E mais um dia chega ao fim, não é mesmo?
Antes do fim, eu andava descalça em meio a chuva naquela areia que já estava lamacenta.
Meus olhos estavam presos no horizonte negro da noite fria, fitando o infinito, além do mar que estava dançando como se zombasse da minha cara de choro.
- Não ria de mim! - eu gritei para ninguém a minha frente.
E ninguém respondeu. Somente o vento e a chuva pareceram se irritar.
Não havia mais ninguém naquela praia. Os covardes se guardaram dentro dos cubículos que os protegiam do molhado. Além do que eram altas horas da noite.
Não vi solução melhor para a minha vida de angústias que caminhar sorrateiramente, em longos passos, sentindo cada gota de chuva cair sobre meu corpo, até o mar com ondas enormes e enraivecidas graças aos ventos. Eu estava chateada com o mundo. Não tinha mais o que fazer nele.
Meu Iphone tocou em minhas mãos. Engraçado, se é que eu podia sentir essa emoção, não estava o sentindo em minhas mãos. Nem me lembrava de estar com ele.
Atendi depois de me irritar com a música que me fazia lembrar ele. E era ele...
- O que você quer? - minha voz era dura e meus lábios estavam bem úmidos. Expressei toda a minha dor nessa pergunta.
- Por favor, precisamos conversar. Você não me deixou explicar...
- Explicar o quê? - eu gritei, e ao longe, um trovão gritou mais alto. - O que eu vi já bastou tudo. A semanas que eu vejo.
- Era só um truque. E hoje não foi bem isso, ela, ela que fez tudo, ela que... - ele parecia muito desesperado. Não quero me lembrar de seu nome. Ele me machuca.
- Basta! - interrompi novamente. - Lamento te interromper nessa história mal contada. Quero que você se dane! Você e a vadia da minha prima.
- Amor, ela me embebedou.
- Não me chame desse jeito, nunca mais!
- Por favor. - ele implorava e eu percebi que estava chorando.
- Quantas chances eu terei que dar a você? Quantas mais?
- Você sabe que me ama.
Desejei bater nele nesse momento.
- Não! Eu amei, agora não mais. Sabe o que é sentir saudade? Sabe o que é se humilhar? Sabe o que é pegar o cara que você ama na cama com outra? Sabe o quanto isso dói?
- Você precisa saber que foi ela, e não eu. Eu te amo...
- Cala essa maldita boca! Cala...
Eu surtei e joquei o Iphone o mais longe que consegui. Ele afundou na lama.
O vento fazia meu vestido preto voar como louco, mesmo pesado e ensopado.
Em momento algum deixei de caminhar, de enfrentar o meu destino. O mar me convidava a visitá-lo, a fazer parte dele. Enquanto isso, eu não sentia meu coração. Era como se ele fosse negro ou que não existisse.
Magoada e querendo matar alguém, decidi matar meus sentimentos e a mim mesmo. Senti como se a alma do meu coração em abandonasse, me fazendo então uma mulher amargurada. Não tinha mais espressão no rosto, a não ser que interpretasse meus olhos aprtados como rancor e ódio. Mas isso eu sentia por dentro.
Senti o gelo todo daquela água fria do mar cortando minhas pernas. Maior foi a dor e a agonia quando foi subindo para as minhas coxas. Não olhei para trás. apenas para o nada que tinha a frente. Estava arrepiante, literalmente. A chuva estava muito forte. Raios passavam não muito longe de mim e os trovões ensurdeciam e me fazia pular com o susto. O mar travesso me jogava de um lado a outro. A água agora passava pelos meus seios.
Determinada, continuei avançando. As ondas enormes que vinham sempre me cobriam, e me jogava para trás, e eu avançava como podia depois.
"Mas por que você quer partir, Regina? Seu namorado vai continuar vivendo. Ele não irá deixar de ficar com ninguém. Seguirá a vida dele, assim como todos. Por que você não recomessa e morre quando for para morrer. Ainda não é a hora, ainda tem muito o que fazer. A felicidade pode ser encontrada sempre que a necessitarmos, basta correr atrás, e não ter orgulho. Se ele existir, faça-o ficar extinto, mas não deixe que isso faça você ficar paralisada no além e dar um fim a algo que não está nem no começo".
Esse pensamento me veio à cabeça, exatamente com a voz da minha falecida avó, que lutou tanto contra uma doença, pois ela queria muito viver e poder pedir o perdão da filha dela, minha mãe, mas a doença a venceu e ela se foi, sem antes realizar o maior desejo de seu coração.
Fiquei parada olhando em volta de onde eu estava e olhando para meu próprio corpo.
- Não vou perder o restante da minha vida por você, Jefferson. Você não merece. Acho que eu posso reverter a situação.
Quando eu tentei voltar, notei que eu estava longe de mais e as ondas eram muito altas e mais fortes que o normal.
