quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aqui Antes


“É estranho estar aqui de novo depois de anos e dessa forma.”

Lembro-me de quando vim a esta casa com ele, para ficarmos juntos no dia antecessor ao meu aniversário de dezoito anos. Estávamos namorando há apenas doze dias e não tínhamos estados sozinhos desde então.
Ele fora até a minha escola e inventou de que eu estava doente e que tinha ligado para ele ir me buscar, já que minha mãe estava no trabalho e não poderia fazê-lo. Coordenamos. De fato eu fingira estar mal e lhe pedi para que buscasse certo horário. Dera tudo certo.
Sua casa era distante da minha, num bairro não muito afastado. Pegamos um ônibus na principal avenida do meu bairro e fomos ansiosos para termos momentos a sós na casa dele, que estava vazia.
Assim que chegamos, fomos para o quarto dele deixar nossas mochilas. Ainda era cedo, teríamos um lindo dia adiante.
Deitei em sua cama para relaxar e ele deitou-se por cima de mim. Fiz cócegas em sua barriga e a subi de leve. Estávamos rindo, tão alegres e felizes. Fui de encontro a seus lábios e logo ele se debruçou em cima de mim. O corpo dele não fazia tanto peso quanto deveria. Cobria-me completamente. Era como se me protegesse do ar fora do nosso espaço respiratório. Não queria que saísse dali, não queria mais nada, somente ele.
Achei que estávamos prontos para nos amarmos loucamente, pela nossa primeira vez. Ele também estava pronto. Pude sentir como estava.
Como eu o queria e ele queria a mim. Aquele quarto. A imagem desde quarto nunca sairá de minha cabeça. Aquela janela entre aberta, para entrar um fecho de luz, nossas roupas pelo tapete, o suor em nosso corpo nu, a foto que tiramos exatamente depois de que terminamos de nos amar, deitamos cansados e tiramos uma foto para que esta ficasse para sempre guardada em nossas memórias.
Depois de conversarmos um tempo, falarmos um pouco sobre nossa vida, brincarmos um com o outro, estando bem abraçadinhos, ele dissera que estava faminto. Falei que estava também.
Fomos até a cozinha e ele perguntou o que eu gostaria de comer. Sempre adorei batatas fritas e purê de batatas. Fazia tempo que eu não fazia esta refeição. Sabendo disso, ele prontamente me convidou a ir ao supermercado para comprar o que precisava para fazermos isso. Não queria dar trabalho, mas ele disse que também fazia tempo que não comia como gente. Só comia lanches e outras besteiras, e como estava comigo, almoçaríamos como se deve.
Voltamos do supermercado com mais sacolas do que deveríamos.
Compramos refrigerantes, uns doces para comer de sobremesa, e muitas batatas.
Ele colocou algumas músicas eletrônicas que dizia ser suas preferidas. Ouvia-mos enquanto ele cozinhava. Eu ficara sentado observando. Ora ou outra eu o ajudava no que podia, mas ele era eficiente e rápido.
Fiquei pensando em como jamais eu encontraria alguém tão perfeito como ele, que era lindo, calmo, carinhoso, atencioso e mandava bem na cozinha.
Não demorou muito e já estávamos comendo. Às vezes ele dava a comida em minha boca, e eu gostava. Fiz o mesmo algumas vezes. Agora quero chorar quando lembro do que fizemos depois...
Depois que lavei a louça, ele veio por trás de mim e me deu um beijo na nuca. Abraçou-me por trás e me pegou no colo. Conduziu-me até sua cama novamente para saborearmos uma segunda sobremesa. Não tenho vergonha em dizer o quanto gostei... Lembro de uma ironia que eu lhe disse no ouvido:
“Eu te amo tanto, se eu morrer um dia, acho que minha alma jamais vai deixar a terra”. Exatamente o que acontece, não acha?
Era por volta das 16 horas quando não ficamos satisfeitos de nossa presença. Precisávamos ficar mais tempo ainda juntos. Nosso dia tinha de ser mais perfeito do que já estava. Ele me convidara então para ir a um lugar de onde ele gostava muito de ir, até mesmo sozinho: Num morro que havia perto de sua casa. Aceitei de bom grado.
Fizemos um longo caminho até chegar. Ele me mostrou algumas coisas que para mim eram sim valiosas, a meu ver. Mostrou-me onde ele estudara antes, a pracinha onde ele ficava com os amigos quando cabulava, a mini-lanchonete onde sempre comprava salgados e também onde trabalhou antes.
Apontara também para alguns prédios vizinhos pelas ruas que passávamos. Dizia-me que um era onde seu ex-namorado morava, outro era de uma amiga do colégio, outro de uns melhores amigos e no outro morava uma menina que ele tinha namorado também, anos antes de mim.
Caminhamos sem muita pressa por uma estradinha reta, até subirmos uma ladeira que nos deixou ofegante.
Quando chegamos ao tal morro, para mim foi como magia. O lugar não tinha muita coisa, ou melhor, nada que representasse isso, mas o momento foi muito especial. Era bem alto, dava para ver a cidade toda dali. Á nossa volta tinha bastantes árvores pequenas, areia branca como de praia e um céu bem azul quase sem nuvens.
Andamos ali de mãos dadas. Peguei minha câmera e tirei fotos do lugar e nossas também. Só lembro de duas coisas que dissemos, quando eu quis filmar nosso beijo, que foram:
- E se esse não ficar bom, a gente faz outra gravação? – perguntara-me ele.
- Não se preocupe. Se der errado, a gente faz de novo, de novo e de novo.
Então nos beijamos, enquanto eu segurava a câmera.
Meu coração dói demais quando penso nisso. Entende o que digo? Eu só penso nisso. Meus pensamentos são travados. Sou preso a esses pensamentos como se eu não pudesse pensar em outra coisa. Quando acaba, é como se dessem ‘replay’ e começasse do começo. Por isso não fico muito em paz.
Ah, mas ainda não acabou.

