quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mais um dia de frio chega ao fim




E mais um dia chega ao fim, não é mesmo?
Hoje foi um longo dia para muitos. Nos molharmos na chuva, passarmos frio, trabalhar o dia todo, falar com algum amigo e vegetar na internet. No meu caso, sou obrigado a conviver com ela no mínimo 08 horas por dia, já que trabalho numa lan house.

Hoje consegui chegar pontualmente, evitando do Peixinho reclamar comigo. Pedi meus dois pães de queijo e suco de maracujá que são de hábito, na verdade é o suco de morango, mas não compraram a fruta ainda.
Enquanto Gabriel fazia seus códigos de html no servidor, fui comprar a ração do Alano.
Alano é um gato que o encontrei no ônibus que me trazia de Cidade Tiradentes naquela sexta-feira tenebrosa. Desde então ele está como o mascote do estabelecimento.
Estava uma chuva lá fora. Falei com Leonor antes de sair. Ela me disse que a chuva de São Paulo estava indo completamente para o Rio de Janeiro. Ela é a panfleteira das lan houses e é peruana. Adoro seu espanhol. Ela me incentivou a dar leite e muita água para o Alano.
O Extra não estava tão cheio assim. Me irritei com uma senhora arrogante que me disse que eu estava na fila errada.

- Por que não vai naquela fila que está menor? Você só está com um produto - acusou ela.
- Aqui falta pouco - disse sem dar muita atenção.
- Moleque sem graça, fica aqui atrapalhando - ela estava atrás de mim.
- Por que não vai você? Não estou com pressa alguma.

Ela se calou então.
Gente chata naquele bairro de escórias. Argh! Pelo menos não era uma Changa.
Changos, é como chamamos carinhosamente os Bolivianos, peruanos, chilenos e os outros povos que também falam e em espanhol. É uma forma de resumir o povo.
Na lan, dei comigo para um Alano muito faminto.
Gabriel e eu conversamos sobre os papos normais, ligamos na Metropolitana e pedimos a música do Red Hot Chilli Peppers. Não, não ganhamos a promoção que nos daria direito a ir ver o show aqui no Brasil.
O trabalho foi normal o dia todo. Almocei e falei com o Chuck Bass, o Vanderson. O baixinho que eu conheci e do qual tô gostando muito.
Depois das 16h, fui para casa de bicicleta. Entreguei-a para o meu pai ir trabalhar, mas antes dei bronca na minha irmã que, ontem fui na casa dela e ela não estava, fazendo eu ir de bicicleta até a Vila Mariana à toa. Ao menos conversei com o Sérgio, o porteiro. Sérgio é o ex namorado da antiga melhor amiga da minha irmã.
Desisti de ir na Academia, que fica na Zona Leste, onde eu morava até duas semanas atrás, por preguiça. Decidi vir até a unidade da Liberdade usar um pouco a internet. Antes, pedi um chocolate quente e uma esfiha de carne. Vim para a máquina e estou até agora.
Conheci alguém que no passado era pra ter conhecido, mas não foi feito. Estudamos na mesma escola e nem imaginávamos que nos veríamos um dia. 04 anos de formação de distância.
Ainda estamos conversando enquanto estou aqui.
Duas amigas leram meus contos e elas adoraram. Espero que mais gente compareça ao blog e gostem também.



Amargurada



Antes do fim, eu andava descalça em meio a chuva naquela areia que já estava lamacenta.

Meus olhos estavam presos no horizonte negro da noite fria, fitando o infinito, além do mar que estava dançando como se zombasse da minha cara de choro.

- Não ria de mim! - eu gritei para ninguém a minha frente.

E ninguém respondeu. Somente o vento e a chuva pareceram se irritar.

Não havia mais ninguém naquela praia. Os covardes se guardaram dentro dos cubículos que os protegiam do molhado. Além do que eram altas horas da noite.

Não vi solução melhor para a minha vida de angústias que caminhar sorrateiramente, em longos passos, sentindo cada gota de chuva cair sobre meu corpo, até o mar com ondas enormes e enraivecidas graças aos ventos. Eu estava chateada com o mundo. Não tinha mais o que fazer nele.

Meu Iphone tocou em minhas mãos. Engraçado, se é que eu podia sentir essa emoção, não estava o sentindo em minhas mãos. Nem me lembrava de estar com ele.

Atendi depois de me irritar com a música que me fazia lembrar ele. E era ele...

- O que você quer? - minha voz era dura e meus lábios estavam bem úmidos. Expressei toda a minha dor nessa pergunta.

- Por favor, precisamos conversar. Você não me deixou explicar...

- Explicar o quê? - eu gritei, e ao longe, um trovão gritou mais alto. - O que eu vi já bastou tudo. A semanas que eu vejo.

- Era só um truque. E hoje não foi bem isso, ela, ela que fez tudo, ela que... - ele parecia muito desesperado. Não quero me lembrar de seu nome. Ele me machuca.

- Basta! - interrompi novamente. - Lamento te interromper nessa história mal contada. Quero que você se dane! Você e a vadia da minha prima.

- Amor, ela me embebedou.

- Não me chame desse jeito, nunca mais!

- Por favor. - ele implorava e eu percebi que estava chorando.

- Quantas chances eu terei que dar a você? Quantas mais?

- Você sabe que me ama.

Desejei bater nele nesse momento.

- Não! Eu amei, agora não mais. Sabe o que é sentir saudade? Sabe o que é se humilhar? Sabe o que é pegar o cara que você ama na cama com outra? Sabe o quanto isso dói?

- Você precisa saber que foi ela, e não eu. Eu te amo...

- Cala essa maldita boca! Cala...

Eu surtei e joquei o Iphone o mais longe que consegui. Ele afundou na lama.

O vento fazia meu vestido preto voar como louco, mesmo pesado e ensopado.

Em momento algum deixei de caminhar, de enfrentar o meu destino. O mar me convidava a visitá-lo, a fazer parte dele. Enquanto isso, eu não sentia meu coração. Era como se ele fosse negro ou que não existisse.

Magoada e querendo matar alguém, decidi matar meus sentimentos e a mim mesmo. Senti como se a alma do meu coração em abandonasse, me fazendo então uma mulher amargurada. Não tinha mais espressão no rosto, a não ser que interpretasse meus olhos aprtados como rancor e ódio. Mas isso eu sentia por dentro.

Senti o gelo todo daquela água fria do mar cortando minhas pernas. Maior foi a dor e a agonia quando foi subindo para as minhas coxas. Não olhei para trás. apenas para o nada que tinha a frente. Estava arrepiante, literalmente. A chuva estava muito forte. Raios passavam não muito longe de mim e os trovões ensurdeciam e me fazia pular com o susto. O mar travesso me jogava de um lado a outro. A água agora passava pelos meus seios.

Determinada, continuei avançando. As ondas enormes que vinham sempre me cobriam, e me jogava para trás, e eu avançava como podia depois.

"Mas por que você quer partir, Regina? Seu namorado vai continuar vivendo. Ele não irá deixar de ficar com ninguém. Seguirá a vida dele, assim como todos. Por que você não recomessa e morre quando for para morrer. Ainda não é a hora, ainda tem muito o que fazer. A felicidade pode ser encontrada sempre que a necessitarmos, basta correr atrás, e não ter orgulho. Se ele existir, faça-o ficar extinto, mas não deixe que isso faça você ficar paralisada no além e dar um fim a algo que não está nem no começo".

Esse pensamento me veio à cabeça, exatamente com a voz da minha falecida avó, que lutou tanto contra uma doença, pois ela queria muito viver e poder pedir o perdão da filha dela, minha mãe, mas a doença a venceu e ela se foi, sem antes realizar o maior desejo de seu coração.

Fiquei parada olhando em volta de onde eu estava e olhando para meu próprio corpo.

- Não vou perder o restante da minha vida por você, Jefferson. Você não merece. Acho que eu posso reverter a situação.

Quando eu tentei voltar, notei que eu estava longe de mais e as ondas eram muito altas e mais fortes que o normal.

Eu dava dois passos, muito dificeis e pesados à frente, mas a o mar me puxava para trás. Até vir uma outra onda e me cobrir inteira. Fiquei sem fôlego e fui respirar, mas no mesmo instante, veio mais uma e outra em seguida. Estava numa área funda do mar e não conseguia chegar a tempo na superfície para poder respirar. O mar me jogou para um lado e para o outro, e depois eu não conseguia mais respirar. Estava sentindo como se eu fosse explodir... e então, não vi mais a água, não senti mais como ela estava fria e nem me debati mais pela falta de ar. Eu não precisava mais dele.

Trollando Ao Vivo


domingo, 28 de agosto de 2011

Honra ao Mérito de Escritor - Humpf!


Dia 30 de Sembro!Hmm. Esse foi um dia importante e vou guardá-lo para todo o sempre.Ao ganhar o que considero Prêmio por Valorização e Reconhecimento de Perfeita Obra-Literária, percebi que enquanto um já tem a certeza, outros não tem a esperança de que algo dará certo e só esperam a premiação passar para sair daquela tortura já que aceitou que não vai ganhar nada mesmo.Em agosto, meu amável professor de Biologia (Almir, The best of the Best's), organizou uma espécie de olimpíadas em meu colégio para promover o meio ambiente. Teríamos uma série de 13 modalidades a serem realizadas, uma por dia, apartir de 13 de Setembro. Essas modalidades, cada uma era avaliada por algum professor em pontos para serem somados no final. O prêmio para a sala que arrecadasse mais pontos era de um passeio VIP ao parque de diversões Hopi Hari e mais alguma coisa que não me recordo.Minha sala é composta por: bagunceiros, brincalhões, desenteressados, jogadores de truco, preguiçosos, 1 inteligente (adivinhe quem é) e uns outros que... esperam alguem resolver alguma coisa para eles clicarem em CTRL+L e ficarem numa boa. Com isso, nossa sala não tinha chance alguma de progredir e ir ao tal parque de graça.Eu fiz a minha parte, mas com o propósito de mostrar o meu trabalho de escritor. Não vacilei, fiquei quase 5 aulas completas escrevendo uma história adaptada sobre o meio ambiente que havia trabalhado nela há algum tempo. Foram 9 páginas, mais de 10 minutos esperando minha mão se recuperar do músculo dolorido na palma, 4 tentativas fracassadas de segurar a caneta como antes eu segurava no começo do original e uma pausa para o intervalo.Isso deu o resultado de 1440 pontos, que foi revelado no dia 29 e me deixou na frente de duas outras salas.O professor Almir deixou bem expecífico, que o prêmio foi pra mim, e não para o restante da sala que não ajudou em nada, nem a me emprestar uma caneta preta.Foi difícil ir até o centro da quadra (onde estava sendo o evento) e receber a minha medalha de Honra ao Mérito. Eu já sabia que ia ganhar, mas na hora, você perde até a confiança. Quando ele anunciou diversas salas que haviam ganhado na Gincana, Simpósio, Reciclagem, Plantações e etc. Quando chegou em Produção Literária, tudo dentro de mim se contorceu mas continuei em pé esperando.Quando anunciou meu nome como o vencedor do 1C, eu tremi e dei uma olhada para onde estavam alguns dos colegas da sala que eram brincalhões e bagunceiros, mas que eram muito legais comigo e muito engraçados. Eles tentaram me acordar chamando a minha atenção e ir buscar o prêmio. Meu primeiro prêmio de Literatura, que desse, concerteza virá muitos. Eu espero. Ao me colocar a medalha, Almir me deus os parabéns tirou uma fotografia, assim como ele fez com os outros ganhadores. O pessoal da minha sala foi à loucura quando voltei, eles pulavam e gritavam "Nono A eu vou comer o seu bolo". Eu ri, pois eu sabia o significado disso.O nono A acabou ganhando o passeio para o Hopi hari.Dei uma boa olhada em minha medalha que estava reluzente em meu pescoço.Foi a unica medalha que a minha sala ganhou.