Eu dava dois passos, muito dificeis e pesados à frente, mas a o mar me puxava para trás. Até vir uma outra onda e me cobrir inteira. Fiquei sem fôlego e fui respirar, mas no mesmo instante, veio mais uma e outra em seguida. Estava numa área funda do mar e não conseguia chegar a tempo na superfície para poder respirar. O mar me jogou para um lado e para o outro, e depois eu não conseguia mais respirar. Estava sentindo como se eu fosse explodir... e então, não vi mais a água, não senti mais como ela estava fria e nem me debati mais pela falta de ar. Eu não precisava mais dele.

Ele estava misterioso ao telefone.
Jamais tinha ficado tão tenso ao falar comigo, embora, nos ultimos dias ele estivesse sim, muito estranho.
Aquele sorriso que ele abria sempre ao me ver, o abraço apertado que sempre demonstrava saudade e logo em seguida o beijo molhado significando desejo, já pareciam não existir mais.
Havia alguma coisa acontecendo, mas ele não me contava nada.
A ligação fora para me dizer que o esperasse aqui em casa, que eu não fosse encontrar com o Lipe. Um amigo que ele suspeitava que gostava de mim, embora eu sempre tirasse essas bobagens de sua cabeça. Lipe e eu marcamos de ir ao shopping comprar roupas esportivas para a academia que começaríamos a frequentar na semana seguinte, aproveitando, iríamos comer e quem sabe ver um filme.
Nos momentos em que antecediam a chegada de Rafael, que estava vindo do trabalho, mandei uma mensagem de texto à Lipe, dizendo que me esperasse um pouco mais pois eu me atrasaria. Mesmo sem contar a Rafael, eu iria sair mesmo assim com Lipe. Afinal, seria um encontro para questões acadêmicas, literalmente.
Por minha cabeça passavam zilhões de coisas. Não, ele não descobrira que eu ficara com um garoto na última festa que fui. Não tinha como saber, e eu... estava bêbado, e chateado com ele por não querer ir comigo. E além do mais, nem lembro do rosto desse menino, e nem mudou o amor que sinto por ele.
Deitei-me na cama e fiquei ouvindo músicas que lembravam nós dois. Nossos momentos juntos, nesses quase nove meses de namoro.
Quando ele chegou, já estava quase chorando com uma música melancólica. Ele estava com uma aparência cansada quando abri a porta. Sua pele estava suada, uma camiseta preta com gola V, justa ao corpo musculoso, seus olhos brilhosos demais... Hesitou na soleira da porta, esperando eu sinalizar para que entrasse.
- Demorei muito? - ele perguntou para quebrar o gelo, dele próprio, talvez.
- Acho que não. Não - falei por fim.
Sentamos um na frente do outro, na mesa da cozinha. Ele colocou a mochila no chão e pediu para que eu lhe desse algo para beber. Levantei, peguei uma garrafa de Coca-Cola na geladeira e pus em cima da mesa para que se servisse.
Sentei novamente e ele disse: - Prometa que - ele esperou mais um pouco -, não irá chorar.
Aquilo logo me queimou por dentro. Ai, ai, ai, o que estava por vir?
- Dino, talvez essa seja a ultima vez que tomamos uma Coca-Cola juntos. - Fui com a minha mão segurar a dele, mas ele a afastou, me rejeitando. - E talvez seja a última vez em que nos vemos.
Meus olhos se encheram de lágrimas e já não precisava ouvir mais nada para me fazer chorar mais do que já estava chorando.
- Portanto, peço que me entenda... - e ele levantou meu queixo, mas logo abaixei a cabeça na mesa.
- Você tá terminando comigo? - falei aos prantos, tentando enxergá-lo em meio as lágrimas.
- Por favor - ele pediu com a voz calma e doce -, como verdadeira lembrança sua, eu quero um sorriso. Aquele lindo que você costuma iluminar onde está.
- Como posso sorrir quando você está me matando? - agora eu soluçava e tremia. Mas ele não tentou me fazer sentir melhor. Percebi que estava decidido.
Ele ficou calado me vendo chorar. A dor era forte demais.
Parecia que ele não entendia. Uma vida, queria passar a vida inteira com ele, morar com ele, amá-lo todos os dias... nosso amor era perfeito.
- Eu quero um sorriso seu como última lembrança. Por favor, não chore, não chore! - ele pedia com os olhos cheios de lágrimas.
- Por que última lembrança? Onde você vai? Por que está terminando comigo?
- Não podemos ficar mais juntos. Sabe dos problemas que existem entre a gente. Tem os meus pais, tem o restante da minha família que não nos aceitam...
- Mas não é com eles que você vai viver! Pense melhor, não faz isso comigo.
- Você não está me entendendo. Eu queria ter filhos. Filhos meus. Uma família, ser respeitado.
E a cada palavra eu recebia um corte de foice que atravessava meu coração e peito.
- Mas não é o que você quer. É o que eles querem. Você está cego.
- Lembra daquela tarde em que nos conhecemos? - ele perguntou segurando o choro. Não havia notado que ele mudara de assunto, pois estava ocupado limpando meu nariz e secando meus olhos.
- Como eu poderia esquecer, seus olhos brilhavam como águas cristalinas, aguas que pareciam que eu iria me afogar se tentasse nadar. Vi sua felicidade ali.