Fomos até o final do morro, paramos para urinar na metade do caminho de volta. Tivemos de correr em seguida, pois vimos um casal fazendo sexo e eles não ficaram nada felizes de nós os pegarmos no flagra. Era uma mulher de uns quarenta anos, de cabelos horríveis, os peitos caídos e pança de almôndega. O cara era um senhor de cinqüenta e todos. Estavam escondidos atrás dos matos, mas dava para ver mesmo assim.
Já estava ficando tarde e logo eu teria de ir embora. Ele me avisara que sua mãe já deveria estar em casa, então ele também tinha que regressar sem demoras.
Refizemos o caminho tortuoso do morro na volta.
Ao chegar a casa, sua mãe já tinha de fato chegado do trabalho. Estava descansando no sofá enquanto procurava algo para ver na TV. Cumprimentei-a e nos dirigimos para o quarto dele novamente para eu pegar minha mochila e depois ir para minha casa. Ele disse que iria comigo, até lá. Claro que pedi para que não se incomodasse e que só bastava me levar até o ponto de ônibus mais próximo. Ele interveio e disse que me levaria sim até em casa, pois não adiantaria ficar sozinho no quarto pensando em mim sendo que ele poderia estar comigo por este tempo todo. Concordei e então fomos para o terminal de ônibus.
Ele desceu comigo do ônibus. Queria ter ido comigo até em casa, mas não deixei. Levei-o até o ponto onde ele teria de ir embora e ele foi.
Quando eu estava a caminho de casa, meu ex-namorado estava me esperando sem que eu soubesse. Apareceu do nada, chorando, descontrolado. Estava de luvas brancas, provavelmente de médicos, e uma faca era o que ele segurava com as luvas nas mãos. Usava uma roupa totalmente descartável. Senti um arrepio e um sopro sobrenatural como da presença de um corpo frio, encapuzado... Como se fosse a Morte.
Ele não falou muito alto. Eu estava numa rua fazia. Havia um colégio, mas estava inabitado no momento por ser um domingo á noite.
Chorei quando ele falou que minha única escapatória era amá-lo. Ser dele e de mais ninguém. Que eu deveria dar adeus ao meu namorado perfeito. Disse que sentia a minha falta, que não conseguiria jamais viver sem mim e que eu seu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Seu coração não agüentaria em me ver com outra pessoa, como tinham ocorrido minutos antes em outra rua.
Eu pedi para que ele entendesse a minha situação, as ele nem me deixou falar mais nada, ele já estava decidido. Com uma facada certeira em meu estômago, fiquei imóvel. Senti mais algumas facadas e meu corpo não agüentar em pé até eu cair e ele pegar minhas coisas para simular assalto.
Perdi uma boa parte da história seguinte. Não sei onde estou e nem o que estou fazendo. Tenho visitado a casa do meu amor constantemente, mas ele não me vê e não me ouve.
O tempo todo eu choro e corro pela casa dele pedindo sua atenção, gritando para que ele largue seu novo namorado, porque eu estou ali. Estou aqui. Ele mudou. Está mais homem e corpulento. Isso me fere mais ainda. Acho que passou um tempo e eu nem sei o quanto. Algumas coisas mudaram.
Sua mãe às vezes sente minha presença. Gosto muito de minha sogra, mas ela tem medo disso. Algumas vezes ela se assustou tanto achando que havia visto vultos e assombrações na casa que até foi parar no hospital. Só por que eu um dia fizera um esforço danado para chamar a atenção de alguém que eu acabei conseguindo derrubar uma bíblia que estava em cima de um móvel na sala enquanto todos falavam de mim.
Fiquei contente quando minha sogra promoveu uma oração em meu nome. Até chorei – não sei como - de alegria.
Passo muito tempo na casa deles. Vivendo a vida deles. Não gosto de sair.
Na verdade eu costumo a sair à noite, enquanto dormem.
Tenho visitado muito meu ex-namorado também. Preciso fazer ele me pagar pelo que ele fez. Destruiu meus sonhos e quero fazê-lo viver um pesadelo também. Acreditar que não existem mais sonhos, somente o que é do mal e assustador.
Ele estava enlouquecendo. Contava a todos que ele via fantasmas e coisa do tipo, mas como sabiam que ele usava drogas e era um perturbado, não acreditavam. Os pais estão com medo dele. Eu costumo aparecer e assustar apenas ele. Ninguém jamais descobrira que ele foi quem me matara. Ele se culpa, mas não se entrega de jeito nenhum.
Ele estava hoje subindo para o quarto e eu de repente decidi que teria de acabar com ele também, mas antes teria de botar medo nele.
Quando subiu o lance de escadas, se deparou com minha imagem. Sim, eu estava forte o bastante para uma aparição. Não fiquei nem três segundos. Ele me viu e jogou o prato de biscoitos e o copo de chocolate ao leite que vinha trazendo para cima. Segurou-se nas paredes e fechou os olhos. Estava escuro.
Comecei a falar com ele.
Ele fez um escândalo. Desceu correndo as escadas e gritou pelos parentes que estavam em casa.
Eles apareceram e não entenderam nada do que tinha acontecido. O garoto estava muito assustado e começara a chorar. Acabou revelando o que tinha acontecido aos pais e a minha ex-cunhada. Abraçaram-no e disseram que ele teria de se desculpar com a minha mãe e que deveria arcar com as conseqüências por ele ser um irresponsável.
Claro que ninguém acreditara que eu aparecera de verdade, mas ele estava muito perturbado. Havia muito tempo que eu o importunava. Uma vez fiquei puxando os cobertores dele, fiz a porta se abrir e fechar fazendo um alto barulho. O que eu mais fazia era acordá-lo abraçando. Passando a mão nele, fazendo carinhos. Ele sempre ficava sem dormir e se encolhia na cama, como um garotinho. Houve vezes que ele passara três noites sem dormir. Eu gostava de chatear ele.
Bom, fora isso, estou mais tranqüilo. Ainda sofro por não ter podido viver o que eu queria. Jamais eu havia amado. O amor é tão bom. Ele me amava. O vi chorar várias vezes em seu quarto. Neste quarto. O quarto que sempre será mais que uma casa para mim, pois é aqui que eu habito. Já vim varias vezes aqui antes. Sempre.
Agora digo tchau a vocês e peço que não me chamem novamente.
Sinto que não voltarei a vê-los, pois pretendo matar a todos. Estejam avisados. Não sou um espírito bom. Fizeram-me um monstro. Sofrer é o pior castigo de alguém. Espero que passem pelo que passei.
Agora deitarei na cama que um dia eu pude sentir o homem da minha vida junto a mim, como se fôssemos apenas um.

- Pronto. Ele calou-se – dissera o homem mais velho sentado à mesa.
- Acredita em tudo que ele contou Fábio? – uma mulher que estava mais próxima a ele perguntara. Estava com uma cara aflita.
- Sim, por que mentiria. Agora, me preocupo em pensar em ele ser tão vingativo e matar nós cinco por termos o chamado e tentado saber da história dessa casa.
- Mesmo a outra família não morando mais aqui, ele se prendeu a casa. É dele. E essa cama jamais pôde ser removida daqui. Os que tentaram, surgem boatos, de que morreram depois que deixaram a casa.
Estavam todos no escuro, apenas á base da luz de velas. Havia muitos candelabros com velas acesas pelo recinto. Uma mesa redonda e cinco curiosos mediúnicos querendo respostas espirituais.
Estavam começando a remover as coisas para deixarem a antiga casa mal-assombrada, como ficou conhecida, quando uma vela que estava num pires caiu na mesa e ficou pingando. Daqueles pingos viraram uma grande poça e então de repente umas palavras foram escritas como que a dedo: ADEUS.
Um incêndio inexplicável ocorrera e nenhum dos cinco médiuns saiu com vida do local.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A mente


Eu estou num calabouço

com uma chave no meu bolso

Uma chave que abrirá as portas

para um mundo...


Um mundo bem estranho

onde tudo é real

que se pode fazer tudo

bem mais que o surreal


Abra sua mente

venha ver,

eu sou magia

tem que crer

para dar certo.

Basta entender...


Que eu sou a magia

venha ver

para dar certo

tem que crer

Abra sua mente...

e tente entender


Me procure, eu não to longe

no escuro eu sou visível

se me quer, não sou difícil

porque sou intelecto


As vezes difícil de lidar

o enlouqueço até criar

o que o chamam de arte

faz A Mente exercitar

sem mudar o aspecto


Use sua mente, use sua mente.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Rascunho de uma amizade

Amiga,

com você eu conheci a amizade

com ela me esqueci que a saudade

machucava o meu peito


Amiga,

você era a única que sempre me ajudava

eu me calava e você só falava

de como a vida era perfeita


Embora eu desacredite de suas palavras

isso me conforta e me deixa mais contente

o mesmo digo quando chega sorridente

logo cedo no trabalho.


Te adoro minha irmã

brigamos como xamãs

e como dois loucos

rindo feito doidos

nos aceitamos como iguais


Sempre sorrindo

alegrando os corações

vivemos emoções

e sem intenção de fins

te amo Daiana Martins



Edson Oliveira Kino


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sábado, 24 de setembro de 2011

Só você

Andei por vários caminhos
me perdi de meu destino
encontrei amigos
mas quando a noite acabava,
me sentia um mendigo.

Foi aí que apareceu
um anjo de luz
não sei se é correto dizer
que foi o senhor que me deu

Eu que só chorava
pelos cantos murmurava
Hoje dou risadas
pois aprendi que sem você
não há mais nada.

Na alegria de um sorriso
imaginei meu mundo
junto do seu fiz meu paraíso
com muito amor e nos olhos
um brilho profundo

Dizer 'te amo' é fácil
talvez não seja certo
mas é o que importa
o resto que vá para o inferno

Somos dois
juntos somos um
somando tudo
o nosso amor
não será apenas mais um

Lembro do passado
vivo o agora
te quero no futuro
pois em teus olhos
encontrei o mundo

temos dificuldades
sofremos juntos
lamentamos no canto
mas o nosso amor é profundo.

Bob Dark Angel
24-SET-11

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tchau Mascote!

Hoje eu tive uma tarde triste.

Tive que expulsar meu pobre gatinho da lan, pois o patrão não o curtia muito, e me deixara um belo de um rascunho, mas com um bilhete com a seguinte ameaça: VOCÊ ESCOLHE QUEM FICA NA LAN, SE É O GATO OU VOCÊ.

Claro, fazia dias que ele me pedia para me livrar do nosso mascote, mas eu não encontrava lugares para deixá-lo.

Perguntei a algumas pessoas que eu conhecia se elas gostariam de criá-lo, mas todas disseram que não querem uma "peste" de um gato em casa.