Aquele da Bicicleta


Saí um pouco tarde do trabalho.
Certo, todos nós gastamos sempre mais do que temos. Eu fiz essa besteira o mês passado e também neste aqui, o que me fez quase mendigar. Tá, é um exagero, mas estou quase nessa.
Sorte que comprei uma bicicleta há três meses simplesmente para pedalar nos finais de semana. Agora, sem dinheiro para pagar o metrô na volta para casa, tenho que pedalar diversos quilômetros até chegar ao meu destino.
Peguei minha Gatinha, como chamo minha bike, e desci a escadaria do prédio onde eu trabalhava no Tatuapé.
Só eu sei a preguiça que dá para ir trabalhar de bike, principalmente voltar, pois aí você está mais cansado e louco por descanso, e não esforço físico.
Enquanto eu pedalava até a ciclovia, ia com pensamentos que me distraiam completamente da direção. As vezes me sentia como se nem pedalasse. Parecia que ela corria por si só. Pouco eu enchergava o chão. Linhas e mais linhas passavam por mim e eu sem reparar nelas. Só pensava em quanto eu estava sem ninguém, o tempo que eu estava carente que talvez eu me apaixonaria pelo primeiro idiota que passase por mim.
Atravessei a rua e entrei na ciclovia.
Estava uma noite quente. E eu de calça jeans e blusa de frio. Claro, de manhã estava pouco mais de 10 ºC. Estamos vivendo tempos de insanidade, loucos.
Vi o trem passar correndo por mim. Vários deles. Que inveja das pessoas apertadas e expremidas que estavam ali dentro. Pelo menos o unico esforço que elas tinham era de se segurar. Isso se precisasse, pois com o aperto que sofriam, estavam mais enlatados que uma sardinha.
Fitando a estação Carrão, completamente distraído, quase sou derrubado por um brutamontes que passa à toda ao meu lado, numa bike azul.
- Cuidado aê! - gritei.
Mas ele já estava mais a frente.
Pedalei um pouco mais rápido para acompanhar sua velocidade. Ele já não estava mais tão rápido. Deveria ter cansado.
Parecia ser jovem, pelo menos de costas. Quem sabe uns 22 anos, da mesma idade que eu? E me distraí, imaginando coisas. Jamais acontecera essas coisas de vídeos da internet comigo. Nunca. Tentei ficar o mais próximo possível dele para quem sabe, puxar papo. Mas o quê eu diria? Ele acabara de ser grosso comigo.
Já estava bem perto dele agora, então me aproximei mais. Não desisti, embora minhas coxas e panturrilhas reclamassem um pouco de dor.
Continuamos pedalando no ritmo que nossos corpos aguentavam graças ao cansasso. Quando ficamos lado a lado na pista, sendo ele do lado esquerdo, onde os ciclistam voltam da Zona Leste, ele fez sinal com a cabeça, abaixando-a, significando um pedido de desculpas. Fiz o mesmo com a cabeça, assentindo. Agora não havia mais raiva de um quase matar o outro, ou só machucar mesmo.
Ele se recuperou e pedalou feito um louco. Deixei-o ir. Simplesmente baixei a cabeça e olhei para os pneus e para o meu sapato que fazia os movimentos giratórios que eu me locomovesse naquele meio de transporte. Quando fui olhar para o céu, mais uma vez, vi que de longe, o rapaz estava olhando para trás, como se me esperasse ou que estivesse apostando corrida comigo, e eu perdendo de lavada.
Acelerei o máximo que pude, mas o calor era desmaiador. Ele pedalou devagar e rapidamente eu parei, tirei a blusa de frio e a guardei na mochila que eu carregava. Não demorei muito.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eu estava empolgado. Queria continuar pedalando e pedalando com ele todo o tempo.
Apostamos corrida por vários miutos, cansávamos e iamos devagar. Ao recobrar o fôlego, repetíamos o processo.
Mas no caminho inteiro não falamos um com o outro. Era uma brincadeira silenciosa, que limitava-se ás nossas respirações ofegantes, risadas abafadas, carros buzinnando e passando zunindo na Radial ao lado e o metrô passando a galope do outro.
Um amigo eu tinha conquistado, acho. Mas eu o veria novamente?
Não gostei da idéia de perdê-lo. E se ele viesse a ser mais que um amigo?
Mas agora ele estava se afastando novamente.
Ele fez um aceno, como de um tchau e aproveitou para atravessar a rua enquanto o farol estava vermelho para os carros. Eu o estava perdendo. Mas, ele ficaria comigo? Ele parecia ser hétero. Mas porque aceitou numa boa brincar de pega-pega na bike?
Aquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos estava se afastando cada vez mais, e para piorar, meu celular toca. Michele.
- Alô - atendi meio com pressa, o dedo já no botão de encerramento de chamadas.
- Oi amor, já tá chegando? - e sua voz doce me deixou confuso. O garoto estava um tanto lento pois subia uma ladeira, do outro lado da rua. Mas minha namorada não não adivinharia momento melhor para me ligar, como este.
- Sim, estou quase. Tô de bicicleta, depois te ligo - quando fui desligar, ela gritou: Espera!
Bufei de raiva e pressa, mas falei em tom calmo e passivo. Ela jamais suspeitaria minha tração por homens, e nem que eu estava prestes a ficar com um, assim que ela desligasse a porra do celular.
- Passa no mercado antes de chegar e compra extrato de tomates e pipoca de microondas.
- Certo eu passo. Vou desligar. Beijo.
Não dei tempo que ela retribuisse o beijo. Quase fui atropelado por um ônibus e quase atropelei uma mulher que carregava um monte de sacolas.
- Distraída dos infernos - berrei.
Ela me chingou de algumas coisas e seguiu seu caminho.
Não consegui mais avistar o da bicicleta. Fiquei meio louco e entristecido.
Senti que ele me queria, assim como eu o queria. Jamais isso havia acontecido comigo. E além do mais, eu estava procurando mesmo um companheiro. Há muitos dias eu não estava mais feliz com a Michele. Eu sentia como se aquilo não fosse pra mim, e a cada dia eu me prendia mais naquela situação.
Continuei pedalando pelas ruas que eu desconhecia completamente, enquanto alguns pensamentos ardiam meu coração e confundiam minha mente.
Eu estava cansado por ter acordado cedo e trabalhado o dia todo, estava pedalando e agora estava indo eu nem sabia para onde. Lembrei no dia em que eu ficara andando a madrugada toda com Michele, pelas ruas desertas e perigosas do Centro. Perdemos a chave da nossa antiga casa e estavamos longe de onde perdemos quando nos demos conta. Já não havia mais ônibus e pouco dinheiro tínhamos. Seria a nossa primeira noite de sexo, mas frustrada por burrada nossa. Ficamos a noite toda caminhando, parando as vezes em bancos de praças e conversávamos mais enquanto descansávamos. Quando amanheceu, chamamos um amigo chaveiro para trocar a fechadura e nos dar as chaves novas. Esse pensamento me fez lembrar da vez em que fui num motel com um garoto que conheci pela internet... no meio do prazer todo, acabamos andando e nos jogando pelos espaços do quarto. O extase foi tanto que joguei ele na porta, e ficamos lá, ele prendeu o braço, segurando-se na maçaneta, e eu o puxei com violência para bem perto de mim. A maçaneta caiu no chão e ficamos presos lá, pois a chave ficara do lado de fora.
Freiei a bike para olhar em que ruas eu estava entrando. Não havia sinal algum dele. E agora? Ele poderia já ter entrado em alguma das muitas casas e edifícios que passei. Agora era o fim, não havia meios de encontrá-lo, de forma alguma.
Voltei para a ciclovia. Muitos minutos atrasado... simplesmente fiquei triste comigo mesmo. Eu estava fazendo duas besteiras ao mesmo tempo. O cara era hétero, pensei para me reconfortar. Michele me ama e está fazendo o jantar que eu mais gosto, só não sei bem o por que.
Cheguei em casa, coloquei as sacolas na mesa e me joguei na cama. Michele não me viu entrar pois deveria estar na lavanderia.
Tirei a roupa e tomei um longo banho. Ainda pensando no garoto. Puxa, ele mexeu tanto comigo. Nem sei bem como, mas ele tinha me feito pensar nele durante todo o banho, enquanto eu ajudava Michele a terminar a comida e principalmente quando fui beijá-la... imaginei seu rosto. O mesmo que sorriu para mim quando ficamos lado a lado na ciclovia.
A idéia de nunca mais ver uma pessoa sempre me perturbou. A casa hora que passava, eu não conseguia esquecê-lo.
A idéia de tentar encontra-lo na internet era ridícula. Como seria a pesquisa? Procuro um garoto lindo que montava uma bicicleta azul com detalhes amarelados. Acho que não ficaria legal.
Idéias e mais idéias. Só que o sono era mais forte.
Quando fui me deitar, pronto para dormir e enfrentar a dureza do dia seguinte nas costas, e talvez pernas novamente, Michele se aninhou junto a mim e eu a abracei.
No meio de nossos beijos preliminares, meu celular toca com um tom de mensagem de texto. Peguei-o e li o que um numero desconhecido me dizia: ENTRE NO Facebook E PESQUISE O NOME ABAIXO. IMEDIATAMENTE.
- Quem é? - Michele perguntou puxando meu pescoço para baixo.
Saí da tela de mensagens antes que ela pudesse ler.
- Da Claro, me andando aqueles protocolos de atendimento.
- Bem atrasado, né?
- Pois é - falei me levantando e ligando o computador. - Liguei lá faz uns quatro dias, lembra?
Ela assentiu e virou-se para o outro lado. Estava cansada também. Senti que ela estava chateada com alguma coisa. Mas ignorei.
Estava ansioso e o PC demorando muito para iniciar.
Quando iniciou e a internet se conectou automaticamente, cliquei no favorito do Facebook, que deixo na minha barrinha do Google Chrome. Pesquisei o nome do sujeito da mensagem e quando clico... aquele da bicicleta estava com seu perfil bem ali na minha frente. Quase chorei de felicidade quando o encontrei. Ele aceitou meu pedido de amizade quase de imediato. Começamos a conversar...
Ele me falou que pensou em mim também, mas se manteve na dele. Que queria ouvir a minha voz, assim como eu agora queria ouvir a dele.
Não vi as horas, não. E nada ao meu redor. Eu estava com a atenção totalmente voltada ao Facebook. O papo estava muito longo, se estendera por mais uma hora ou duas. Ele parecia empolgado também em me conhecer de verdade. Ele me disse qu namorava com uma garota também, mas que já não estava tão ligado nela e principalmente por ela ser ciumenta. Alguns detalhes de sua vida, músicas favoritas e lugares também. Eu precisava ficar com ele.
De repente, tomo um susto com uma lágrima que cai em meu ombro nu. Michele estava chorando ao ler toda a conversa pelo Facebook.
Não achei lugar para enfiar a minha cara.
- Hoje - ela começou, com os lábios e voz tremendo por causa do choro - ou, ontem no caso que passou da meia-noite, fazemos dez meses de namoro. Você não se lembrou disso?
- E-e-eu...
- Claro que não. Quantas coisas descubro aqui, do nada. Por isso você adora sair com seus amigos, né? Aqueles da balada?
- N-não - eu nem tinha palavras.
- Deve ter me traido zilhões de vezes... e com homens ainda por cima. Acho que a dor é ainda maior.
- Calma, eu posso explicar que...
- Explicar o quê? Eu li aqui, ao seu lado, você todo empolgado marcando de se encontrar com um cara que nem conhece. Que só pedalou com ele por alguns minutos. Já nós temos uma história já... Sorte a minha, ou azar, que você é um retardado. Muito distraído e perdido nessa sua cabeça oca. Como não me viu, ouviu ou sentiu eu atrás de você lendo tudo?
- O fone de ouvido me faz viajar ainda mais.
- Eu não acredito nessa situação - ela baixou a cabeça e começou a chorar.
Deixei ela quieta e respondi ao garoto da bicicleta que depois conversaríamos, pois estava cansado.
- Michele, então esse é um bom momento para dizer que não dá mais. Faz um tempo que queria te falar isso, mas fui adiando e acho que já é tarde agora, para não fazer você sofrer.
- Você não vai me deixar para ficar com um homem.
- Eu não disse isso, mas... Mi, faz tempo que eu não gosto mais de você como gostaria.
- E você me diz assim?
- Como queria que eu te contasse? Eu tô muito confuso. Eu só quero me deitar e pensar sobre tudo.
- Inclusive naquele veadinho da bicicleta?
Aquilo me atingiu na alma.
- Você me vê assim, agora?
Coloquei minha camiseta de volta, peguei minhas coisas de trabalho e a mochila e saí, deixando Michele chorando ao me olhar pela janela da cozinha. Me vendo partir.
A besteira que eu tinha feito era imensa. Minha vida poderia estar arruinada agora. Meus pais me jogariam muitas coisas na cara, não teria mais meus amigos heteros, na empresa provavelmente me desrespeitariam, nas ruas, em casa... olhos e mais olhos me fitando e me condenando. Ao menos acho que é assim. Tenho certeza que Michele, sendo como é, vai fazer um inferno na minha vida para eu voltar para ela, e quem sabe, destruir qualquer um que se aproxime de mim.
Milhões de pensamentos me veio na cabeça enquanto eu pedalava a Gatinha pela ciclovia até uns bancos que ficavam próximos à estação Penha. Eu passaria a noite ali, decidindo o que faria do amanhecer.
Olhei para a ciclovia e me lembrei dele: Caio. Minha vida agora estava - ou amanhã estaria - um caos, tudo por causa daquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos. Agora eu tinha que fazer valer a pena, e ele também, ou eu iria me jogar de bike nos trilhos do trem.
A unica coisa que restava para mim era esperar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Anjo do Prazer