- Foi lindo mesmo te conhecer...
- E isso não é ótimo? Tudo que fizemos foi especial, por que quer jogar tudo fora?
Percebi que eu havia o interrompido quando ele disse sem ter me ouvido: - E mais bonito ainda o que aconteceu entre nós, no dia do seu aniversário. Mas já passou, já passou.
E ele fitava o nada enquanto falava. Ainda segurando o choro.
- Agora é preciso que nos separemos. E devemos seguir sem nenhum vínculo.
- Para de falar essas coisas, não aguentaria ficar sem você. Sem te ver, sem saber se está bem.
- O nosso amor estava se transformando somente em rotina, e o amor... O amor é uma outra coisa.
- De onde está tirando essas coisas?
- A sua Coca vai perder todo o gás - ele falou distraído. - Nenhum de nós é culpado, nenhum de nós. Mas desde que começamos a trabalhar, temos nos visto cada vez menos.
Eu ainda estava de cabeça baixa, não conseguia nem respirar direito. Já estava com vontade de vomitar de tanto que já chorara.
- Por favor... Por favor, não chore mais, não chore.
- Eu te amo, te quero, te amo!
- Não, você se acostumou a mim, o amor é uma outra coisa.
Ele então se levantou. Pegou a mochila do chão e estava prestes a sair.
Olhei pra ele com raiva mas chorando mesmo assim.
- E você não liga para o que eu sinto?! Acha que meu coração é feito de papel para você rasgar, amassar e depois jogar fora?
- Dino, eu...
- Sabe o quanto eu me sacrifiquei? - acabei berrando. Ele me fitou um pouco assustado e triste. Subi a manga da blusa de frio que eu estava usando e lhe mostrei a tatuagem que continha seu nome. Era uma lua crescente lilás e ao lado seu nome numa caligrafia impecável. - Isto também nem significa nada pra você, né?
Ele olhou para a tatuagem e começou a chorar, eu o abracei bem forte e ficamos os dois chorando.
A porta só nos observava.
Quando nos soltamos, ele suspirou, limpou os olhos e disse: - Agora eu vou indo, eu vou embora.
É o melhor para nós.
Então se lembrou e pegou o anel prata que estava em seu dedo. Retirou-o e me entregou. Afinal, eu tinha comprado o par.
Chorando novamente, ele falou:
- Eu quero que você tenha sorte, muita sorte. E que seja muito feliz. Que encontre alguém e o ame muito. Quem sabe o Lipe? Ele parece que gosta muito de você.
- Você está quase careca só de saber que ele é só meu amigo... eu só amo você, só você caramba! Você é a razão da minha existência. Sem você estou cego, sem você eu entrego meu corpo à própria sorte.
- Não gosto quando fala essas coisas... me preocupo contigo - ele chorou mais ainda.
- Então me beija e diga para eu esquecer tudo isso, diga que você enlouqueceu e...
- Adeus, adeus - ele disse por fim. Abriu a porta e já estava se afastando.
Me desesperei quando notei que estava mesmo perdendo o amor da minha vida.
E perderia sim, pois eu sabia que em breve os pais dele mudariam de cidade, levando com eles Rafael. Será que era isso? Ele já estava se despedindo?
- Eu te amo, te amo, te amo! - eu falava chorando, ajoelhado no chão. Até batia a cabeça nele quando caí. Fiquei uns segundos lá na soleira vendo ele se afastar e sentindo meu coração vazar sangue. - Adeus. Tchau.
Então pensei melhor.
Fui até seu encontro e agarrei seu braço.
Quando o virei com força, ele me olhou incrédulo.
- Você vai mesmo conseguir viver sem meus beijos... - eu o beijei, do melhor jeito que pude. Alisei seus braços enquanto isso. Estávamos no corredor que dava acesso à rua. Ninguém estava nos vendo. Continuei fazendo minhas mãos passearem por seu corpo - vai viver sem meu toque? Não quer ficar uma ultima vez comigo? - e eu falava não mais alto que um sussurro, perto de sua orelha. Ele estava com os olhos fechados.
Quando me dei conta, estavamos na cama de casal do quarto da minha mãe, eu tirando sua camiseta suada e a jogando no chão.
O desejo falou mais forte. Nos unimos mais uma vez, mas dessa vez foi melhor. Parecia que o medo que ele tinha de me perder tornou muito especial a nossa relação. Estavamos sedentos, excitados, precisavamos entrar um no outro. E logo o frio da depressão que eu sentira... se transformara em calor. Chamas ardentes como se logo ao lado estivesse uma fogueira com muita lenha recém-cortada.
Cada movimento, cada beijo, cada toque, cada arrepio... cada gemido de prazer!
Quando acabamos com nosso ritual do amor, ele ainda deitado por cima de mim. Eu acariciando suas costas nua.
Ele me beijou e disse: - Acho que eu preferia morrer a deixá-lo.
Olhei para ele, bem no fundo de seus olhos e sorri.
Meu celular começara a tocar de repente. Era uma mensagem de texto.