Ninguém que eu conheço gosta de gatos ou tem condições de criá-lo, seja financeira ou disposição de horário.

Recorri ao meu pai que também detestara a idéia de ter um animal em casa, pois poderia feder o local.

Não me restou nada a fazer, exceto deixá-lo ir.

Daiana Martins me chamara para comprar uma bolsa e como eu estava com duas horas livres do trabalho, aceitei o passeio.

Levei Alano conosco.

Na rua, teve uma hora em que ele começou a peidar, acho. Então coloquei ele no chão para que defecasse. Mas ele não o fez. Ficou correndo de um lado a outro e se distraiu. Daiana me puxou pelo braço e disse que seria uma boa hora para despistá-lo e já que ele não estava ligando em brincar com uma tampinha de garrafa que jogaram na rua, ele não pensaria nas horas, nos dias e nas pessoas que cuidaram dele na lan.

Adeus Alano. O único gato da minha vida. Espero não vê-lo novamente ou vou chorar na frente de quem estiver próximo a mim. ;( Cresça e seja o bom bichano que você foi para mim todos esses dias aqui na lan. Vai me fazer muita falta, mais do que qualquer outro faria, pois só você sabe como foi nosso encontro. E agora soube também o que é o desencontro.




Senhor Invernoso


O pior de se acordar num domingo lindo como este, é abrir os olhos pela manhã e ter a certeza de que não vou vê-lo e nem vou sair para me divertir.Não há com quem sair ou o que fazer. Preferia que este domingo estivesse como aqueles frios, medonhos e chuvosos que tivemos nas últimas semanas.Domingo sempre será um dia triste para mim. Sozinho, sempre sozinho. Você se foi, e levou contigo o frio que eu adorava enfrentar em seus braços, o sabor que ficava na minha boca sempre que seus lábios encostavam-se aos meus. Não sinto mais nada disso.

Minha vontade é te ligar e dizer que ainda te amo, mas não devo fazer isso. Depois de tanto chorar deitado na cama, olhando para janela onde mostrava um céu azul, cor que odeio em demasia, pouquíssimas nuvens pairadas no céu e nenhuma brisa. Apenas o calor do céu, me fazendo de inútil ali. Açaí, era o que tinha para hoje. Sozinho? Sim. Aqui, esperando o pedido, noto um atendente novo no estabelecimento. Ele me olha e se aproxima para saber o que vou querer. Atende-me muito bem e gosto de seu atendimento. Simpático, mais do que o que me atendera da última vez. Senti um interesse nele. Seria bom, mas não estou no clima de conhecimentos. Enquanto meu pedido não chega, abro meu livro na página que eu marcara de cabeça e leio, me perdendo nas deliciosas páginas amareladas. Levo um susto quando o atendente lindinho chega com meu pedido, Açaí com Kiwi e leite condensado. Ele me olha e pergunta se preciso de mais alguma coisa. Seus olhos brilham e acho que os meus também.

Ele é alto, e estava de boné vermelho. Seu rosto era magro, pela gola de sua camiseta de uniforme dava para ver os ossos de seu torso. Era uma camiseta cinza. Seus braços brancos mostravam veias que eu adorei observar. O sol fazia os poucos pelos de seu braço brilharem e ficarem loirinhos. Eu estava numa das mesas externas. Queria que o dia hoje estivesse chuvoso. Eu estaria mais feliz. Se assim estivesse, eu teria coragem de chamá-lo para sair. O dia estava lindo, lindo para muitos, o que me irritou. Havia pessoas felizes ao meu redor. Eu não estava. Sons de risadas, beijos e vozes animadas estavam me tirando do sério. Comi o mais depressa que consegui e deixei meu livro de lado na mesa. Evitei olhar para os lados e ver aquele monte de olhos felizes e bocas sorridentes. O rapaz passava de um lado a outro me observando, e eu o fitava sempre que podia, mas em minha cabeça eu não estava solteiro. Não ainda. Fiz sinal para que outro viesse com a conta. Não queria me aproximar dele dessa vez, afinal, quem sabe se ele estava mesmo interessado?

Paguei a conta, mas fiz questão de deixar uma bela gorjeta para o rapaz que me atendeu primeiro. O dinheiro não me importava, somente o sol, que agora, enquanto eu caminho para qualquer lugar, qualquer rua, ele me cega com sua luz forte e queimante. Eu era o único estranho na rua, que andava com uma blusa de frio preta, calça jeans e óculos escuros, além do guarda-chuva preto, que atraia mais olhares ainda, sendo um dia sem sinais de tempestade ou frio, pois estava um calor de 33ºC. E para o último que me olhou de cara feia, eu disse: Não me diga que não está com frio? E dei a risada mais demoníaca que consegui reproduzir.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Devido às chuvas

Sim, sim.
Anteontem e ontem foram dias muito chuvosos, além de friorentos.
Com isso, acontecem casos devastadores e... bizarros. Como o que vem a seguir.

- O que você perdeu com a enchente?
- Minha virgindade... minha namorada dormiu aqui porque a casa dela encheu!!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mais um dia de frio chega ao fim




E mais um dia chega ao fim, não é mesmo?
Hoje foi um longo dia para muitos. Nos molharmos na chuva, passarmos frio, trabalhar o dia todo, falar com algum amigo e vegetar na internet. No meu caso, sou obrigado a conviver com ela no mínimo 08 horas por dia, já que trabalho numa lan house.

Hoje consegui chegar pontualmente, evitando do Peixinho reclamar comigo. Pedi meus dois pães de queijo e suco de maracujá que são de hábito, na verdade é o suco de morango, mas não compraram a fruta ainda.
Enquanto Gabriel fazia seus códigos de html no servidor, fui comprar a ração do Alano.
Alano é um gato que o encontrei no ônibus que me trazia de Cidade Tiradentes naquela sexta-feira tenebrosa. Desde então ele está como o mascote do estabelecimento.
Estava uma chuva lá fora. Falei com Leonor antes de sair. Ela me disse que a chuva de São Paulo estava indo completamente para o Rio de Janeiro. Ela é a panfleteira das lan houses e é peruana. Adoro seu espanhol. Ela me incentivou a dar leite e muita água para o Alano.
O Extra não estava tão cheio assim. Me irritei com uma senhora arrogante que me disse que eu estava na fila errada.

- Por que não vai naquela fila que está menor? Você só está com um produto - acusou ela.
- Aqui falta pouco - disse sem dar muita atenção.
- Moleque sem graça, fica aqui atrapalhando - ela estava atrás de mim.
- Por que não vai você? Não estou com pressa alguma.

Ela se calou então.
Gente chata naquele bairro de escórias. Argh! Pelo menos não era uma Changa.
Changos, é como chamamos carinhosamente os Bolivianos, peruanos, chilenos e os outros povos que também falam e em espanhol. É uma forma de resumir o povo.
Na lan, dei comigo para um Alano muito faminto.
Gabriel e eu conversamos sobre os papos normais, ligamos na Metropolitana e pedimos a música do Red Hot Chilli Peppers. Não, não ganhamos a promoção que nos daria direito a ir ver o show aqui no Brasil.
O trabalho foi normal o dia todo. Almocei e falei com o Chuck Bass, o Vanderson. O baixinho que eu conheci e do qual tô gostando muito.
Depois das 16h, fui para casa de bicicleta. Entreguei-a para o meu pai ir trabalhar, mas antes dei bronca na minha irmã que, ontem fui na casa dela e ela não estava, fazendo eu ir de bicicleta até a Vila Mariana à toa. Ao menos conversei com o Sérgio, o porteiro. Sérgio é o ex namorado da antiga melhor amiga da minha irmã.
Desisti de ir na Academia, que fica na Zona Leste, onde eu morava até duas semanas atrás, por preguiça. Decidi vir até a unidade da Liberdade usar um pouco a internet. Antes, pedi um chocolate quente e uma esfiha de carne. Vim para a máquina e estou até agora.
Conheci alguém que no passado era pra ter conhecido, mas não foi feito. Estudamos na mesma escola e nem imaginávamos que nos veríamos um dia. 04 anos de formação de distância.
Ainda estamos conversando enquanto estou aqui.
Duas amigas leram meus contos e elas adoraram. Espero que mais gente compareça ao blog e gostem também.



Amargurada



Antes do fim, eu andava descalça em meio a chuva naquela areia que já estava lamacenta.