E eu estava apaixonada por ele.
Kadu era irresistívelmente gostoso, de acordo com a foto que eu via em meu MSN.
Eu o conheci através de um site de relacionamento na internet. Conversávamos por diversas horas ao dia. E ele era muito simpático.
A foto que eu estava acostumada a ver era de suas costas. Havia duas cicatrizes que desciam dos ombros até a costela. Não eram de dar pena e nem eram feias, em si. Durante uma conversa ele me contou que se acidentara num dos treinamentos do quartel, quando ainda era recruta.
Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente eu estava apaixonada por ele. As coisas que ele me dizia sobre a vida, como pensava dela, o que queria fazer comigo... como não poderíamos perder muito tempo, pois logo partiríamos... E eu sempre ficava excitada.
Com exatos dois meses de conversas em todos os meios de comunicação, marcamos de nos encontrar-mos em algum restaurante de shopping. Sempre achei que primeiros encontros seriam melhores em locais públicos antes.
Não me cabia de felicidade encontrá-lo, vê-lo pessoalmente. Conversar com ele era como se fosse com alguém dos meus sonhos, como se não existisse na realidade. Precisava saber que ele era mesmo real. Quem sabe não já deixaríamos o parque namorando?
Corei, enquanto esperava ele digitar a confirmação do horário do encontro, que seria hoje.
Empolguei-me e fui logo ao chuveiro.
Depois de secar os cabelos e passar um bom creme hidratante no corpo, vesti uma blusa com renda preta e vermelha, uma jeans escura sem bolsos atrás e um salto preto, não muito alto. Estava um fim de tarde lindo lá fora, quando olhei pela janela para saber se estava frio. Mas não estava. Uma briza calorosa parecia dançar em meu braço, fazendo sua carícia macia.
Chequei a bateria do meu celular e que horas seria no momento.
Ansiosa? Claro que estava. Ainda bem que minha mãe não estava em casa para fazer zilhões de perguntas irritantes. Eu teria que mentir, mas não estava com vontade.
Quando cheguei finalmente à estação de trens que ligava ao Shopping Eldorado, Hebraica-Rebolças, Kadu me mandara uma mensagem de texto.
ACABEI DE CHEGAR. 2º ANDAR - PRÓXIMO À PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO. VOCÊ ME ENCONTRARÁ AO LADO DE QUEM SOU OU FITANDO O IRREAL.
Não entendi muito bem o recado, mas sabia que estávamos a poucos metros de distância. Estávamos dentro do mesmo teto, em tese. Isso já me deixava feliz.
Fui muito bem recebida por diversos pares de olhos. Os masculinos pareciam que queria meu corpo - seios - junto ao seu - na língua. Os femininos talvez me criticassem negativamente. Invejosas, sempre penso. Enquanto subia a escada, pude ver minha silhueta numa das paredes espelhadas que há pelo shopping. Meu cabelo estava bem liso e comportado, as luzes que eu fizera semana passada o deixaram mais atraente. A blusinha era bem sensual, mas de um jeito comportado. A calça dava um pouco mais de volume ao meu bumbum. E o salto não me deixava ser tão baixinha. Meu perfume fazia muitos passarem suas narinas próximas demais a mim. Pelo jeito eu estava mesmo arrazando, mas queria arrazar apenas um...
- Kadu? - chamei ao ser mais lindo que vi no Shopping inteiro. Parado ao lado de um cartaz onde havia dois caras se abraçando numa propaganda de roupas masculinas e do outro lado havia uma escultura de um anjo, apontando uma flecha para algum coração ao longe.
Lembrei-me da mensagem que ele me mandara no celular, mas isso foi de instantes pois no momento que o chamei pelo nome, ele se virou e um ótimo perfume veio ao meu encontro.
- Sabrina minha querida. Estava ansioso para conhecê-la - e sua voz era grossa, mas doce. Tinha um certo poder de autoridade nela, além de que parecia ser muito certinho.
Tive absoluta certeza que ele não era da Zona Leste. Se fosse de lá, ele diria: "E aí gatinha, suave?"
Ignorei esse pensamento e me aproximei para cumprimentá-lo.
Sua mão forte segurou a minha e a levou até seus lábios comprimidos dando um beijo macio. Senti seus olhos me avaliarem.
E eles eram castanho-claros, mas tinham um brilho diferente que me fazia acreditar que ele estava muito feliz em me ver.
Olhei-o novamente. Forte, moreno. Cabeça raspada e o corte parecia bem feito.
- Demorei muito? - perguntei para quebrar o clima tenso que eu estava sentindo.
- Não mais do que demoraram para colocarem uma escultura ridícula como essa aqui - ele apontou para o anjo com rosto infantil.
- Ela é bonita. Enfim... o que vamos fazer? - falei descontraída. Sintia algo muito diferente perto dele. Alegre. Ou algo mais que isso. Era uma felicidade muito grande estar com ele.
Ele estava contente também. Estava sorrindo enquanto dávamos passos curtos para o nada. De nenhuma maneira estava constrangido ou sendo safado. Ele transparecia que eu era dele. Só dele, então nem se preocupava.
- Quero te levar a um lugar de que gosto muito.
Epa. Eu queria continuar em meu terrítório. Não poderia conhecer o dele agora. Era muito cedo ainda.
- Calma - pedi a ele. - Acabamos de chegar.
- Aqui foi somente o ponto do encontro. A noite tem muito mais a oferecer do que ficar na companhia de tanta gente desnecessária.
Estava chateada com o término do meu namoro que fora há cinco semanas. Eu queria me divertir, de qualquer forma possível, mas a lembrança dele não me saia do pensamento. Para me livrar daquelas imagens que me faziam chorar sempre que eu pensava com afinco, aceitei alegremente o convite.
- Ótimo - disse ele segurando minha mão e me conduzindo para a saída do Shopping. - Está uma noite abafada. Precisamos de um lugar com vento. Quero sentir a briza da noite com você ao meu lado e ver seus cabelos esvoaçarem.
Ele falava sempre com os lábios perto de mim. O rosto sempre quase colado ao meu. Arrepios era o que minha pele mais sentia naquele momento.
Paramos em frente a um carro preto. Lindo, por sinal. Era um Fluence, da Renault. Não acreditei que aquele carro era dele. Será que agora eu me dera bem na vida? Além de lindo e bem encorpado, provavelmente tinha uma vida financeira bastante boa.
- É o carro do seu pai? - perguntei tentando tirar minha dúvida.
- Não. É meu.
Dei de ombros e sentei no banco do passageiro. Era macio. Assim que ele entrou, ligou o ar-condicionado. Muito vento saia dali. Até o estranhei.
- Você parece gostar muito de vento - comentei.
- Sinto muita falta dele - respondeu. - Aqui em baixo quase não o sinto.
Seguimos viagem. Ele não falava tanto assim. Pela internet nos falávamos mais. Mas ele havia me dito que era mesmo muito calado, embora eu tivesse conseguido puxar papo e ele entrado e o aproveitado. Riu algumas vezes e também olhava enraivecido para algumas árvores sinistras que passavamos.
Estava bem escuro por onde seguíamos a uma velocidade razoavel. Não foi difícil perceber que ele estava me levando para o Centro, e não demorou mais que quinze minutos para chegarmos. Já estava tarde. O trânsito estava livre.
Kadu me contara sobre sua família, sobre alguns amigos, coisas que gostava de fazer e como passava o tempo. Ele não parecia um rapaz comum. Não estava estudando e nem tentanto ingressar numa faculdade. Apenas trabalhava, pelo que me disse, de detetive particular.
Não sei se ele era tímido ou estava me respeitando, mas em momento algum ele tentou "avançar o sinal". Até ali não rolara amassos e nem coisas do tipo. Mas ele deixou eu apoiar meu braço em sua perna quente.
Paramos perto da Rua João Brícola. Quando ele desligou o ar, reparei que nem viemos ouvindo música alguma. Nem precisamos disso. A companhia dele não era chata ou menos ainda, irritante. Estava sendo um dos melhores encontros da minha vida e nem estava precisando de uma música para marcar aqueles momentos.
- Lá - ele apontou de repente, enquanto checava se meu cabelo estava legal, no espelhinho que tem naqueles protetores de visão contra o sol. - Quero te levar lá em cima.
Olhando para seu dedo, segui para onde ele queria e me deparei com um edifício enorme, o maior que vi em São Paulo. Uma réplica do Empire State Building. Era o BANESPA.
- Mas não está aberto para visitas a essa hora. Está?
- Não, não está - e ele me deu um sorriso travesso.
Gostei da sensação que senti. Talvez em meu estado normal, se algum amigo meu ou qualquer outro me pedisse para fazer uma loucura assim, entrar num edifício como este, um banco, onde poderíamos ser presos por cruzar os seguranças, com certeza eu não aceitaria. Mas eu estava com ele. Eu queria fazer isso. Sentia necessidade de arriscar. Sentia prazer nessa adrenalina louca.
Ele segurou meu rosto e puxou minha cabeça para mais perto. Fiz o mesmo e nos beijamos com certa energia descontrolada. Um êxtase explodia ali. Suas mãos não paravam quietas e nem as minhas. Pude conhecer boa parte de seu corpo e ele do meu.
Antes de começarmos a nos despir, ele se afastou de mim. Saiu do carro e veio até a minha porta para abrí-la. Um cavalheiro.
"Não acredito nesse cara", pensei toda boba.
Segurando minha mão, ele gritou: - Vem, vamos. - e saimos correndo pela rua até a entrada do edifício.
Eu me encostei na parede da entrada, para que nenhum dos seguranças me visse. Kadu não estava muito preocupado. Parecia conhecer a área.
- Vem, acho que agora já dá - ele me puxou.
Eu já estava com muito medo de que desse algo errado. E ainda por cima, não entendia o por que de ele fazer isso. Comecei a tremer.
- É melhor irmos a outro lugar...
- Que nada. Quero que seja perfeita essa noite.
As palavras dele me deram coragem. Não queria que se estragasse por minha causa. Entramos no edifício pelo Hall principal. Havia um segurança encostado numa parede mais ao longe e o zelador estava anotando algumas coisas numa prancheta, sentado à uma mesinha perto do segurança. Era muito sofisticado o lugar.
Kadu me conduziu rapidamente para as escadarias.
- E as câmeras? - perguntei sem fôlego.
- Elas não importam agora.
- Mas...
- Corre, vamos pegar o elevador somente no sétimo andar.
Suspirei de pensar nisso.
Corremos um bocado, desviando de alguns seguranças que vinham de outros corredores. Tentamos fazer o menor barulho possível.
- Kadu, você não está pensando direito - acusei. - Se vamos pegar os elevadores, neles há câmeras. E sempre há um porteiro ou quem for observando essas câmeras. Vão nos pegar.
- Não se preocupe, já disse. - ele falou calmo, sem parecer me ouvir, o que me deixou irritada.
Chegamos ao sétimo andar. Até que eu não estava tão cansada. Pegamos um elevador que nos levou até o vigésimo sexto andar, depois pegamos o outro que nos deixou no trigésimo quarto. Subimos mais uns lances de escada e passamos pela porta que dava à sacada do edifício. Fiquei me perguntando se era tão fácil assim invadir um prédio. Principalmente um como esse.
Foi maravilhoso sentir aquela ventania da noite no rosto. Meus cabelos se sentiram livres para voar, assim como algum pombo que passara voando um pouco ao longe. Mas eles chegam a essa altura?
Ficamos um tempo adimirando a lua quase-cheia e os edifícios com suas muitas luzes ligadas. Os carros passando lá em baixo, mas ainda sim estava um silêncio delicioso.
- Essa é a coisa mais louca e romântica que alguém já fez por mim - eu disse a ele, encostada no murinho de costas para a cidade. Ele veio e ficou na minha frente. Me deu um frio na barriga a sensação de cair lá embaixo.
- Está gostoso o vento, né? - e me beijou de um jeito apaixonado.
Jamais senti um medo maior do que o que ele me fez passar. Ainda me beijando, senti ele me agarrando e me suspendendo. Ele me sentou no murinho do edifício. Me senti insegura, como se eu fosse cair a qualquer momento. E olhar para baixo e me deparar com aquela altura não ajudava em nada.
- Não tenha medo, anjinha. Não vai acontecer nada contigo.
- Tenho medo de altura, me desce... - eu falava rindo de tanto mando que eu estava.
- Não precisa temer. Preciso de você e não te faria mau algum - ele falou me olhando de um jeito alegre - Como vou te levar às nuvens agora?