- Pega meu celular, por favor? - pedi a ele. - Está ao lado da TV.
Ele pegou e aproveitou e leu: "Ah, o.k. então, te espero no lugar de sempre. Não vejo a hora de te ver denovo. Sabe q eu te amo muito né? Bjos" , uma mensagem do Lipe. - falou para finalizar e me olhou com uma cara de ironia.
Fiquei mudo uns instantes. Ele morria de ciumes do Lipe.
- Bom, agora "não sobrou nada para dizer, exceto adeus!"
E eu deixei meu amor ir embora, provavelmente com o coração magoado.
- Não faz 4 dias que ele foi enterrado. Okay, mas... Tudo bem. Já estou saindo. Ainda não me falaram nada... Não precisa chorar Thamires, quando voltar-mos agente passa na casa da mãe dele. Tá bom, tchau - desliguei o celular.
Coloquei uma camiseta e fui até a pia do banheiro para escovar os dentes. Nossa, desde o assassinato de Kauê não consigo dormir direito, é como se ele ainda estivesse ali comigo. Meu melhor amigo. Meu rosto está amassado e com olheiras. Nem vou fazer a barba hoje. Nem está tão grande.
Thamires me pediu para que eu fosse encontrá-la no cemitério Vila Mariana. Ela namorava meu melhor amigo Kauê Shimoda, asiático, fora assassinado na própria casa com 13 facadas na região do coração. O engraçado é que quem merece não morre assim!
Depois de uma tentaiva inútil de melhorar o rosto, peguei as chaves e fui encontrar o carro na garagem do edifício. Já sentiu a sensação de estar sendo observado? Parecia que algo me seguia, como se fosse algum detetive da polícia que estivesse vigiando as pessoas próximas à Kauê, já que na cena do crime, não houvera arrombamentos, furtos e nem nada mais macabro que sua morte.
Não dei atenção ao tal detetive que não fazia seu trabalho muito bem e liguei o carro. Ao colocar o carro na marcha ré, senti passar por cima do que me pareceu um corpo. Entrei em pânico. Aproveitei que não havia ninguém mais no estacionamento subterrâneo para dar uma espiada no estrago.
O que o sono faz às pessoas? Ele as enlouquece? Faz coisas se mexerem mesmo ela estando paradas e completamente imóveis? Não havia nada embaixo do carro. Sem vestígios de sangue, o pneu não estava furado, não havia sacos de lixo nem nada. Só me pergunto: Que lombada foi aquela?
Entrei no carro novamente. Levei um susto quando a porra do meu celular toca de repente.
- Onde você está? - perguntou Thamires esbaforida ao celular.
- Tô na Lacerda Franco. Só vou virar à esquerda e depois à direita e pronto. Feliz? - Opa! Péssima pergunta para agora. - Não foi isso que quis dizer, não nesse sentido.
Ela desligou o celular.
Eu já não era muito fã de cemitérios, principalmente visitá-los depois das 19 horas.
Não foi difícil encontrar Thamires, sentada no chão olhando a lápide do corpo de Kauê ao longe.
Lugares assim, quando você anda, sente um desconforto nas costas... Uma insegurança. Como se seu anjo da guarda não estivesse te seguindo mais e sim uma presença maligna. Apressei o passo.
- Há quantas horas está aqui? - perguntei. Seus cabelos que eram lisos e bem cuidados, agora estavam bagunçados acho que de tanto ela chorar e passar a mão para o lado. Seu rosto estava pálido, o rímel borrado. Seu jeans estava sujo da terra que tinha no chão do cemitério. Sem falar nas olheiras que pude evr claramente apartir da hora em que a luz de um poste vizinho nos iluminou.
- Não sei - ela me disse como se estivesse sem ar. Olhei bem pra lápide e já até me cansei. Como ela ficou tanto tempo ali? Que coisa chata, era como se passasse um clipe com seus momentos. Ela fitava com vontade a lápide onde indicava: KAUE MATZACUDA SHIMODA
*14-FEV-1982 +10-OUT-2010 MENTIRAS SÃO FRACAS, ELAS SEMPRE PERDEM, A VERDADE É DE DEUS POR ISSO SEMPRE APARECE. Li e re-li a frase para passar o tempo.
Thamirez ao me olhar de verdade perguntou:
- Como sabia que eu estava aqui?
Agaixei-me para olhar em seu olho.
- Tá doida? Nos falamos no celular não tem menos de 10 minutos.
- Meu celular estava com o Kauê quando ele... - ela apertou os olhos - Os policiais levaram para fazer alguma coisa. Ficaram de me entregar depois. - Ela passou a mão no cabelo outra vez. Cobriu o rosto com as mãos. - Não avisei ninguém que viria, como soube que eu estava aqui?
Efeito do sono? Não, dessa vez era alguma maluquice, e minha eu sei que não era.
- Thamires, como é que eu falei com você mais de cinco vezes hoje e você me diz que não está com seu celular há 4 dias? Ontem falei duas vezes com você!
