhando para janela onde mostrava um céu azul, cor que odeio em demasia, pouquíssimas nuvens pairadas no céu e nenhuma brisa. Apenas o calor do céu, me fazendo de inútil ali. Açaí, era o que tinha para hoje. Sozinho? Sim. Aqui, esperando o pedido, noto um atendente novo no estabelecimento. Ele me olha e se aproxima para saber o que vou querer. Atende-me muito bem e gosto de seu atendimento. Simpático, mais do que o que me atendera da última vez. Senti um interesse nele. Seria bom, mas não estou no clima de conhecimentos. Enquanto meu pedido não chega, abro meu livro na página que eu marcara de cabeça e leio, me perdendo nas deliciosas páginas amareladas. Levo um susto quando o atendente lindinho chega com meu pedido, Açaí com Kiwi e leite condensado. Ele me olha e pergunta se preciso de mais alguma coisa. Seus olhos brilham e acho que os meus também.

Ele é alto, e estava de boné vermelho. Seu rosto era magro, pela gola de sua camiseta de uniforme dava para ver os ossos de seu torso. Era uma camiseta cinza. Seus braços brancos mostravam veias que eu adorei observar. O sol fazia os poucos pelos de seu braço brilharem e ficarem loirinhos. Eu estava numa das mesas externas. Queria que o dia hoje estivesse chuvoso. Eu estaria mais feliz. Se assim estivesse, eu teria coragem de chamá-lo para sair. O dia estava lindo, lindo para muitos, o que me irritou. Havia pessoas felizes ao meu redor. Eu não estava. Sons de risadas, beijos e vozes animadas estavam me tirando do sério. Comi o mais depressa que consegui e deixei meu livro de lado na mesa. Evitei olhar para os lados e ver aquele monte de olhos felizes e bocas sorridentes. O rapaz passava de um lado a outro me observando, e eu o fitava sempre que podia, mas em minha cabeça eu não estava solteiro. Não ainda. Fiz sinal para que outro viesse com a conta. Não queria me aproximar dele dessa vez, afinal, quem sabe se ele estava mesmo interessado?

Paguei a conta, mas fiz questão de deixar uma bela gorjeta para o rapaz que me atendeu primeiro. O dinheiro não me importava, somente o sol, que agora, enquanto eu caminho para qualquer lugar, qualquer rua, ele me cega com sua luz forte e queimante. Eu era o único estranho na rua, que andava com uma blusa de frio preta, calça jeans e óculos escuros, além do guarda-chuva preto, que atraia mais olhares ainda, sendo um dia sem sinais de tempestade ou frio, pois estava um calor de 33ºC. E para o último que me olhou de cara feia, eu disse: Não me diga que não está com frio? E dei a risada mais demoníaca que consegui reproduzir.

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