Bati no braço dele de leve.
- Bobo. - Então pensei em algo melhor para dizer. Na verdade foi como se isso escapasse da minha boca. - Há outras maneiras de me levar às nuvens.
Então ele preencheu todo meu corpo com o seu.
Estava ventando, mas não era um vento frio. E não me arrepiei quando ele tirou minha blusinha, deixando-me somente com o sutiã.
Suas mãos continuavam passeando por meu corpo, mas eu não queria que ele parasse. Estava entregue àquele prazer que eu sentia. Uma adrenalina emocionante.
Ele me colocou de costas para ele. Apoiei minha perna direita num degrau e deixei a outra no chão. Kadu então foi beijando suavemente minhas costas nua. Sem pressa, desabotoou meu jeans e o abaixou. Ele não me permitia lembrar que havia formas de nos pegarem ali. Na verdade estavamos muito alto, e não havia câmeras do lado de fora. Só quem nos observava era a linda lua brilhante, que parecia não estar tão longe. Além das elétricas, sua luz nos iluminava por completo. Não havia tantas nuvens no céu.
A briza então decidiu acariciar minhas pernas, o que me fez perceber que eu estava sem a minha calça e sem também minha roupa íntima.
Ainda inclinada para a parede, com o rosto bem encostado na parede, Kadu dava beijos em meu bumbum, apalpava e deslizava sua mão quente pelas minhas costas, levando-a até a altura da minha cabeça, que as vezes ele puxava para baixo pelos cabelos. Eu estava totalmente entregue. Não queria que ele parasse. Ele não iria parar.
- Está na hora - ouvi ele sussurrar, levantando-se e ficando junto a mim. Fui penetrada com cautela...
A adrenalina, os movimentos dele, a cidade a minha volta, os carros passando na velocidade que se permitiam... vi o céu e estrelas também. Debruçada sobre aquele muro, em todas as posições possíveis para os corpos humanos. Para nós. A maior loucura que eu fizera, e acho que jamais faria algo pior que isso.
Então me senti diferente. Meu corpo esquentou de repente. Até tremi, mas não de frio. Senti Kadu fazendo movimentos mais rápidos e decisivos. Foi então que ele me encheu de algo quente e expesso. Eu estava de quatro, com os braços apoiados no chão. Enquanto ele gemia de prazer intenso, me segurou pelos seios e me puxou para ficar de joelhos como ele. Beijou-me e senti seu rosto suado. Então ouvímos algo não muito longe daqui. Ainda de joelhos, vi o que jamais tinha visto ou o que jamais sonharia em ver porque até aquele momento, eu sabia e tinha a sã concicência de que aquilo não existia. Vi um anjo debruçado com um trompete, ou algo do tipo, anunciando alguma coisa. E ele soprava...
Logo surgiram outros anjos e mais trompetes. O mais próximo de nós estava no topo do edifício, em pé, com o trompete na boca, anuncinado o mesmo que os outros.
Não estava uma barulheira, como deveia estar. Parecia ensaiado.
Os anjos tinham os olhos todo branco. Sem pupíla. As asas negras como de águia eram bem visíveis. Logo eu pude ver diversos anjos de uma vez e isso me assustou. Principalmente quando fui pegar minhas roupas no chão e fui me segurar em Kadu. Ainda estava nu e sem medo algum de cair, estava no parapeito do prédio com os braços abertos, como se recebesse raios invisíveis. Então um sorriso de triunfo brotou em seu rosto e ele me olhou. Um olhar de agradecimento e ao mesmo tempo de safado. Não consegui entender nada do que estava acontecendo.
- Obrigado a todos. Deu certo. Deu certo - ele gritava para o nada. Mas na verdade eu sabia que era para os anjos que a pouco estavam nos observando. Sumiram? Eu não os via mais.
Continuei observando-o sem entender muita coisa. Não consegui ficar tão amedrontada quando deveria, pois eu com certeza estava entorpecida no momento. Algo me impedia de pensar naquela irrealidade que acontecera e estava acontecendo. Cheguei mais perto dele para perguntar o que seria tudo aquilo.
- Obrigado, linda jovem - ele me disse fitando meu rosto. Realmente estava alegre. Eu nem dissera nada.
- Obrigada eu - falei parada muito próxima dele. Estava receosa que ele caísse lá embaixo. Mas ele não estava sentindo o mesmo que eu, pouco estava preocupado por ainda estarmos sem as roupas. - A pouco eu vi um...
- Um não, vários - ele afirmou com precisão. - Anjos. Também sou um. Você acaba de me devolver as asas.
- Sério? - que pergunta mais retardada. Garota, anjos não existem! - Mas como eu fiz isso?
- Paixão e muito prazer.
- Pode me explicar? - pedi olhando atentamente para ele. Aproveitei para cruzar os braços, enquanto ele pulava ao meu lado e recolocava a cueca box branca que usava muitos minutos antes de eu arrancar com os dentes.
- O ritual mágico constituía em encontrar uma moça e que houvesse a confiança pura entre o sacrificio e o anjo.
- Eu fui um sacrifício?
- Sacrifiquei sua vida pois preciso do que esse ritual gerou e vai gerar.
- Do que está falando? - me assustei. Recoloquei minha blusinha, e minha calcinha enquanto isso. Não estava descalça.
- Houve uma troca de sangue. Isso faz parte do ritual. Para a troca de sangue ocorrer, o sacrificio deve estar entregue a paixão e pedir o prazer. Você o fez direitinho. Para que desse mais certo ainda, precisávamos ser assistidos pelo ante-penúltimo dia de lua crescente. Isso faria com que minhas asas voltassem, pois eu reestabeleceria a magia sobre você. Eu também gostei de você e estava entregue a paixão e ao prazer. Como eu não gostaria? Só o fato de eu voltar a ser eu mesmo denovo... - e ele ficou de costas e estendeu os braços deixando-os á altura dos ombros. Logo, compridas asas negras puderam ser vistas por mim por poucos segundos. Logo ela desaparecera, como se só piscasse ali.
- Eu as vi de relance... eu não consigo entender o que quer me dizer.
- Você não pode ver minhas asas. Sabe que elas estão aqui, mas não poderá vê-las. Mas nosso filho poderá ver... tudo. Do jeito como o mundo é.
Meus olhos lacrimejaram.
- Nosso o quê?
- Você está grávida de um semi-deus agora.
- Como pôde fazer isso comigo? Nem sou maior de idade ainda... como vou cuidar de um filho? E o que diabos é semi-deus?
Ele revirou os olhos.
- Semi-deus é uma criança metade-humana, metade-deusa. Ele será mais poderoso do que eu. Eu usei você, mas vai me recompensar. Vai me agradecer depois. Agora, eu preciso ir.
- O quê? Como assim? Me explique tudo. Tudo. Não pode ir e me deixar grávida. Assim desse jeito - eu estava gritando. Estava histérica e queria bater nele. Que cachorro dos infernos.
- Quanto menos você souber, melhor. A única coisa que deve saber é que tudo o que você desacredita, existe. Vou tentar te proteger de imprudências, mas não será sempre. Por ora, pelo menos, está só. Volto daqui a uns anos para saber como está a criança.
No momento em que eu fiquei de costas para pegar um pedaço de ferro que estava escostado na parede da entrada e fui para bater nele, Kadu havia desaparecido, assim como suas roupas.
Fiquei imaginando como eu passaria pelos seguranças do prédio, agora. E minha mãe já deveria estar louca atrás de mim.
Minha cabeça estava doendo e eu me sentindo um lixo. Deprimida, jogada fora como nada. Usada e enchida com uma coisa nojenta e repugnante. Estava agora dentro de mim.
Não me lembrei de me vestir. Alguma coisa com certeza estava confundindo minha cabeça. No elevador espelhado do teto ao chão, vi meu corpo como estava: algumas marcas da relação, o cabelo estava meio rebelde, minha blusa estava no lugar adequado, e me deparei com minhas pernas e minha calcinha branca, fio-dental. Não coloquei o jeans. Prendi meu cabelo e sequei a lágrima que escorria agora, borrando meu rímel. Não estava sentindo frio... eu estava quente. Vingança.
Ele me dissera algo sobre precisar dessa criança e desse desafio. Agora eu precisava destruir isso. Estava decidida a acabar com os planos dele. E principalmente com esse ridículo de ter um filho logo cedo. Eu iria me jogar na frente do primeiro carro que passasse.
Decidida a me matar para não destruir a minha vida - embora, eu não conseguia pensar por mim mesma. Parecia que alguém dentro de mim o fazia. Peguei uma daquelas marretas que servem para quebrar janelas em caso de incêndio e levei-a na mão. Com certeza algum segurança me veria ali dentro e me seguraria até a polícia chegar. Eu teria de matá-lo.
E foi o que fiz com o primeiro que se espantou ao me ver. Era um cara de uns quarenta anos. Cortei o pescoço sem dó. Mas aquela não era eu. Eu só estava vendo, usando os olhos. Minhas mãos e pernas outro ser controlava. Era essa a unica explicação. Até meus pensamentos, minhas decisões.
Droga!, acabei cortando mais um. Não tive certeza se esse morrera, mas eu avancei como uma onça em suas costas e ele caiu no chão desmaiado.
Quando finalmente deixei o prédio, me vi numa rua totalmente vazia, exceto pelos carros já estacionados.
Vi o carro de Kadu, que agora eu tinha a certeza de não ser dele, e sim de alguém que ele roubara.
E depois eu vi em minha cabeça algo que eu nem estava vendo exatamente.
Olhando cabisbaixa pelas ruas desertas, tudo o que ela pode ver. Os sonhos se tornando sólidos, tornados reais.
Todos os edifícios, todos aqueles carros. Eu os via na minha frente, mas de relance, via como se eu estivesse do alto. Como se voando rápido.
Ignorei essas imagens malditas sacudindo a cabeça. Um Trolebus se aproximava. Ouvi seu barulho aos poucos e o farol. Corri o que consegui com os saltos em direção do Trolebus, mas eu fui jogada para a calçada.
- Fique longe de mim, Kandauberth! - eu gritei, mas com uma voz longe de ser a minha.
Saí correndo de onde eu estava e fui para o lado mais perigoso que achei. Seguindo pelas ruas movimentasdas de escórias. Homens que usavam todo o tipo de drogas, mendigos e quem sabe também sedentos pelo sexo. Continuei com o pique pois eu estava apropriada para um estupro. Novinha e gostosa e ainda nua...
E quando eu corri na direção dos caras, o chão mudou. Não eram mais aqueles pedacinhos de pedra branco e preto, era um buraco enorme, como se eu estivesse num penhasco. Mais um passo e eu cairia num vão negro e amendrontador. Não queria morrer assim. Voltei então para as ruas. Quando voltei, olhei para o telhado do prédio de três andares que tinha mais a frente. Pude ver Kadu e uma mulher brigando. Discutiam algo.
Ela agora lutava com ele. Dava socos e tentava chutá-lo. Ele se defendia como podia. Eu agora era um ser mágico também? Podia ver anjos? Pude ouvir quando ela disse: - Você não precisava dela! Você me traiu!
Essa anjo era a namorada dele?
Corri em direção ao prédio para ouvir melhor, já que eles gritavam a vontade, já que ninguém ouviria mesmo.
- Pare de tentar matá-la Randret, meu bem. E o nosso semi-deus? Como vamos vencer essa guerra sem ele?
- Kandauberth, você não deve acreditar no que aquela velha idiota disse a você. Isso é só um rumor - ouvi mais um tapa. - Seus amigos não entraram nessa, entraram?
- Não, apenas eu. Mas no meu caso é diferente. Ele será o mais poderoso que já existiu. Ele foi feito da manera correta. O ritual foi feito como se seguiu com Agnâncio Bouregard III.
- Sei quem foi ele, mas isso não se deve ao fato de você fazer a troca de sangue com aquela humana nojenta.
- Depois falamos disso. Você está em missão e eu acabei a minha. Preciso repor as energias e a humana descansar. Não a mate ou estaremos fodidos.
- Estaremos o quê? - ela perguntou sem entender.
- Deixa... - ele falou sem graça - você não entenderia.
De relance, vi suas asas negras se estenderem novamente e se juntarem a escuridão da noite. As da moça eram mais passivas. Bonitas de se ver, mesmo que por menos de dois segundos. Podia ser a minha visão turva e a sequencia ser rápida demais para meu raciocínio, mas eram roxas. Um roxo brilhante. Mas só de eu piscar, eles desapareceram.
Queria eu desaparecer. Nua, machucada e grávida, fui para uma estação, fechada pelo o horário tardio, tentar o caminho de casa.