Meus olhos estavam presos no horizonte negro da noite fria, fitando o infinito, além do mar que estava dançando como se zombasse da minha cara de choro.

- Não ria de mim! - eu gritei para ninguém a minha frente.

E ninguém respondeu. Somente o vento e a chuva pareceram se irritar.

Não havia mais ninguém naquela praia. Os covardes se guardaram dentro dos cubículos que os protegiam do molhado. Além do que eram altas horas da noite.

Não vi solução melhor para a minha vida de angústias que caminhar sorrateiramente, em longos passos, sentindo cada gota de chuva cair sobre meu corpo, até o mar com ondas enormes e enraivecidas graças aos ventos. Eu estava chateada com o mundo. Não tinha mais o que fazer nele.

Meu Iphone tocou em minhas mãos. Engraçado, se é que eu podia sentir essa emoção, não estava o sentindo em minhas mãos. Nem me lembrava de estar com ele.

Atendi depois de me irritar com a música que me fazia lembrar ele. E era ele...

- O que você quer? - minha voz era dura e meus lábios estavam bem úmidos. Expressei toda a minha dor nessa pergunta.

- Por favor, precisamos conversar. Você não me deixou explicar...

- Explicar o quê? - eu gritei, e ao longe, um trovão gritou mais alto. - O que eu vi já bastou tudo. A semanas que eu vejo.

- Era só um truque. E hoje não foi bem isso, ela, ela que fez tudo, ela que... - ele parecia muito desesperado. Não quero me lembrar de seu nome. Ele me machuca.

- Basta! - interrompi novamente. - Lamento te interromper nessa história mal contada. Quero que você se dane! Você e a vadia da minha prima.

- Amor, ela me embebedou.

- Não me chame desse jeito, nunca mais!

- Por favor. - ele implorava e eu percebi que estava chorando.

- Quantas chances eu terei que dar a você? Quantas mais?

- Você sabe que me ama.

Desejei bater nele nesse momento.

- Não! Eu amei, agora não mais. Sabe o que é sentir saudade? Sabe o que é se humilhar? Sabe o que é pegar o cara que você ama na cama com outra? Sabe o quanto isso dói?

- Você precisa saber que foi ela, e não eu. Eu te amo...

- Cala essa maldita boca! Cala...

Eu surtei e joquei o Iphone o mais longe que consegui. Ele afundou na lama.

O vento fazia meu vestido preto voar como louco, mesmo pesado e ensopado.

Em momento algum deixei de caminhar, de enfrentar o meu destino. O mar me convidava a visitá-lo, a fazer parte dele. Enquanto isso, eu não sentia meu coração. Era como se ele fosse negro ou que não existisse.

Magoada e querendo matar alguém, decidi matar meus sentimentos e a mim mesmo. Senti como se a alma do meu coração em abandonasse, me fazendo então uma mulher amargurada. Não tinha mais espressão no rosto, a não ser que interpretasse meus olhos aprtados como rancor e ódio. Mas isso eu sentia por dentro.

Senti o gelo todo daquela água fria do mar cortando minhas pernas. Maior foi a dor e a agonia quando foi subindo para as minhas coxas. Não olhei para trás. apenas para o nada que tinha a frente. Estava arrepiante, literalmente. A chuva estava muito forte. Raios passavam não muito longe de mim e os trovões ensurdeciam e me fazia pular com o susto. O mar travesso me jogava de um lado a outro. A água agora passava pelos meus seios.

Determinada, continuei avançando. As ondas enormes que vinham sempre me cobriam, e me jogava para trás, e eu avançava como podia depois.

"Mas por que você quer partir, Regina? Seu namorado vai continuar vivendo. Ele não irá deixar de ficar com ninguém. Seguirá a vida dele, assim como todos. Por que você não recomessa e morre quando for para morrer. Ainda não é a hora, ainda tem muito o que fazer. A felicidade pode ser encontrada sempre que a necessitarmos, basta correr atrás, e não ter orgulho. Se ele existir, faça-o ficar extinto, mas não deixe que isso faça você ficar paralisada no além e dar um fim a algo que não está nem no começo".

Esse pensamento me veio à cabeça, exatamente com a voz da minha falecida avó, que lutou tanto contra uma doença, pois ela queria muito viver e poder pedir o perdão da filha dela, minha mãe, mas a doença a venceu e ela se foi, sem antes realizar o maior desejo de seu coração.

Fiquei parada olhando em volta de onde eu estava e olhando para meu próprio corpo.

- Não vou perder o restante da minha vida por você, Jefferson. Você não merece. Acho que eu posso reverter a situação.

Quando eu tentei voltar, notei que eu estava longe de mais e as ondas eram muito altas e mais fortes que o normal.

Eu dava dois passos, muito dificeis e pesados à frente, mas a o mar me puxava para trás. Até vir uma outra onda e me cobrir inteira. Fiquei sem fôlego e fui respirar, mas no mesmo instante, veio mais uma e outra em seguida. Estava numa área funda do mar e não conseguia chegar a tempo na superfície para poder respirar. O mar me jogou para um lado e para o outro, e depois eu não conseguia mais respirar. Estava sentindo como se eu fosse explodir... e então, não vi mais a água, não senti mais como ela estava fria e nem me debati mais pela falta de ar. Eu não precisava mais dele.

Trollando Ao Vivo


domingo, 28 de agosto de 2011

Honra ao Mérito de Escritor - Humpf!


Dia 30 de Sembro!Hmm. Esse foi um dia importante e vou guardá-lo para todo o sempre.Ao ganhar o que considero Prêmio por Valorização e Reconhecimento de Perfeita Obra-Literária, percebi que enquanto um já tem a certeza, outros não tem a esperança de que algo dará certo e só esperam a premiação passar para sair daquela tortura já que aceitou que não vai ganhar nada mesmo.Em agosto, meu amável professor de Biologia (Almir, The best of the Best's), organizou uma espécie de olimpíadas em meu colégio para promover o meio ambiente. Teríamos uma série de 13 modalidades a serem realizadas, uma por dia, apartir de 13 de Setembro. Essas modalidades, cada uma era avaliada por algum professor em pontos para serem somados no final. O prêmio para a sala que arrecadasse mais pontos era de um passeio VIP ao parque de diversões Hopi Hari e mais alguma coisa que não me recordo.Minha sala é composta por: bagunceiros, brincalhões, desenteressados, jogadores de truco, preguiçosos, 1 inteligente (adivinhe quem é) e uns outros que... esperam alguem resolver alguma coisa para eles clicarem em CTRL+L e ficarem numa boa. Com isso, nossa sala não tinha chance alguma de progredir e ir ao tal parque de graça.Eu fiz a minha parte, mas com o propósito de mostrar o meu trabalho de escritor. Não vacilei, fiquei quase 5 aulas completas escrevendo uma história adaptada sobre o meio ambiente que havia trabalhado nela há algum tempo. Foram 9 páginas, mais de 10 minutos esperando minha mão se recuperar do músculo dolorido na palma, 4 tentativas fracassadas de segurar a caneta como antes eu segurava no começo do original e uma pausa para o intervalo.Isso deu o resultado de 1440 pontos, que foi revelado no dia 29 e me deixou na frente de duas outras salas.O professor Almir deixou bem expecífico, que o prêmio foi pra mim, e não para o restante da sala que não ajudou em nada, nem a me emprestar uma caneta preta.Foi difícil ir até o centro da quadra (onde estava sendo o evento) e receber a minha medalha de Honra ao Mérito. Eu já sabia que ia ganhar, mas na hora, você perde até a confiança. Quando ele anunciou diversas salas que haviam ganhado na Gincana, Simpósio, Reciclagem, Plantações e etc. Quando chegou em Produção Literária, tudo dentro de mim se contorceu mas continuei em pé esperando.Quando anunciou meu nome como o vencedor do 1C, eu tremi e dei uma olhada para onde estavam alguns dos colegas da sala que eram brincalhões e bagunceiros, mas que eram muito legais comigo e muito engraçados. Eles tentaram me acordar chamando a minha atenção e ir buscar o prêmio. Meu primeiro prêmio de Literatura, que desse, concerteza virá muitos. Eu espero. Ao me colocar a medalha, Almir me deus os parabéns tirou uma fotografia, assim como ele fez com os outros ganhadores. O pessoal da minha sala foi à loucura quando voltei, eles pulavam e gritavam "Nono A eu vou comer o seu bolo". Eu ri, pois eu sabia o significado disso.O nono A acabou ganhando o passeio para o Hopi hari.Dei uma boa olhada em minha medalha que estava reluzente em meu pescoço.Foi a unica medalha que a minha sala ganhou.