- Sérgio eu já disse que meu celular não está comigo. Se quer saber, ontem eu estava na casa da minha avó ainda. Não pude deixá-la até meu tio Daniel chegar. Sendo que eu estava desesperada pra sair daquela cidadezinha e vir para o enterro... Dele. Mas nem pude. Chorei a noite toda quando minha mãe disse.
Meu estomago começou a revirar. Aquele lugar já estava me dando náuseas.
- Eu juro que não entendo. Era você... era você! - eu tava começando a surtar com a idéia de estar louco. Mas eu tinha no subconciente que era o sono. Mas... anteontem eu não estava com sono quando falei com "ela", não tanto pelo menos. Mas agora era diferente, 41 horas.
Fitei a lápide de Kauê para tentar me distrair por alguns segundos, mas estes pareceram horas. Por passe de mágica, fui levado à lembrança da nossa penultima noite juntos. Me peguei pensando em nós, melhores amigos numa balada de eletrônica, no dia que eu apresentei a Vanessa para ele como minha namorada. Não sei o porque, mas lembrando disso, pude ver detalhes dessa lembrança. Como ele a olhou, como ela o olhou e como eu estava bêbado naquela noite. Não sabia quem me levara ao meu apartamento ou trouxera meu carro. Acordei de ressaca e fiquei em casa. Sorte que era domingo. Quando fiquei totalmente sóbrio, peguei meu Smart e liguei para Thamirez pra saber como tinha sido a noite passada. Pois eu não me lembrava de nada. Lembro-me de quase tudo da conversa.
- E quem levou a Vanessa pra casa? - perguntei.
- Depois que levamos você até aí, Kauê me deixou em casa e disse que podia levar a Vanessa até a dela.
- Humm. Beleza. E aí, ele te mostrou a aliança?
- Que aliança? - senti sua voz de animação total.
- Ops. Desculpe os Spoilers, pensei que ele tinha te mostrado - ela deu um grito muito alto, então me despedi e desliguei, só não sei se ela me ouviu.Tentei ligar para Vanessa, mas só caía na caixa postal. O mesmo acontecia com o celular de Kauê. No instante fiquei preocupado pensando que poderia ter acontecido um acidente ou algo do tipo, mas também pode ser que um está sem rede e o outro descarregado.
Perto da hora do futebol, fui ao bar de um amigo que ficava na esquina da minha rua para ver o jogo lá e tomar algumas cervejas ou Coca com Montilla. Mais tarde eu passaria na casa de Vanessa para amá-la um pouquinho. O jogo começou.
Despertei do devaneio meio assustado.
Olhei para a mão de Thamirez. Não havia sinal de anel algum. Por quanto tempo eu apaguei sem que ela percebesse.
- Vamos sair daqui Thami? Preciso dormir e você comer um pouco - levantei e estendi a mão para que ela tivesse um suporte para levantar. Ela se agarrou ao meu braço enquanto subíamos a pequena ladeira até o portão de saída. Tive a impressão de alguem atrás de mim chamar meu nome. Mais uma vez o sono, sempre ouço milhões de vozes em minha cabeça e me distraio fácil, por isso, decidi deixar o carro ali e ir a pé para casa. Mais tarde eu pegaria o carro.
Na calçada do cemitério, Thamires ainda estava agarrada em meu braço. Acho que um estava servindo de apoio ao outro. Fazia 4 dias que eu não a via. Seu namorado estava morto e ela precisava mesmo de um apoio. Não sei de onde, apareceu um louco na nossa frente e falou em nossa direção:
- Eu não gosto de você! O que fez não tem perdão. Só passei pra dizer que ele te espera com sua família. Não demore!
O louco passou por nós e seguiu seu rumo. Nos entreolhamos.
- Ele disse pra você ou pra mim? - perguntei.
- Nem ouvi o que ele disse. - ela deu de ombros, secando o nariz. Estava muito chorosa.
Deixei Thamires em casa. Passei no primeiro bar que vi e pedi um café bem quente. Em seguida fui na delegacia onde estavam apurando o caso de Kauê tentar retirar o celular de Thami. Depois de horas argumentando, e depois deles informarem que já não precisavam mais, consegui retirar o celular de Thami, assinando um relatório que nem sei exatamente do que era. Não pude ler, só estava precisando saber o que continha naquele celular.
Quando cheguei em casa, o sono e o cansaço me fizeram desmaiar na cama, afinal eu precisava estar recarregado para o dia seguinte. Não foi difícil sonhar com aquelas cenas outra vez. As que mais me fazem perder o sono.
Estava eu no bar, vendo o jogo do palmeiras e guarani, quando sentou o primo do Kauê no banco ao meu lado.
- E aí Jeff? Beleza? - cumprimentei-o
- Beleza cara. Nem chamou o Kauê pra vir beber com você hoje? - seu tom de voz era meio presunçoso.
- Nem sei onde ele está. Liguei pra ele mas só dava caixa postal.
- Ah! Ele desligou o celular mesmo, antes de eu sair pra trabalhar.
Kauê e o primo moravam juntos.
- Você trabalhou hoje? Vida de porteiro é dura. Não estudou, se lascou! - eu ri dando-lhe um soco leve no braço.