Pela última vez


Ele estava misterioso ao telefone.

Jamais tinha ficado tão tenso ao falar comigo, embora, nos ultimos dias ele estivesse sim, muito estranho.

Aquele sorriso que ele abria sempre ao me ver, o abraço apertado que sempre demonstrava saudade e logo em seguida o beijo molhado significando desejo, já pareciam não existir mais.

Havia alguma coisa acontecendo, mas ele não me contava nada.

A ligação fora para me dizer que o esperasse aqui em casa, que eu não fosse encontrar com o Lipe. Um amigo que ele suspeitava que gostava de mim, embora eu sempre tirasse essas bobagens de sua cabeça. Lipe e eu marcamos de ir ao shopping comprar roupas esportivas para a academia que começaríamos a frequentar na semana seguinte, aproveitando, iríamos comer e quem sabe ver um filme.

Nos momentos em que antecediam a chegada de Rafael, que estava vindo do trabalho, mandei uma mensagem de texto à Lipe, dizendo que me esperasse um pouco mais pois eu me atrasaria. Mesmo sem contar a Rafael, eu iria sair mesmo assim com Lipe. Afinal, seria um encontro para questões acadêmicas, literalmente.

Por minha cabeça passavam zilhões de coisas. Não, ele não descobrira que eu ficara com um garoto na última festa que fui. Não tinha como saber, e eu... estava bêbado, e chateado com ele por não querer ir comigo. E além do mais, nem lembro do rosto desse menino, e nem mudou o amor que sinto por ele.

Deitei-me na cama e fiquei ouvindo músicas que lembravam nós dois. Nossos momentos juntos, nesses quase nove meses de namoro.

Quando ele chegou, já estava quase chorando com uma música melancólica. Ele estava com uma aparência cansada quando abri a porta. Sua pele estava suada, uma camiseta preta com gola V, justa ao corpo musculoso, seus olhos brilhosos demais... Hesitou na soleira da porta, esperando eu sinalizar para que entrasse.

- Demorei muito? - ele perguntou para quebrar o gelo, dele próprio, talvez.

- Acho que não. Não - falei por fim.

Sentamos um na frente do outro, na mesa da cozinha. Ele colocou a mochila no chão e pediu para que eu lhe desse algo para beber. Levantei, peguei uma garrafa de Coca-Cola na geladeira e pus em cima da mesa para que se servisse.

Sentei novamente e ele disse: - Prometa que - ele esperou mais um pouco -, não irá chorar.