Aquele da Bicicleta


Saí um pouco tarde do trabalho.
Certo, todos nós gastamos sempre mais do que temos. Eu fiz essa besteira o mês passado e também neste aqui, o que me fez quase mendigar. Tá, é um exagero, mas estou quase nessa.
Sorte que comprei uma bicicleta há três meses simplesmente para pedalar nos finais de semana. Agora, sem dinheiro para pagar o metrô na volta para casa, tenho que pedalar diversos quilômetros até chegar ao meu destino.
Peguei minha Gatinha, como chamo minha bike, e desci a escadaria do prédio onde eu trabalhava no Tatuapé.
Só eu sei a preguiça que dá para ir trabalhar de bike, principalmente voltar, pois aí você está mais cansado e louco por descanso, e não esforço físico.
Enquanto eu pedalava até a ciclovia, ia com pensamentos que me distraiam completamente da direção. As vezes me sentia como se nem pedalasse. Parecia que ela corria por si só. Pouco eu enchergava o chão. Linhas e mais linhas passavam por mim e eu sem reparar nelas. Só pensava em quanto eu estava sem ninguém, o tempo que eu estava carente que talvez eu me apaixonaria pelo primeiro idiota que passase por mim.
Atravessei a rua e entrei na ciclovia.
Estava uma noite quente. E eu de calça jeans e blusa de frio. Claro, de manhã estava pouco mais de 10 ºC. Estamos vivendo tempos de insanidade, loucos.
Vi o trem passar correndo por mim. Vários deles. Que inveja das pessoas apertadas e expremidas que estavam ali dentro. Pelo menos o unico esforço que elas tinham era de se segurar. Isso se precisasse, pois com o aperto que sofriam, estavam mais enlatados que uma sardinha.
Fitando a estação Carrão, completamente distraído, quase sou derrubado por um brutamontes que passa à toda ao meu lado, numa bike azul.
- Cuidado aê! - gritei.
Mas ele já estava mais a frente.
Pedalei um pouco mais rápido para acompanhar sua velocidade. Ele já não estava mais tão rápido. Deveria ter cansado.
Parecia ser jovem, pelo menos de costas. Quem sabe uns 22 anos, da mesma idade que eu? E me distraí, imaginando coisas. Jamais acontecera essas coisas de vídeos da internet comigo. Nunca. Tentei ficar o mais próximo possível dele para quem sabe, puxar papo. Mas o quê eu diria? Ele acabara de ser grosso comigo.
Já estava bem perto dele agora, então me aproximei mais. Não desisti, embora minhas coxas e panturrilhas reclamassem um pouco de dor.
Continuamos pedalando no ritmo que nossos corpos aguentavam graças ao cansasso. Quando ficamos lado a lado na pista, sendo ele do lado esquerdo, onde os ciclistam voltam da Zona Leste, ele fez sinal com a cabeça, abaixando-a, significando um pedido de desculpas. Fiz o mesmo com a cabeça, assentindo. Agora não havia mais raiva de um quase matar o outro, ou só machucar mesmo.
Ele se recuperou e pedalou feito um louco. Deixei-o ir. Simplesmente baixei a cabeça e olhei para os pneus e para o meu sapato que fazia os movimentos giratórios que eu me locomovesse naquele meio de transporte. Quando fui olhar para o céu, mais uma vez, vi que de longe, o rapaz estava olhando para trás, como se me esperasse ou que estivesse apostando corrida comigo, e eu perdendo de lavada.
Acelerei o máximo que pude, mas o calor era desmaiador. Ele pedalou devagar e rapidamente eu parei, tirei a blusa de frio e a guardei na mochila que eu carregava. Não demorei muito.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eu estava empolgado. Queria continuar pedalando e pedalando com ele todo o tempo.
Apostamos corrida por vários miutos, cansávamos e iamos devagar. Ao recobrar o fôlego, repetíamos o processo.
Mas no caminho inteiro não falamos um com o outro. Era uma brincadeira silenciosa, que limitava-se ás nossas respirações ofegantes, risadas abafadas, carros buzinnando e passando zunindo na Radial ao lado e o metrô passando a galope do outro.
Um amigo eu tinha conquistado, acho. Mas eu o veria novamente?
Não gostei da idéia de perdê-lo. E se ele viesse a ser mais que um amigo?
Mas agora ele estava se afastando novamente.
Ele fez um aceno, como de um tchau e aproveitou para atravessar a rua enquanto o farol estava vermelho para os carros. Eu o estava perdendo. Mas, ele ficaria comigo? Ele parecia ser hétero. Mas porque aceitou numa boa brincar de pega-pega na bike?
Aquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos estava se afastando cada vez mais, e para piorar, meu celular toca. Michele.
- Alô - atendi meio com pressa, o dedo já no botão de encerramento de chamadas.
- Oi amor, já tá chegando? - e sua voz doce me deixou confuso. O garoto estava um tanto lento pois subia uma ladeira, do outro lado da rua. Mas minha namorada não não adivinharia momento melhor para me ligar, como este.
- Sim, estou quase. Tô de bicicleta, depois te ligo - quando fui desligar, ela gritou: Espera!
Bufei de raiva e pressa, mas falei em tom calmo e passivo. Ela jamais suspeitaria minha tração por homens, e nem que eu estava prestes a ficar com um, assim que ela desligasse a porra do celular.
- Passa no mercado antes de chegar e compra extrato de tomates e pipoca de microondas.
- Certo eu passo. Vou desligar. Beijo.
Não dei tempo que ela retribuisse o beijo. Quase fui atropelado por um ônibus e quase atropelei uma mulher que carregava um monte de sacolas.
- Distraída dos infernos - berrei.
Ela me chingou de algumas coisas e seguiu seu caminho.
Não consegui mais avistar o da bicicleta. Fiquei meio louco e entristecido.
Senti que ele me queria, assim como eu o queria. Jamais isso havia acontecido comigo. E além do mais, eu estava procurando mesmo um companheiro. Há muitos dias eu não estava mais feliz com a Michele. Eu sentia como se aquilo não fosse pra mim, e a cada dia eu me prendia mais naquela situação.
Continuei pedalando pelas ruas que eu desconhecia completamente, enquanto alguns pensamentos ardiam meu coração e confundiam minha mente.
Eu estava cansado por ter acordado cedo e trabalhado o dia todo, estava pedalando e agora estava indo eu nem sabia para onde. Lembrei no dia em que eu ficara andando a madrugada toda com Michele, pelas ruas desertas e perigosas do Centro. Perdemos a chave da nossa antiga casa e estavamos longe de onde perdemos quando nos demos conta. Já não havia mais ônibus e pouco dinheiro tínhamos. Seria a nossa primeira noite de sexo, mas frustrada por burrada nossa. Ficamos a noite toda caminhando, parando as vezes em bancos de praças e conversávamos mais enquanto descansávamos. Quando amanheceu, chamamos um amigo chaveiro para trocar a fechadura e nos dar as chaves novas. Esse pensamento me fez lembrar da vez em que fui num motel com um garoto que conheci pela internet... no meio do prazer todo, acabamos andando e nos jogando pelos espaços do quarto. O extase foi tanto que joguei ele na porta, e ficamos lá, ele prendeu o braço, segurando-se na maçaneta, e eu o puxei com violência para bem perto de mim. A maçaneta caiu no chão e ficamos presos lá, pois a chave ficara do lado de fora.