- Pois é. Não é facil mesmo. Pra uns é até legal, enquanto uns saem para trabalhar e outros dormem, outros levam mulheres da balada pra dormir em casa...
- Kauê fez isso? Quando? - interessei-me muito pelo papo.
- Hoje oras - ele parecia que queria chegar a algum lugar. - Hoje de madrugada vocês não estavam numa balada aí?
- Sei, mas nem lembro muito, fiquei bêbado lá. Comemorando a promoção lá no trampo.
- Hmm, legal. Parabéns - ele apertou minha mão. Demonstrou estar feliz de verdade. - Só acho que se a Thamires souber ela não vai gostar.
- Claro que ela não vai gostar, traição é traição. Eu não suportaria.
- Acho que eu matava um se alguém me traisse - ele disse me olhando estranhamente. - Os próprios infratores, de preferência.
Para descontrair e tentar olhar o jogo, eu disse:
- Seu macabro! - rimos sem parar.
O bar inteiro se agitou com um gol do palmeiras.
- Agora eu bebo com alegria. Verdão tá 1 à 0 - falei dando uma boa golada na minha Coca Amontilada.
- Agora só preciso de uma loira como a que meu primo levou pra casa hoje - ele disse feliz com o gol do palmeiras.
- Uma loira? - levantei a sombrancelha.
- Antes de sair, eu o ouvi a chamar de Va... "Va" alguma coisa. Vanessa! É foi isso.
Quase cuspi a Coca Amontilada na camisa de um homem que estava sentado no banco à minha frente. Estavamos encostados a um balcão. Meu peito começou a queimar, e logo a doer.
- Como é? - loira e se chama Vanessa, estava com Kauê, sendo que ele foi levá-la pra casa. Os dois celulares estavam desligados até aquela hora. Jeff ainda não voltara pra casa desde que saira do serviço. Céus, será que... não!
- Quando a vi mais cedo, podia jurar que eu ja tinha visto aquela moça com você antes. Talvez você já tenha ficado com ela.
- Acho que você ta falando de alguem que eu conheço - tomei outro gole de Montilla, mas sem a Coca dessa vez. Minha sobrancelha estava levantada, era assim que acontecia quando eu começava a me irritar.
- Conte essa história direito - segurei no braço dele, talvez forte demais.
- Ei, larga aí! Se aquela era sua mina, deveria bater no Kauê, o talarica sem vergonha, eu nem sabia - ele defendeu-se - Só tava comentando.
- Beleza - tentei me acalmar. Fitei-o com ódio, mesmo no fundo sabendo que seu unico defeito fora fazer inferno comigo. Peguei uma nota de $20 e dei ao meu colega dono do bar. Sai em disparada do bar.
Parecia que eu só tinha fechado os olhos. Acordei todo suado. Um calor como jamais tinha sentido antes. Senti-me sem ar. Tirei a camiseta. Na hora vi o celular de Thamires que ainda estava dentro de um saco plástico. Peguei o celular e começei a mexer a procura de informações. Fui primeiro nas ligações feitas. Confirmado, eles haviam se falado por quase uma hora no dia da morte do Kauê. Certamente foi depois de uma bela madrugada de sexo proibido, daí ele ligou para conversarem sobre o que tinha rolado, e que agora estava gostando mesmo dela e essas babaquices que o Kauê faz com todas. Mas com a minha Vanessa e ele tendo a amorosa Thami? Quase destroçei o celular quando fui nas mensagens recebidas. Não prestei atenção no número mas parecia o dela, só a mensagem parecia que pulava do visor do celular. Parecia que a voz de Vanessa gritava pra mim: AMOR, ACHO QUE ESTOU GRÁVIDA, COMECEI A SENTIR OS SINTOMAS ONTEM. E AGORA, O QUE FAREMOS? Essa mensagem vi que foi enviada um dia depois de ele morrer, afinal, só foram encontrá-lo morto muitas horas depois. No dia seguinte. Eu o encontrei.
Larguei o celular no chão me lembrando do dia 10, ultimo domingo de Kauê Shimoda.
Depois que saí do bar, me senti um montro, sai correndo pra buscar meu carro e ir encontrá-los. Pegá-los no flagra. Mas não tive essa sorte. Nem mesmo Kauê sabia, mas eu tinha uma chave de sua casa. Uma cópia completa desde a do portão à porta.
Quando ele saiu do banho, eu estava sentado à uma das cadeiras. Ele levou um baita susto. Já estava vestido, pois se não o tivesse, teria deixado a toalha cair.
- Como conseguiu entrar? - ele perguntou surpreso.
- Não estava trancada - respondi com um tom normal. - Por que está nervoso?
- Olha... Sérgio, antes que meu primo diga alguma coisa...
E o desgraçado se entregou. Então era mesmo verdade.
- Achou que eu não saberia, né? - levantei-me da cadeira, jogando-a no chão. Ele recuou uns dois passos.
- Calma aí Sérgio. Thami deve ter lhe contado que...