Aquilo logo me queimou por dentro. Ai, ai, ai, o que estava por vir?

- Dino, talvez essa seja a ultima vez que tomamos uma Coca-Cola juntos. - Fui com a minha mão segurar a dele, mas ele a afastou, me rejeitando. - E talvez seja a última vez em que nos vemos.

Meus olhos se encheram de lágrimas e já não precisava ouvir mais nada para me fazer chorar mais do que já estava chorando.

- Portanto, peço que me entenda... - e ele levantou meu queixo, mas logo abaixei a cabeça na mesa.

- Você tá terminando comigo? - falei aos prantos, tentando enxergá-lo em meio as lágrimas.

- Por favor - ele pediu com a voz calma e doce -, como verdadeira lembrança sua, eu quero um sorriso. Aquele lindo que você costuma iluminar onde está.

- Como posso sorrir quando você está me matando? - agora eu soluçava e tremia. Mas ele não tentou me fazer sentir melhor. Percebi que estava decidido.

Ele ficou calado me vendo chorar. A dor era forte demais.

Parecia que ele não entendia. Uma vida, queria passar a vida inteira com ele, morar com ele, amá-lo todos os dias... nosso amor era perfeito.

- Eu quero um sorriso seu como última lembrança. Por favor, não chore, não chore! - ele pedia com os olhos cheios de lágrimas.

- Por que última lembrança? Onde você vai? Por que está terminando comigo?

- Não podemos ficar mais juntos. Sabe dos problemas que existem entre a gente. Tem os meus pais, tem o restante da minha família que não nos aceitam...

- Mas não é com eles que você vai viver! Pense melhor, não faz isso comigo.

- Você não está me entendendo. Eu queria ter filhos. Filhos meus. Uma família, ser respeitado.

E a cada palavra eu recebia um corte de foice que atravessava meu coração e peito.

- Mas não é o que você quer. É o que eles querem. Você está cego.

- Lembra daquela tarde em que nos conhecemos? - ele perguntou segurando o choro. Não havia notado que ele mudara de assunto, pois estava ocupado limpando meu nariz e secando meus olhos.

- Como eu poderia esquecer, seus olhos brilhavam como águas cristalinas, aguas que pareciam que eu iria me afogar se tentasse nadar. Vi sua felicidade ali.

- Foi lindo mesmo te conhecer...

- E isso não é ótimo? Tudo que fizemos foi especial, por que quer jogar tudo fora?

Percebi que eu havia o interrompido quando ele disse sem ter me ouvido: - E mais bonito ainda o que aconteceu entre nós, no dia do seu aniversário. Mas já passou, já passou.

E ele fitava o nada enquanto falava. Ainda segurando o choro.

- Agora é preciso que nos separemos. E devemos seguir sem nenhum vínculo.

- Para de falar essas coisas, não aguentaria ficar sem você. Sem te ver, sem saber se está bem.

- O nosso amor estava se transformando somente em rotina, e o amor... O amor é uma outra coisa.

- De onde está tirando essas coisas?

- A sua Coca vai perder todo o gás - ele falou distraído. - Nenhum de nós é culpado, nenhum de nós. Mas desde que começamos a trabalhar, temos nos visto cada vez menos.

Eu ainda estava de cabeça baixa, não conseguia nem respirar direito. Já estava com vontade de vomitar de tanto que já chorara.

- Por favor... Por favor, não chore mais, não chore.

- Eu te amo, te quero, te amo!

- Não, você se acostumou a mim, o amor é uma outra coisa.

Ele então se levantou. Pegou a mochila do chão e estava prestes a sair.

Olhei pra ele com raiva mas chorando mesmo assim.

- E você não liga para o que eu sinto?! Acha que meu coração é feito de papel para você rasgar, amassar e depois jogar fora?

- Dino, eu...

- Sabe o quanto eu me sacrifiquei? - acabei berrando. Ele me fitou um pouco assustado e triste. Subi a manga da blusa de frio que eu estava usando e lhe mostrei a tatuagem que continha seu nome. Era uma lua crescente lilás e ao lado seu nome numa caligrafia impecável. - Isto também nem significa nada pra você, né?

Ele olhou para a tatuagem e começou a chorar, eu o abracei bem forte e ficamos os dois chorando.

A porta só nos observava.

Quando nos soltamos, ele suspirou, limpou os olhos e disse: - Agora eu vou indo, eu vou embora.

É o melhor para nós.

Então se lembrou e pegou o anel prata que estava em seu dedo. Retirou-o e me entregou. Afinal, eu tinha comprado o par.

Chorando novamente, ele falou:

- Eu quero que você tenha sorte, muita sorte. E que seja muito feliz. Que encontre alguém e o ame muito. Quem sabe o Lipe? Ele parece que gosta muito de você.

- Você está quase careca só de saber que ele é só meu amigo... eu só amo você, só você caramba! Você é a razão da minha existência. Sem você estou cego, sem você eu entrego meu corpo à própria sorte.

- Não gosto quando fala essas coisas... me preocupo contigo - ele chorou mais ainda.

- Então me beija e diga para eu esquecer tudo isso, diga que você enlouqueceu e...

- Adeus, adeus - ele disse por fim. Abriu a porta e já estava se afastando.

Me desesperei quando notei que estava mesmo perdendo o amor da minha vida.

E perderia sim, pois eu sabia que em breve os pais dele mudariam de cidade, levando com eles Rafael. Será que era isso? Ele já estava se despedindo?

- Eu te amo, te amo, te amo! - eu falava chorando, ajoelhado no chão. Até batia a cabeça nele quando caí. Fiquei uns segundos lá na soleira vendo ele se afastar e sentindo meu coração vazar sangue. - Adeus. Tchau.

Então pensei melhor.

Fui até seu encontro e agarrei seu braço.

Quando o virei com força, ele me olhou incrédulo.

- Você vai mesmo conseguir viver sem meus beijos... - eu o beijei, do melhor jeito que pude. Alisei seus braços enquanto isso. Estávamos no corredor que dava acesso à rua. Ninguém estava nos vendo. Continuei fazendo minhas mãos passearem por seu corpo - vai viver sem meu toque? Não quer ficar uma ultima vez comigo? - e eu falava não mais alto que um sussurro, perto de sua orelha. Ele estava com os olhos fechados.

Quando me dei conta, estavamos na cama de casal do quarto da minha mãe, eu tirando sua camiseta suada e a jogando no chão.

O desejo falou mais forte. Nos unimos mais uma vez, mas dessa vez foi melhor. Parecia que o medo que ele tinha de me perder tornou muito especial a nossa relação. Estavamos sedentos, excitados, precisavamos entrar um no outro. E logo o frio da depressão que eu sentira... se transformara em calor. Chamas ardentes como se logo ao lado estivesse uma fogueira com muita lenha recém-cortada.

Cada movimento, cada beijo, cada toque, cada arrepio... cada gemido de prazer!

Quando acabamos com nosso ritual do amor, ele ainda deitado por cima de mim. Eu acariciando suas costas nua.

Ele me beijou e disse: - Acho que eu preferia morrer a deixá-lo.

Olhei para ele, bem no fundo de seus olhos e sorri.

Meu celular começara a tocar de repente. Era uma mensagem de texto.

- Pega meu celular, por favor? - pedi a ele. - Está ao lado da TV.

Ele pegou e aproveitou e leu: "Ah, o.k. então, te espero no lugar de sempre. Não vejo a hora de te ver denovo. Sabe q eu te amo muito né? Bjos" , uma mensagem do Lipe. - falou para finalizar e me olhou com uma cara de ironia.

Fiquei mudo uns instantes. Ele morria de ciumes do Lipe.

- Bom, agora "não sobrou nada para dizer, exceto adeus!"

E eu deixei meu amor ir embora, provavelmente com o coração magoado.

Vontade de Matar


- Não faz 4 dias que ele foi enterrado. Okay, mas... Tudo bem. Já estou saindo. Ainda não me falaram nada... Não precisa chorar Thamires, quando voltar-mos agente passa na casa da mãe dele. Tá bom, tchau - desliguei o celular.

Coloquei uma camiseta e fui até a pia do banheiro para escovar os dentes. Nossa, desde o assassinato de Kauê não consigo dormir direito, é como se ele ainda estivesse ali comigo. Meu melhor amigo. Meu rosto está amassado e com olheiras. Nem vou fazer a barba hoje. Nem está tão grande.

Thamires me pediu para que eu fosse encontrá-la no cemitério Vila Mariana. Ela namorava meu melhor amigo Kauê Shimoda, asiático, fora assassinado na própria casa com 13 facadas na região do coração. O engraçado é que quem merece não morre assim!

Depois de uma tentaiva inútil de melhorar o rosto, peguei as chaves e fui encontrar o carro na garagem do edifício. Já sentiu a sensação de estar sendo observado? Parecia que algo me seguia, como se fosse algum detetive da polícia que estivesse vigiando as pessoas próximas à Kauê, já que na cena do crime, não houvera arrombamentos, furtos e nem nada mais macabro que sua morte.

Não dei atenção ao tal detetive que não fazia seu trabalho muito bem e liguei o carro. Ao colocar o carro na marcha ré, senti passar por cima do que me pareceu um corpo. Entrei em pânico. Aproveitei que não havia ninguém mais no estacionamento subterrâneo para dar uma espiada no estrago.

O que o sono faz às pessoas? Ele as enlouquece? Faz coisas se mexerem mesmo ela estando paradas e completamente imóveis? Não havia nada embaixo do carro. Sem vestígios de sangue, o pneu não estava furado, não havia sacos de lixo nem nada. Só me pergunto: Que lombada foi aquela?

Entrei no carro novamente. Levei um susto quando a porra do meu celular toca de repente.

- Onde você está? - perguntou Thamires esbaforida ao celular.

- Tô na Lacerda Franco. Só vou virar à esquerda e depois à direita e pronto. Feliz? - Opa! Péssima pergunta para agora. - Não foi isso que quis dizer, não nesse sentido.

Ela desligou o celular.

Eu já não era muito fã de cemitérios, principalmente visitá-los depois das 19 horas.

Não foi difícil encontrar Thamires, sentada no chão olhando a lápide do corpo de Kauê ao longe.

Lugares assim, quando você anda, sente um desconforto nas costas... Uma insegurança. Como se seu anjo da guarda não estivesse te seguindo mais e sim uma presença maligna. Apressei o passo.

- Há quantas horas está aqui? - perguntei. Seus cabelos que eram lisos e bem cuidados, agora estavam bagunçados acho que de tanto ela chorar e passar a mão para o lado. Seu rosto estava pálido, o rímel borrado. Seu jeans estava sujo da terra que tinha no chão do cemitério. Sem falar nas olheiras que pude evr claramente apartir da hora em que a luz de um poste vizinho nos iluminou.