Freiei a bike para olhar em que ruas eu estava entrando. Não havia sinal algum dele. E agora? Ele poderia já ter entrado em alguma das muitas casas e edifícios que passei. Agora era o fim, não havia meios de encontrá-lo, de forma alguma.
Voltei para a ciclovia. Muitos minutos atrasado... simplesmente fiquei triste comigo mesmo. Eu estava fazendo duas besteiras ao mesmo tempo. O cara era hétero, pensei para me reconfortar. Michele me ama e está fazendo o jantar que eu mais gosto, só não sei bem o por que.
Cheguei em casa, coloquei as sacolas na mesa e me joguei na cama. Michele não me viu entrar pois deveria estar na lavanderia.
Tirei a roupa e tomei um longo banho. Ainda pensando no garoto. Puxa, ele mexeu tanto comigo. Nem sei bem como, mas ele tinha me feito pensar nele durante todo o banho, enquanto eu ajudava Michele a terminar a comida e principalmente quando fui beijá-la... imaginei seu rosto. O mesmo que sorriu para mim quando ficamos lado a lado na ciclovia.
A idéia de nunca mais ver uma pessoa sempre me perturbou. A casa hora que passava, eu não conseguia esquecê-lo.
A idéia de tentar encontra-lo na internet era ridícula. Como seria a pesquisa? Procuro um garoto lindo que montava uma bicicleta azul com detalhes amarelados. Acho que não ficaria legal.
Idéias e mais idéias. Só que o sono era mais forte.
Quando fui me deitar, pronto para dormir e enfrentar a dureza do dia seguinte nas costas, e talvez pernas novamente, Michele se aninhou junto a mim e eu a abracei.
No meio de nossos beijos preliminares, meu celular toca com um tom de mensagem de texto. Peguei-o e li o que um numero desconhecido me dizia: ENTRE NO Facebook E PESQUISE O NOME ABAIXO. IMEDIATAMENTE.
- Quem é? - Michele perguntou puxando meu pescoço para baixo.
Saí da tela de mensagens antes que ela pudesse ler.
- Da Claro, me andando aqueles protocolos de atendimento.
- Bem atrasado, né?
- Pois é - falei me levantando e ligando o computador. - Liguei lá faz uns quatro dias, lembra?
Ela assentiu e virou-se para o outro lado. Estava cansada também. Senti que ela estava chateada com alguma coisa. Mas ignorei.
Estava ansioso e o PC demorando muito para iniciar.
Quando iniciou e a internet se conectou automaticamente, cliquei no favorito do Facebook, que deixo na minha barrinha do Google Chrome. Pesquisei o nome do sujeito da mensagem e quando clico... aquele da bicicleta estava com seu perfil bem ali na minha frente. Quase chorei de felicidade quando o encontrei. Ele aceitou meu pedido de amizade quase de imediato. Começamos a conversar...
Ele me falou que pensou em mim também, mas se manteve na dele. Que queria ouvir a minha voz, assim como eu agora queria ouvir a dele.
Não vi as horas, não. E nada ao meu redor. Eu estava com a atenção totalmente voltada ao Facebook. O papo estava muito longo, se estendera por mais uma hora ou duas. Ele parecia empolgado também em me conhecer de verdade. Ele me disse qu namorava com uma garota também, mas que já não estava tão ligado nela e principalmente por ela ser ciumenta. Alguns detalhes de sua vida, músicas favoritas e lugares também. Eu precisava ficar com ele.
De repente, tomo um susto com uma lágrima que cai em meu ombro nu. Michele estava chorando ao ler toda a conversa pelo Facebook.
Não achei lugar para enfiar a minha cara.
- Hoje - ela começou, com os lábios e voz tremendo por causa do choro - ou, ontem no caso que passou da meia-noite, fazemos dez meses de namoro. Você não se lembrou disso?
- E-e-eu...
- Claro que não. Quantas coisas descubro aqui, do nada. Por isso você adora sair com seus amigos, né? Aqueles da balada?
- N-não - eu nem tinha palavras.
- Deve ter me traido zilhões de vezes... e com homens ainda por cima. Acho que a dor é ainda maior.
- Calma, eu posso explicar que...
- Explicar o quê? Eu li aqui, ao seu lado, você todo empolgado marcando de se encontrar com um cara que nem conhece. Que só pedalou com ele por alguns minutos. Já nós temos uma história já... Sorte a minha, ou azar, que você é um retardado. Muito distraído e perdido nessa sua cabeça oca. Como não me viu, ouviu ou sentiu eu atrás de você lendo tudo?
- O fone de ouvido me faz viajar ainda mais.
- Eu não acredito nessa situação - ela baixou a cabeça e começou a chorar.
Deixei ela quieta e respondi ao garoto da bicicleta que depois conversaríamos, pois estava cansado.
- Michele, então esse é um bom momento para dizer que não dá mais. Faz um tempo que queria te falar isso, mas fui adiando e acho que já é tarde agora, para não fazer você sofrer.
- Você não vai me deixar para ficar com um homem.
- Eu não disse isso, mas... Mi, faz tempo que eu não gosto mais de você como gostaria.
- E você me diz assim?
- Como queria que eu te contasse? Eu tô muito confuso. Eu só quero me deitar e pensar sobre tudo.
- Inclusive naquele veadinho da bicicleta?
Aquilo me atingiu na alma.
- Você me vê assim, agora?
Coloquei minha camiseta de volta, peguei minhas coisas de trabalho e a mochila e saí, deixando Michele chorando ao me olhar pela janela da cozinha. Me vendo partir.
A besteira que eu tinha feito era imensa. Minha vida poderia estar arruinada agora. Meus pais me jogariam muitas coisas na cara, não teria mais meus amigos heteros, na empresa provavelmente me desrespeitariam, nas ruas, em casa... olhos e mais olhos me fitando e me condenando. Ao menos acho que é assim. Tenho certeza que Michele, sendo como é, vai fazer um inferno na minha vida para eu voltar para ela, e quem sabe, destruir qualquer um que se aproxime de mim.
Milhões de pensamentos me veio na cabeça enquanto eu pedalava a Gatinha pela ciclovia até uns bancos que ficavam próximos à estação Penha. Eu passaria a noite ali, decidindo o que faria do amanhecer.
Olhei para a ciclovia e me lembrei dele: Caio. Minha vida agora estava - ou amanhã estaria - um caos, tudo por causa daquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos. Agora eu tinha que fazer valer a pena, e ele também, ou eu iria me jogar de bike nos trilhos do trem.
A unica coisa que restava para mim era esperar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Anjo do Prazer