- Pobre da Thami, enganando-a e com quem? Com a Vanessa, Kauê! - Não aguentei e dei-lhe um soco no nariz com toda a minha força. Ele caiu pra trás batendo a cabeça na quina da mesa que era quadrada, o que fez a parte de trás da cabeça cortar-se. Ele caiu quase desmaiado no chão.
- Ai minha cabeça... - ele gemia, ou melhor, chorava.
- Isso, chora seu traidor do caralho! Cadê aquela sua frase que você queria por na sua tumba? "Que a verdade é não sei o quê, não-sei-o-que-lá." Hein? Eu a descobri. Descobri a verdade. Ela era minha. MINHA! - saquei uma faca do cós da minha jeans e a afundei em seu peito sem me importar com sua dor ou o sangue que jorrava dali. Depois de fazer a faca ir e voltar algumas vezes, fazendo aquele barulhinho esponjoso que eu estava adorando ouvir, meu braço cansou e minha raiva já tinha passado um pouco. Descontara minha raiva no verdadeiro ser que a merecia por completo. Precisava limpar a bagunça.
Sem pressa alguma, procurei um vidro de alcool que eu sabia que ele tinha, do ultimo churrasco que fizemos. Passei em meu punho e no nariz dele. Limpei todos os vestígios que consegui. Começei a andar por cima de tapetes e panos. Evitei soar, limpei digitais da porta, da cadeira, mesa... Não havia nada para me incriminar.
Consigo lembrar ainda que, quando me preparei emocionalmente, quando pensei melhor no que fiz, decidi ir até lá começar o teatro. Só precisava agora acabar com a mãe de Vanessa e estaria tudo bem.
Foi simples, a peguei desprevenida quando ela saia da escola onde lecionava à noite e a arrastei para trás da escola. Tapei sua boca e não deixei que ela me visse. Dei uma facada em suas costas, na região da barriga, com a intenção de matar somente a filha de uma puta, literalmente. Ela estava grávida de 05 meses de uma menina. Mas que fosse as duas. E para me vingar dela, bati sua cabeça numa árvore, com força suficiente de deixá-la desmemoriada. Essa era a intenção na verdade. Larguei-a desacordada. Com certeza no dia seguinte eles a encontrariam. Oh, foi mal, dia seguinte é feriado das crianças. Acho que os insetos vão ter o que comer essa noite. Sangue docinho. Hmmm.
Mas depois dessas experiências de assassino profissional, tenho sentido coisas, ouvido coisas. Ah é, lembrei de olhar no celular para saber com qual Thami eu estava falando. Não era possível uma coisa dessas.
Mexendo nos menus de chamadas recentes em meu celular, me assustei com o impossível número para qual eu ligava e recebia as chamadas de Thami. No visor do celular, havia os caractéres impossíveis de alguma operadora: HH666. Telefône do inferno? Impossível, essas coisas não existem. Meu celular começou a vibrar na minha mão. Alguem estava ligando... um tal de HH666...
Um arrepio tomou conta de todo meu corpo. Deixei-o chamar enquanto eu olhava ligações recentes minhas no celular de Thami. Nada.
Meu celular atendeu automaticamente e ainda por cima no viva-voz. Agaixei-me na cama para ouvir.
- CALMA AÍ SÉRGIO! POR FAVOR NÃO! SOCORRO! SOCORRO! PARA SÉRGIO - era a voz de pânico e dor de Kauê no celular. Antes de continuar aquela tortura. Taquei meu celular na parede. Pareceu funcionar pois a bateria foi para um lado e o chip para o outro. Para não enlouquecer, fui até onde eu tinha estacionado meu carro, na frente do cemitério, e iria na casa de Thamires.
Quando cheguei, tive uma surpresa em ver uma espécie de "novo velório" na sala de Thami. A Sra. Shimoda, mãe de Kauê, estava sentada no sofá, com Thami detada com a cabeça em seu colo. A Sra. Shimoda alisava os cabelos de Thami enquando ela chorava segurando a barriga. O irmão mais novo de Thami, Victor de 17 anos, estava falando com dois médicos que estavam no portão. Quando entrei, cumprimentei-os normalmente. Sem entender exatamente o que eles faziam ali.
- Thami, o que houve?
Ela não me respondeu. A Sra. Shimoda cuidadosamente deitou a ex-nora numa almofada e veio ter comigo perto da cozinha.
- O que aconteceu com ela? - perguntei preocupado.
- Ontem, depois que a trouxe, ela jura que recebeu uma ligação de Kauê, de um número estranho que mais parecia um código, pedindo socorro. Ele queria que ela o salvasse e o tirasse das mãos e da faca do assassino.
- Ele disse... quem era? O assassino? - perguntei mostrando interesse.
- Santo Deus. Não me diga que você acredita mesmo nela? - ela olhou tristemente para os sofá onde Thami estava. - Já que a avó não está aqui para ajudá-la, eu sou a unica que pode, por isso chamei os psiquiátras para...
- Leva-lá a um sanatório? - completei espantando-me. - Acha que ela está louca?