- Não sei - ela me disse como se estivesse sem ar. Olhei bem pra lápide e já até me cansei. Como ela ficou tanto tempo ali? Que coisa chata, era como se passasse um clipe com seus momentos. Ela fitava com vontade a lápide onde indicava: KAUE MATZACUDA SHIMODA

*14-FEV-1982 +10-OUT-2010 MENTIRAS SÃO FRACAS, ELAS SEMPRE PERDEM, A VERDADE É DE DEUS POR ISSO SEMPRE APARECE. Li e re-li a frase para passar o tempo.

Thamirez ao me olhar de verdade perguntou:

- Como sabia que eu estava aqui?

Agaixei-me para olhar em seu olho.

- Tá doida? Nos falamos no celular não tem menos de 10 minutos.

- Meu celular estava com o Kauê quando ele... - ela apertou os olhos - Os policiais levaram para fazer alguma coisa. Ficaram de me entregar depois. - Ela passou a mão no cabelo outra vez. Cobriu o rosto com as mãos. - Não avisei ninguém que viria, como soube que eu estava aqui?

Efeito do sono? Não, dessa vez era alguma maluquice, e minha eu sei que não era.

- Thamires, como é que eu falei com você mais de cinco vezes hoje e você me diz que não está com seu celular há 4 dias? Ontem falei duas vezes com você!

- Sérgio eu já disse que meu celular não está comigo. Se quer saber, ontem eu estava na casa da minha avó ainda. Não pude deixá-la até meu tio Daniel chegar. Sendo que eu estava desesperada pra sair daquela cidadezinha e vir para o enterro... Dele. Mas nem pude. Chorei a noite toda quando minha mãe disse.

Meu estomago começou a revirar. Aquele lugar já estava me dando náuseas.

- Eu juro que não entendo. Era você... era você! - eu tava começando a surtar com a idéia de estar louco. Mas eu tinha no subconciente que era o sono. Mas... anteontem eu não estava com sono quando falei com "ela", não tanto pelo menos. Mas agora era diferente, 41 horas.

Fitei a lápide de Kauê para tentar me distrair por alguns segundos, mas estes pareceram horas. Por passe de mágica, fui levado à lembrança da nossa penultima noite juntos. Me peguei pensando em nós, melhores amigos numa balada de eletrônica, no dia que eu apresentei a Vanessa para ele como minha namorada. Não sei o porque, mas lembrando disso, pude ver detalhes dessa lembrança. Como ele a olhou, como ela o olhou e como eu estava bêbado naquela noite. Não sabia quem me levara ao meu apartamento ou trouxera meu carro. Acordei de ressaca e fiquei em casa. Sorte que era domingo. Quando fiquei totalmente sóbrio, peguei meu Smart e liguei para Thamirez pra saber como tinha sido a noite passada. Pois eu não me lembrava de nada. Lembro-me de quase tudo da conversa.

- E quem levou a Vanessa pra casa? - perguntei.

- Depois que levamos você até aí, Kauê me deixou em casa e disse que podia levar a Vanessa até a dela.

- Humm. Beleza. E aí, ele te mostrou a aliança?

- Que aliança? - senti sua voz de animação total.

- Ops. Desculpe os Spoilers, pensei que ele tinha te mostrado - ela deu um grito muito alto, então me despedi e desliguei, só não sei se ela me ouviu.Tentei ligar para Vanessa, mas só caía na caixa postal. O mesmo acontecia com o celular de Kauê. No instante fiquei preocupado pensando que poderia ter acontecido um acidente ou algo do tipo, mas também pode ser que um está sem rede e o outro descarregado.

Perto da hora do futebol, fui ao bar de um amigo que ficava na esquina da minha rua para ver o jogo lá e tomar algumas cervejas ou Coca com Montilla. Mais tarde eu passaria na casa de Vanessa para amá-la um pouquinho. O jogo começou.

Despertei do devaneio meio assustado.

Olhei para a mão de Thamirez. Não havia sinal de anel algum. Por quanto tempo eu apaguei sem que ela percebesse.

- Vamos sair daqui Thami? Preciso dormir e você comer um pouco - levantei e estendi a mão para que ela tivesse um suporte para levantar. Ela se agarrou ao meu braço enquanto subíamos a pequena ladeira até o portão de saída. Tive a impressão de alguem atrás de mim chamar meu nome. Mais uma vez o sono, sempre ouço milhões de vozes em minha cabeça e me distraio fácil, por isso, decidi deixar o carro ali e ir a pé para casa. Mais tarde eu pegaria o carro.

Na calçada do cemitério, Thamires ainda estava agarrada em meu braço. Acho que um estava servindo de apoio ao outro. Fazia 4 dias que eu não a via. Seu namorado estava morto e ela precisava mesmo de um apoio. Não sei de onde, apareceu um louco na nossa frente e falou em nossa direção:

- Eu não gosto de você! O que fez não tem perdão. Só passei pra dizer que ele te espera com sua família. Não demore!

O louco passou por nós e seguiu seu rumo. Nos entreolhamos.

- Ele disse pra você ou pra mim? - perguntei.

- Nem ouvi o que ele disse. - ela deu de ombros, secando o nariz. Estava muito chorosa.

Deixei Thamires em casa. Passei no primeiro bar que vi e pedi um café bem quente. Em seguida fui na delegacia onde estavam apurando o caso de Kauê tentar retirar o celular de Thami. Depois de horas argumentando, e depois deles informarem que já não precisavam mais, consegui retirar o celular de Thami, assinando um relatório que nem sei exatamente do que era. Não pude ler, só estava precisando saber o que continha naquele celular.

Quando cheguei em casa, o sono e o cansaço me fizeram desmaiar na cama, afinal eu precisava estar recarregado para o dia seguinte. Não foi difícil sonhar com aquelas cenas outra vez. As que mais me fazem perder o sono.

Estava eu no bar, vendo o jogo do palmeiras e guarani, quando sentou o primo do Kauê no banco ao meu lado.

- E aí Jeff? Beleza? - cumprimentei-o

- Beleza cara. Nem chamou o Kauê pra vir beber com você hoje? - seu tom de voz era meio presunçoso.

- Nem sei onde ele está. Liguei pra ele mas só dava caixa postal.

- Ah! Ele desligou o celular mesmo, antes de eu sair pra trabalhar.

Kauê e o primo moravam juntos.

- Você trabalhou hoje? Vida de porteiro é dura. Não estudou, se lascou! - eu ri dando-lhe um soco leve no braço.

- Pois é. Não é facil mesmo. Pra uns é até legal, enquanto uns saem para trabalhar e outros dormem, outros levam mulheres da balada pra dormir em casa...

- Kauê fez isso? Quando? - interessei-me muito pelo papo.

- Hoje oras - ele parecia que queria chegar a algum lugar. - Hoje de madrugada vocês não estavam numa balada aí?

- Sei, mas nem lembro muito, fiquei bêbado lá. Comemorando a promoção lá no trampo.

- Hmm, legal. Parabéns - ele apertou minha mão. Demonstrou estar feliz de verdade. - Só acho que se a Thamires souber ela não vai gostar.

- Claro que ela não vai gostar, traição é traição. Eu não suportaria.

- Acho que eu matava um se alguém me traisse - ele disse me olhando estranhamente. - Os próprios infratores, de preferência.

Para descontrair e tentar olhar o jogo, eu disse:

- Seu macabro! - rimos sem parar.

O bar inteiro se agitou com um gol do palmeiras.

- Agora eu bebo com alegria. Verdão tá 1 à 0 - falei dando uma boa golada na minha Coca Amontilada.

- Agora só preciso de uma loira como a que meu primo levou pra casa hoje - ele disse feliz com o gol do palmeiras.

- Uma loira? - levantei a sombrancelha.

- Antes de sair, eu o ouvi a chamar de Va... "Va" alguma coisa. Vanessa! É foi isso.

Quase cuspi a Coca Amontilada na camisa de um homem que estava sentado no banco à minha frente. Estavamos encostados a um balcão. Meu peito começou a queimar, e logo a doer.

- Como é? - loira e se chama Vanessa, estava com Kauê, sendo que ele foi levá-la pra casa. Os dois celulares estavam desligados até aquela hora. Jeff ainda não voltara pra casa desde que saira do serviço. Céus, será que... não!

- Quando a vi mais cedo, podia jurar que eu ja tinha visto aquela moça com você antes. Talvez você já tenha ficado com ela.

- Acho que você ta falando de alguem que eu conheço - tomei outro gole de Montilla, mas sem a Coca dessa vez. Minha sobrancelha estava levantada, era assim que acontecia quando eu começava a me irritar.

- Conte essa história direito - segurei no braço dele, talvez forte demais.

- Ei, larga aí! Se aquela era sua mina, deveria bater no Kauê, o talarica sem vergonha, eu nem sabia - ele defendeu-se - Só tava comentando.

- Beleza - tentei me acalmar. Fitei-o com ódio, mesmo no fundo sabendo que seu unico defeito fora fazer inferno comigo. Peguei uma nota de $20 e dei ao meu colega dono do bar. Sai em disparada do bar.

Parecia que eu só tinha fechado os olhos. Acordei todo suado. Um calor como jamais tinha sentido antes. Senti-me sem ar. Tirei a camiseta. Na hora vi o celular de Thamires que ainda estava dentro de um saco plástico. Peguei o celular e começei a mexer a procura de informações. Fui primeiro nas ligações feitas. Confirmado, eles haviam se falado por quase uma hora no dia da morte do Kauê. Certamente foi depois de uma bela madrugada de sexo proibido, daí ele ligou para conversarem sobre o que tinha rolado, e que agora estava gostando mesmo dela e essas babaquices que o Kauê faz com todas. Mas com a minha Vanessa e ele tendo a amorosa Thami? Quase destroçei o celular quando fui nas mensagens recebidas. Não prestei atenção no número mas parecia o dela, só a mensagem parecia que pulava do visor do celular. Parecia que a voz de Vanessa gritava pra mim: AMOR, ACHO QUE ESTOU GRÁVIDA, COMECEI A SENTIR OS SINTOMAS ONTEM. E AGORA, O QUE FAREMOS? Essa mensagem vi que foi enviada um dia depois de ele morrer, afinal, só foram encontrá-lo morto muitas horas depois. No dia seguinte. Eu o encontrei.

Larguei o celular no chão me lembrando do dia 10, ultimo domingo de Kauê Shimoda.

Depois que saí do bar, me senti um montro, sai correndo pra buscar meu carro e ir encontrá-los. Pegá-los no flagra. Mas não tive essa sorte. Nem mesmo Kauê sabia, mas eu tinha uma chave de sua casa. Uma cópia completa desde a do portão à porta.