E eu estava apaixonada por ele.
Kadu era irresistívelmente gostoso, de acordo com a foto que eu via em meu MSN.
Eu o conheci através de um site de relacionamento na internet. Conversávamos por diversas horas ao dia. E ele era muito simpático.
A foto que eu estava acostumada a ver era de suas costas. Havia duas cicatrizes que desciam dos ombros até a costela. Não eram de dar pena e nem eram feias, em si. Durante uma conversa ele me contou que se acidentara num dos treinamentos do quartel, quando ainda era recruta.
Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente eu estava apaixonada por ele. As coisas que ele me dizia sobre a vida, como pensava dela, o que queria fazer comigo... como não poderíamos perder muito tempo, pois logo partiríamos... E eu sempre ficava excitada.
Com exatos dois meses de conversas em todos os meios de comunicação, marcamos de nos encontrar-mos em algum restaurante de shopping. Sempre achei que primeiros encontros seriam melhores em locais públicos antes.
Não me cabia de felicidade encontrá-lo, vê-lo pessoalmente. Conversar com ele era como se fosse com alguém dos meus sonhos, como se não existisse na realidade. Precisava saber que ele era mesmo real. Quem sabe não já deixaríamos o parque namorando?
Corei, enquanto esperava ele digitar a confirmação do horário do encontro, que seria hoje.
Empolguei-me e fui logo ao chuveiro.
Depois de secar os cabelos e passar um bom creme hidratante no corpo, vesti uma blusa com renda preta e vermelha, uma jeans escura sem bolsos atrás e um salto preto, não muito alto. Estava um fim de tarde lindo lá fora, quando olhei pela janela para saber se estava frio. Mas não estava. Uma briza calorosa parecia dançar em meu braço, fazendo sua carícia macia.
Chequei a bateria do meu celular e que horas seria no momento.
Ansiosa? Claro que estava. Ainda bem que minha mãe não estava em casa para fazer zilhões de perguntas irritantes. Eu teria que mentir, mas não estava com vontade.
Quando cheguei finalmente à estação de trens que ligava ao Shopping Eldorado, Hebraica-Rebolças, Kadu me mandara uma mensagem de texto.
ACABEI DE CHEGAR. 2º ANDAR - PRÓXIMO À PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO. VOCÊ ME ENCONTRARÁ AO LADO DE QUEM SOU OU FITANDO O IRREAL.
Não entendi muito bem o recado, mas sabia que estávamos a poucos metros de distância. Estávamos dentro do mesmo teto, em tese. Isso já me deixava feliz.
Fui muito bem recebida por diversos pares de olhos. Os masculinos pareciam que queria meu corpo - seios - junto ao seu - na língua. Os femininos talvez me criticassem negativamente. Invejosas, sempre penso. Enquanto subia a escada, pude ver minha silhueta numa das paredes espelhadas que há pelo shopping. Meu cabelo estava bem liso e comportado, as luzes que eu fizera semana passada o deixaram mais atraente. A blusinha era bem sensual, mas de um jeito comportado. A calça dava um pouco mais de volume ao meu bumbum. E o salto não me deixava ser tão baixinha. Meu perfume fazia muitos passarem suas narinas próximas demais a mim. Pelo jeito eu estava mesmo arrazando, mas queria arrazar apenas um...
- Kadu? - chamei ao ser mais lindo que vi no Shopping inteiro. Parado ao lado de um cartaz onde havia dois caras se abraçando numa propaganda de roupas masculinas e do outro lado havia uma escultura de um anjo, apontando uma flecha para algum coração ao longe.
Lembrei-me da mensagem que ele me mandara no celular, mas isso foi de instantes pois no momento que o chamei pelo nome, ele se virou e um ótimo perfume veio ao meu encontro.
- Sabrina minha querida. Estava ansioso para conhecê-la - e sua voz era grossa, mas doce. Tinha um certo poder de autoridade nela, além de que parecia ser muito certinho.
Tive absoluta certeza que ele não era da Zona Leste. Se fosse de lá, ele diria: "E aí gatinha, suave?"
Ignorei esse pensamento e me aproximei para cumprimentá-lo.
Sua mão forte segurou a minha e a levou até seus lábios comprimidos dando um beijo macio. Senti seus olhos me avaliarem.
E eles eram castanho-claros, mas tinham um brilho diferente que me fazia acreditar que ele estava muito feliz em me ver.
Olhei-o novamente. Forte, moreno. Cabeça raspada e o corte parecia bem feito.
- Demorei muito? - perguntei para quebrar o clima tenso que eu estava sentindo.
- Não mais do que demoraram para colocarem uma escultura ridícula como essa aqui - ele apontou para o anjo com rosto infantil.
- Ela é bonita. Enfim... o que vamos fazer? - falei descontraída. Sintia algo muito diferente perto dele. Alegre. Ou algo mais que isso. Era uma felicidade muito grande estar com ele.
Ele estava contente também. Estava sorrindo enquanto dávamos passos curtos para o nada. De nenhuma maneira estava constrangido ou sendo safado. Ele transparecia que eu era dele. Só dele, então nem se preocupava.
- Quero te levar a um lugar de que gosto muito.
Epa. Eu queria continuar em meu terrítório. Não poderia conhecer o dele agora. Era muito cedo ainda.
- Calma - pedi a ele. - Acabamos de chegar.
- Aqui foi somente o ponto do encontro. A noite tem muito mais a oferecer do que ficar na companhia de tanta gente desnecessária.
Estava chateada com o término do meu namoro que fora há cinco semanas. Eu queria me divertir, de qualquer forma possível, mas a lembrança dele não me saia do pensamento. Para me livrar daquelas imagens que me faziam chorar sempre que eu pensava com afinco, aceitei alegremente o convite.
- Ótimo - disse ele segurando minha mão e me conduzindo para a saída do Shopping. - Está uma noite abafada. Precisamos de um lugar com vento. Quero sentir a briza da noite com você ao meu lado e ver seus cabelos esvoaçarem.
Ele falava sempre com os lábios perto de mim. O rosto sempre quase colado ao meu. Arrepios era o que minha pele mais sentia naquele momento.
Paramos em frente a um carro preto. Lindo, por sinal. Era um Fluence, da Renault. Não acreditei que aquele carro era dele. Será que agora eu me dera bem na vida? Além de lindo e bem encorpado, provavelmente tinha uma vida financeira bastante boa.
- É o carro do seu pai? - perguntei tentando tirar minha dúvida.
- Não. É meu.
Dei de ombros e sentei no banco do passageiro. Era macio. Assim que ele entrou, ligou o ar-condicionado. Muito vento saia dali. Até o estranhei.
- Você parece gostar muito de vento - comentei.
- Sinto muita falta dele - respondeu. - Aqui em baixo quase não o sinto.
Seguimos viagem. Ele não falava tanto assim. Pela internet nos falávamos mais. Mas ele havia me dito que era mesmo muito calado, embora eu tivesse conseguido puxar papo e ele entrado e o aproveitado. Riu algumas vezes e também olhava enraivecido para algumas árvores sinistras que passavamos.
Estava bem escuro por onde seguíamos a uma velocidade razoavel. Não foi difícil perceber que ele estava me levando para o Centro, e não demorou mais que quinze minutos para chegarmos. Já estava tarde. O trânsito estava livre.
Kadu me contara sobre sua família, sobre alguns amigos, coisas que gostava de fazer e como passava o tempo. Ele não parecia um rapaz comum. Não estava estudando e nem tentanto ingressar numa faculdade. Apenas trabalhava, pelo que me disse, de detetive particular.
Não sei se ele era tímido ou estava me respeitando, mas em momento algum ele tentou "avançar o sinal". Até ali não rolara amassos e nem coisas do tipo. Mas ele deixou eu apoiar meu braço em sua perna quente.
Paramos perto da Rua João Brícola. Quando ele desligou o ar, reparei que nem viemos ouvindo música alguma. Nem precisamos disso. A companhia dele não era chata ou menos ainda, irritante. Estava sendo um dos melhores encontros da minha vida e nem estava precisando de uma música para marcar aqueles momentos.
- Lá - ele apontou de repente, enquanto checava se meu cabelo estava legal, no espelhinho que tem naqueles protetores de visão contra o sol. - Quero te levar lá em cima.
Olhando para seu dedo, segui para onde ele queria e me deparei com um edifício enorme, o maior que vi em São Paulo. Uma réplica do Empire State Building. Era o BANESPA.
- Mas não está aberto para visitas a essa hora. Está?
- Não, não está - e ele me deu um sorriso travesso.
Gostei da sensação que senti. Talvez em meu estado normal, se algum amigo meu ou qualquer outro me pedisse para fazer uma loucura assim, entrar num edifício como este, um banco, onde poderíamos ser presos por cruzar os seguranças, com certeza eu não aceitaria. Mas eu estava com ele. Eu queria fazer isso. Sentia necessidade de arriscar. Sentia prazer nessa adrenalina louca.
Ele segurou meu rosto e puxou minha cabeça para mais perto. Fiz o mesmo e nos beijamos com certa energia descontrolada. Um êxtase explodia ali. Suas mãos não paravam quietas e nem as minhas. Pude conhecer boa parte de seu corpo e ele do meu.
Antes de começarmos a nos despir, ele se afastou de mim. Saiu do carro e veio até a minha porta para abrí-la. Um cavalheiro.
"Não acredito nesse cara", pensei toda boba.
Segurando minha mão, ele gritou: - Vem, vamos. - e saimos correndo pela rua até a entrada do edifício.