- Bom... é que... além disso, ela está sofrendo de depressão desde que o Kauê morreu. Até eu, que sou mãe dele estou sendo mais forte. Mas... ela ficou assim depois que perdeu o bebê.
- Que bebê? Ela estava grávida?
- Sim, ela deu a notícia por torpedo, vê se pode? Em vez de contar ao marido em sua presença, sentados, de mãos dadas. Assim como fiz com o Sr. Shimoda muitos anos antes.
- Não consigo entender... o celular dela estava com o Kauê.
- É que, depois que levaram você pra casa, naquele dia que vocês sairam, ela, meu filho e sua namorada passaram na casa dele pra acho que dar uma acordada, e também a Vanessa precisava usar o banheiro, além de lavar o rosto e etc, daí a Thami deitou-se na cama e pra esperar Vanessa e largou o celular na cama dele, e o esqueceu. No dia seguinte, ela mandou pelo meu celular o torpedo para o celular dela, contando a notícia da suposta gravidez. Mas ela ficou triste quando não obteve resposta.
Comecei a ficar sem ar. Não queria mais ouvir aquilo.
- Desculpe-me Sra. Shimoda, ele era meu melhor amigo e... esse monte de coisas me deixa muito abalado. Preciso ir.
Aliás, eu precisava ir num lugar antes. Saí de lá às pressas.
Com o celular de Thami, que eu esquecera de devolver, disquei o numero de Jeff.
- E aí Jeff, beleza? - eu disse com animação muito bem disfarçada.
- Fala Sérgio. O que manda?
- Humm, tem como voçê me encontrar na Avenida Turmalina? Perto do Parque da Aclimação?
- Agora? Tá tarde véio.
- Por favor? - insisti. - Preciso conversar com algum amigo.
- Ta bom, to indo. Te encontro em 20 minutos.
Eu o esperei pacientemente. A armadilha estava armada. Ele tinha que me contar que palhaçada era aquela. Eu tinha sacado metade dela. Como ele era formado em Hardware e em outros cursos de computação, ele sabia como hackear tanto computadores como aparelhos celulares. Seria fácil para ele codificar algum celular para aparecer o código: HH666 que poderia ser muito bem "Health hell - Saúde infernal" - que ele sempre falava quando estava gripado ou com qualquer coisa fora do padrão da saúde - e 666, o número da besta, para me assustar de alguma forma. Agora, as presenças, o corpo que atropelei na garagem e a ligação tanto pra Thami quanto pra mim, isso... não sei explicar.
- Demorei muito? - ele perguntou assim que chegou.
- Vamos entrar no parque. - falei com a voz seca.
Ele não entendeu muito bem, mas me seguiu.
Senti sua respiração mudar, ele ofegava. O medo já havia o possuido. Eu o estava levando para um lugar vazio, onde não houvesse testemunhas para a minha faca agir.
Quando paramos perto de uma árvore de aparência bem antiga, ele disse pra me surpreender:
- Deixe-me ver a faca que está presa ao seu cinto, nas suas costas?
- Como sabe que...
- Ela parece ser feita de prata. Pois é brilhante, jamais foi usada a não ser para assassinar seu melhor amigo e sua namorada.
Eu avancei contra ele, colocando meu braço para enforcá-lo contra a árvore.
- Vai me matar como matou os pobres inocentes?
Nessa hora nem sabia mais o que fazer, a palavra inocentes me deu um forte arrempedimento num coração que eu nem tinha mais, depois ouvi um farfalhar atrás de mim um grito no mega-fone: PARADO! LARGUE A ARMA E MÃOS NA CABEÇA! DEVAGAR! - O filho da puta tinha trazido policiais. Mas como ele fez para me incriminar?
- Assim como você, sou louco também, psicopata, e até doido por facas. Ah... como elas brilham... como elas cortam facilmente a pele de alguém, é uma coisa fascinante não acha? Por isso que gostamos de matar com elas. Gosto do som que faz, e você?
- Cala essa boca seu cretino inútil - dei-lhe dois socos no estômago.
- MANDEI LARGAR A ARMA! AFASTE-SE DA VÍTIMA E MÃOS NA CABEÇA! - os policiais avançavam lentamente. - VOCÊ NÃO VAI SE MACHUCAR, NÃO MACHUQUE-O TAMBÉM!
- Eu só brinquei com você. Eu queria ver você matar. Saber se tinha coragem. Por que, eu vi muito você andar com a Thami e jamais nem trepar com ela. Porra, pensei que você fosse gay. Daí inventei a história mais burra e você caiu. E sabe por que? Por que você é um burro, assassino barato. Tem muito o que aprender. Te dou uma chance de se vingar quando sair da prisão. Ah, antes que eu me esqueça, acharam o corpo da Vanessa. Tive coragem de filmar e entregar pra eles. Tadinha dela, nem fez nada...
- Argh! Por quê?! - gritei pra ele enforcando-o mais uma vez Quando fui esfáqueá-lo, senti por menos que uma fração de segundo, duas balas perfurarem meu crânio. Jamais vou saber a resposta dessa minha pergunta.