Quando ele saiu do banho, eu estava sentado à uma das cadeiras. Ele levou um baita susto. Já estava vestido, pois se não o tivesse, teria deixado a toalha cair.

- Como conseguiu entrar? - ele perguntou surpreso.

- Não estava trancada - respondi com um tom normal. - Por que está nervoso?

- Olha... Sérgio, antes que meu primo diga alguma coisa...

E o desgraçado se entregou. Então era mesmo verdade.

- Achou que eu não saberia, né? - levantei-me da cadeira, jogando-a no chão. Ele recuou uns dois passos.

- Calma aí Sérgio. Thami deve ter lhe contado que...

- Pobre da Thami, enganando-a e com quem? Com a Vanessa, Kauê! - Não aguentei e dei-lhe um soco no nariz com toda a minha força. Ele caiu pra trás batendo a cabeça na quina da mesa que era quadrada, o que fez a parte de trás da cabeça cortar-se. Ele caiu quase desmaiado no chão.

- Ai minha cabeça... - ele gemia, ou melhor, chorava.

- Isso, chora seu traidor do caralho! Cadê aquela sua frase que você queria por na sua tumba? "Que a verdade é não sei o quê, não-sei-o-que-lá." Hein? Eu a descobri. Descobri a verdade. Ela era minha. MINHA! - saquei uma faca do cós da minha jeans e a afundei em seu peito sem me importar com sua dor ou o sangue que jorrava dali. Depois de fazer a faca ir e voltar algumas vezes, fazendo aquele barulhinho esponjoso que eu estava adorando ouvir, meu braço cansou e minha raiva já tinha passado um pouco. Descontara minha raiva no verdadeiro ser que a merecia por completo. Precisava limpar a bagunça.

Sem pressa alguma, procurei um vidro de alcool que eu sabia que ele tinha, do ultimo churrasco que fizemos. Passei em meu punho e no nariz dele. Limpei todos os vestígios que consegui. Começei a andar por cima de tapetes e panos. Evitei soar, limpei digitais da porta, da cadeira, mesa... Não havia nada para me incriminar.

Consigo lembrar ainda que, quando me preparei emocionalmente, quando pensei melhor no que fiz, decidi ir até lá começar o teatro. Só precisava agora acabar com a mãe de Vanessa e estaria tudo bem.

Foi simples, a peguei desprevenida quando ela saia da escola onde lecionava à noite e a arrastei para trás da escola. Tapei sua boca e não deixei que ela me visse. Dei uma facada em suas costas, na região da barriga, com a intenção de matar somente a filha de uma puta, literalmente. Ela estava grávida de 05 meses de uma menina. Mas que fosse as duas. E para me vingar dela, bati sua cabeça numa árvore, com força suficiente de deixá-la desmemoriada. Essa era a intenção na verdade. Larguei-a desacordada. Com certeza no dia seguinte eles a encontrariam. Oh, foi mal, dia seguinte é feriado das crianças. Acho que os insetos vão ter o que comer essa noite. Sangue docinho. Hmmm.

Mas depois dessas experiências de assassino profissional, tenho sentido coisas, ouvido coisas. Ah é, lembrei de olhar no celular para saber com qual Thami eu estava falando. Não era possível uma coisa dessas.

Mexendo nos menus de chamadas recentes em meu celular, me assustei com o impossível número para qual eu ligava e recebia as chamadas de Thami. No visor do celular, havia os caractéres impossíveis de alguma operadora: HH666. Telefône do inferno? Impossível, essas coisas não existem. Meu celular começou a vibrar na minha mão. Alguem estava ligando... um tal de HH666...

Um arrepio tomou conta de todo meu corpo. Deixei-o chamar enquanto eu olhava ligações recentes minhas no celular de Thami. Nada.

Meu celular atendeu automaticamente e ainda por cima no viva-voz. Agaixei-me na cama para ouvir.

- CALMA AÍ SÉRGIO! POR FAVOR NÃO! SOCORRO! SOCORRO! PARA SÉRGIO - era a voz de pânico e dor de Kauê no celular. Antes de continuar aquela tortura. Taquei meu celular na parede. Pareceu funcionar pois a bateria foi para um lado e o chip para o outro. Para não enlouquecer, fui até onde eu tinha estacionado meu carro, na frente do cemitério, e iria na casa de Thamires.

Quando cheguei, tive uma surpresa em ver uma espécie de "novo velório" na sala de Thami. A Sra. Shimoda, mãe de Kauê, estava sentada no sofá, com Thami detada com a cabeça em seu colo. A Sra. Shimoda alisava os cabelos de Thami enquando ela chorava segurando a barriga. O irmão mais novo de Thami, Victor de 17 anos, estava falando com dois médicos que estavam no portão. Quando entrei, cumprimentei-os normalmente. Sem entender exatamente o que eles faziam ali.

- Thami, o que houve?

Ela não me respondeu. A Sra. Shimoda cuidadosamente deitou a ex-nora numa almofada e veio ter comigo perto da cozinha.

- O que aconteceu com ela? - perguntei preocupado.

- Ontem, depois que a trouxe, ela jura que recebeu uma ligação de Kauê, de um número estranho que mais parecia um código, pedindo socorro. Ele queria que ela o salvasse e o tirasse das mãos e da faca do assassino.

- Ele disse... quem era? O assassino? - perguntei mostrando interesse.

- Santo Deus. Não me diga que você acredita mesmo nela? - ela olhou tristemente para os sofá onde Thami estava. - Já que a avó não está aqui para ajudá-la, eu sou a unica que pode, por isso chamei os psiquiátras para...

- Leva-lá a um sanatório? - completei espantando-me. - Acha que ela está louca?

- Bom... é que... além disso, ela está sofrendo de depressão desde que o Kauê morreu. Até eu, que sou mãe dele estou sendo mais forte. Mas... ela ficou assim depois que perdeu o bebê.

- Que bebê? Ela estava grávida?

- Sim, ela deu a notícia por torpedo, vê se pode? Em vez de contar ao marido em sua presença, sentados, de mãos dadas. Assim como fiz com o Sr. Shimoda muitos anos antes.

- Não consigo entender... o celular dela estava com o Kauê.

- É que, depois que levaram você pra casa, naquele dia que vocês sairam, ela, meu filho e sua namorada passaram na casa dele pra acho que dar uma acordada, e também a Vanessa precisava usar o banheiro, além de lavar o rosto e etc, daí a Thami deitou-se na cama e pra esperar Vanessa e largou o celular na cama dele, e o esqueceu. No dia seguinte, ela mandou pelo meu celular o torpedo para o celular dela, contando a notícia da suposta gravidez. Mas ela ficou triste quando não obteve resposta.

Comecei a ficar sem ar. Não queria mais ouvir aquilo.

- Desculpe-me Sra. Shimoda, ele era meu melhor amigo e... esse monte de coisas me deixa muito abalado. Preciso ir.

Aliás, eu precisava ir num lugar antes. Saí de lá às pressas.

Com o celular de Thami, que eu esquecera de devolver, disquei o numero de Jeff.

- E aí Jeff, beleza? - eu disse com animação muito bem disfarçada.

- Fala Sérgio. O que manda?

- Humm, tem como voçê me encontrar na Avenida Turmalina? Perto do Parque da Aclimação?

- Agora? Tá tarde véio.

- Por favor? - insisti. - Preciso conversar com algum amigo.

- Ta bom, to indo. Te encontro em 20 minutos.

Eu o esperei pacientemente. A armadilha estava armada. Ele tinha que me contar que palhaçada era aquela. Eu tinha sacado metade dela. Como ele era formado em Hardware e em outros cursos de computação, ele sabia como hackear tanto computadores como aparelhos celulares. Seria fácil para ele codificar algum celular para aparecer o código: HH666 que poderia ser muito bem "Health hell - Saúde infernal" - que ele sempre falava quando estava gripado ou com qualquer coisa fora do padrão da saúde - e 666, o número da besta, para me assustar de alguma forma. Agora, as presenças, o corpo que atropelei na garagem e a ligação tanto pra Thami quanto pra mim, isso... não sei explicar.

- Demorei muito? - ele perguntou assim que chegou.

- Vamos entrar no parque. - falei com a voz seca.

Ele não entendeu muito bem, mas me seguiu.

Senti sua respiração mudar, ele ofegava. O medo já havia o possuido. Eu o estava levando para um lugar vazio, onde não houvesse testemunhas para a minha faca agir.

Quando paramos perto de uma árvore de aparência bem antiga, ele disse pra me surpreender:

- Deixe-me ver a faca que está presa ao seu cinto, nas suas costas?

- Como sabe que...

- Ela parece ser feita de prata. Pois é brilhante, jamais foi usada a não ser para assassinar seu melhor amigo e sua namorada.

Eu avancei contra ele, colocando meu braço para enforcá-lo contra a árvore.

- Vai me matar como matou os pobres inocentes?

Nessa hora nem sabia mais o que fazer, a palavra inocentes me deu um forte arrempedimento num coração que eu nem tinha mais, depois ouvi um farfalhar atrás de mim um grito no mega-fone: PARADO! LARGUE A ARMA E MÃOS NA CABEÇA! DEVAGAR! - O filho da puta tinha trazido policiais. Mas como ele fez para me incriminar?

- Assim como você, sou louco também, psicopata, e até doido por facas. Ah... como elas brilham... como elas cortam facilmente a pele de alguém, é uma coisa fascinante não acha? Por isso que gostamos de matar com elas. Gosto do som que faz, e você?

- Cala essa boca seu cretino inútil - dei-lhe dois socos no estômago.

- MANDEI LARGAR A ARMA! AFASTE-SE DA VÍTIMA E MÃOS NA CABEÇA! - os policiais avançavam lentamente. - VOCÊ NÃO VAI SE MACHUCAR, NÃO MACHUQUE-O TAMBÉM!

- Eu só brinquei com você. Eu queria ver você matar. Saber se tinha coragem. Por que, eu vi muito você andar com a Thami e jamais nem trepar com ela. Porra, pensei que você fosse gay. Daí inventei a história mais burra e você caiu. E sabe por que? Por que você é um burro, assassino barato. Tem muito o que aprender. Te dou uma chance de se vingar quando sair da prisão. Ah, antes que eu me esqueça, acharam o corpo da Vanessa. Tive coragem de filmar e entregar pra eles. Tadinha dela, nem fez nada...

- Argh! Por quê?! - gritei pra ele enforcando-o mais uma vez Quando fui esfáqueá-lo, senti por menos que uma fração de segundo, duas balas perfurarem meu crânio. Jamais vou saber a resposta dessa minha pergunta.