Eu me encostei na parede da entrada, para que nenhum dos seguranças me visse. Kadu não estava muito preocupado. Parecia conhecer a área.
- Vem, acho que agora já dá - ele me puxou.
Eu já estava com muito medo de que desse algo errado. E ainda por cima, não entendia o por que de ele fazer isso. Comecei a tremer.
- É melhor irmos a outro lugar...
- Que nada. Quero que seja perfeita essa noite.
As palavras dele me deram coragem. Não queria que se estragasse por minha causa. Entramos no edifício pelo Hall principal. Havia um segurança encostado numa parede mais ao longe e o zelador estava anotando algumas coisas numa prancheta, sentado à uma mesinha perto do segurança. Era muito sofisticado o lugar.
Kadu me conduziu rapidamente para as escadarias.
- E as câmeras? - perguntei sem fôlego.
- Elas não importam agora.
- Mas...
- Corre, vamos pegar o elevador somente no sétimo andar.
Suspirei de pensar nisso.
Corremos um bocado, desviando de alguns seguranças que vinham de outros corredores. Tentamos fazer o menor barulho possível.
- Kadu, você não está pensando direito - acusei. - Se vamos pegar os elevadores, neles há câmeras. E sempre há um porteiro ou quem for observando essas câmeras. Vão nos pegar.
- Não se preocupe, já disse. - ele falou calmo, sem parecer me ouvir, o que me deixou irritada.
Chegamos ao sétimo andar. Até que eu não estava tão cansada. Pegamos um elevador que nos levou até o vigésimo sexto andar, depois pegamos o outro que nos deixou no trigésimo quarto. Subimos mais uns lances de escada e passamos pela porta que dava à sacada do edifício. Fiquei me perguntando se era tão fácil assim invadir um prédio. Principalmente um como esse.
Foi maravilhoso sentir aquela ventania da noite no rosto. Meus cabelos se sentiram livres para voar, assim como algum pombo que passara voando um pouco ao longe. Mas eles chegam a essa altura?
Ficamos um tempo adimirando a lua quase-cheia e os edifícios com suas muitas luzes ligadas. Os carros passando lá em baixo, mas ainda sim estava um silêncio delicioso.
- Essa é a coisa mais louca e romântica que alguém já fez por mim - eu disse a ele, encostada no murinho de costas para a cidade. Ele veio e ficou na minha frente. Me deu um frio na barriga a sensação de cair lá embaixo.
- Está gostoso o vento, né? - e me beijou de um jeito apaixonado.
Jamais senti um medo maior do que o que ele me fez passar. Ainda me beijando, senti ele me agarrando e me suspendendo. Ele me sentou no murinho do edifício. Me senti insegura, como se eu fosse cair a qualquer momento. E olhar para baixo e me deparar com aquela altura não ajudava em nada.
- Não tenha medo, anjinha. Não vai acontecer nada contigo.
- Tenho medo de altura, me desce... - eu falava rindo de tanto mando que eu estava.
- Não precisa temer. Preciso de você e não te faria mau algum - ele falou me olhando de um jeito alegre - Como vou te levar às nuvens agora?
Bati no braço dele de leve.
- Bobo. - Então pensei em algo melhor para dizer. Na verdade foi como se isso escapasse da minha boca. - Há outras maneiras de me levar às nuvens.
Então ele preencheu todo meu corpo com o seu.
Estava ventando, mas não era um vento frio. E não me arrepiei quando ele tirou minha blusinha, deixando-me somente com o sutiã.
Suas mãos continuavam passeando por meu corpo, mas eu não queria que ele parasse. Estava entregue àquele prazer que eu sentia. Uma adrenalina emocionante.
Ele me colocou de costas para ele. Apoiei minha perna direita num degrau e deixei a outra no chão. Kadu então foi beijando suavemente minhas costas nua. Sem pressa, desabotoou meu jeans e o abaixou. Ele não me permitia lembrar que havia formas de nos pegarem ali. Na verdade estavamos muito alto, e não havia câmeras do lado de fora. Só quem nos observava era a linda lua brilhante, que parecia não estar tão longe. Além das elétricas, sua luz nos iluminava por completo. Não havia tantas nuvens no céu.
A briza então decidiu acariciar minhas pernas, o que me fez perceber que eu estava sem a minha calça e sem também minha roupa íntima.
Ainda inclinada para a parede, com o rosto bem encostado na parede, Kadu dava beijos em meu bumbum, apalpava e deslizava sua mão quente pelas minhas costas, levando-a até a altura da minha cabeça, que as vezes ele puxava para baixo pelos cabelos. Eu estava totalmente entregue. Não queria que ele parasse. Ele não iria parar.
- Está na hora - ouvi ele sussurrar, levantando-se e ficando junto a mim. Fui penetrada com cautela...
A adrenalina, os movimentos dele, a cidade a minha volta, os carros passando na velocidade que se permitiam... vi o céu e estrelas também. Debruçada sobre aquele muro, em todas as posições possíveis para os corpos humanos. Para nós. A maior loucura que eu fizera, e acho que jamais faria algo pior que isso.
Então me senti diferente. Meu corpo esquentou de repente. Até tremi, mas não de frio. Senti Kadu fazendo movimentos mais rápidos e decisivos. Foi então que ele me encheu de algo quente e expesso. Eu estava de quatro, com os braços apoiados no chão. Enquanto ele gemia de prazer intenso, me segurou pelos seios e me puxou para ficar de joelhos como ele. Beijou-me e senti seu rosto suado. Então ouvímos algo não muito longe daqui. Ainda de joelhos, vi o que jamais tinha visto ou o que jamais sonharia em ver porque até aquele momento, eu sabia e tinha a sã concicência de que aquilo não existia. Vi um anjo debruçado com um trompete, ou algo do tipo, anunciando alguma coisa. E ele soprava...
Logo surgiram outros anjos e mais trompetes. O mais próximo de nós estava no topo do edifício, em pé, com o trompete na boca, anuncinado o mesmo que os outros.
Não estava uma barulheira, como deveia estar. Parecia ensaiado.
Os anjos tinham os olhos todo branco. Sem pupíla. As asas negras como de águia eram bem visíveis. Logo eu pude ver diversos anjos de uma vez e isso me assustou. Principalmente quando fui pegar minhas roupas no chão e fui me segurar em Kadu. Ainda estava nu e sem medo algum de cair, estava no parapeito do prédio com os braços abertos, como se recebesse raios invisíveis. Então um sorriso de triunfo brotou em seu rosto e ele me olhou. Um olhar de agradecimento e ao mesmo tempo de safado. Não consegui entender nada do que estava acontecendo.
- Obrigado a todos. Deu certo. Deu certo - ele gritava para o nada. Mas na verdade eu sabia que era para os anjos que a pouco estavam nos observando. Sumiram? Eu não os via mais.
Continuei observando-o sem entender muita coisa. Não consegui ficar tão amedrontada quando deveria, pois eu com certeza estava entorpecida no momento. Algo me impedia de pensar naquela irrealidade que acontecera e estava acontecendo. Cheguei mais perto dele para perguntar o que seria tudo aquilo.
- Obrigado, linda jovem - ele me disse fitando meu rosto. Realmente estava alegre. Eu nem dissera nada.
- Obrigada eu - falei parada muito próxima dele. Estava receosa que ele caísse lá embaixo. Mas ele não estava sentindo o mesmo que eu, pouco estava preocupado por ainda estarmos sem as roupas. - A pouco eu vi um...
- Um não, vários - ele afirmou com precisão. - Anjos. Também sou um. Você acaba de me devolver as asas.
- Sério? - que pergunta mais retardada. Garota, anjos não existem! - Mas como eu fiz isso?
- Paixão e muito prazer.
- Pode me explicar? - pedi olhando atentamente para ele. Aproveitei para cruzar os braços, enquanto ele pulava ao meu lado e recolocava a cueca box branca que usava muitos minutos antes de eu arrancar com os dentes.
- O ritual mágico constituía em encontrar uma moça e que houvesse a confiança pura entre o sacrificio e o anjo.
- Eu fui um sacrifício?
- Sacrifiquei sua vida pois preciso do que esse ritual gerou e vai gerar.
- Do que está falando? - me assustei. Recoloquei minha blusinha, e minha calcinha enquanto isso. Não estava descalça.
- Houve uma troca de sangue. Isso faz parte do ritual. Para a troca de sangue ocorrer, o sacrificio deve estar entregue a paixão e pedir o prazer. Você o fez direitinho. Para que desse mais certo ainda, precisávamos ser assistidos pelo ante-penúltimo dia de lua crescente. Isso faria com que minhas asas voltassem, pois eu reestabeleceria a magia sobre você. Eu também gostei de você e estava entregue a paixão e ao prazer. Como eu não gostaria? Só o fato de eu voltar a ser eu mesmo denovo... - e ele ficou de costas e estendeu os braços deixando-os á altura dos ombros. Logo, compridas asas negras puderam ser vistas por mim por poucos segundos. Logo ela desaparecera, como se só piscasse ali.
- Eu as vi de relance... eu não consigo entender o que quer me dizer.
- Você não pode ver minhas asas. Sabe que elas estão aqui, mas não poderá vê-las. Mas nosso filho poderá ver... tudo. Do jeito como o mundo é.
Meus olhos lacrimejaram.
- Nosso o quê?
- Você está grávida de um semi-deus agora.
- Como pôde fazer isso comigo? Nem sou maior de idade ainda... como vou cuidar de um filho? E o que diabos é semi-deus?
Ele revirou os olhos.
- Semi-deus é uma criança metade-humana, metade-deusa. Ele será mais poderoso do que eu. Eu usei você, mas vai me recompensar. Vai me agradecer depois. Agora, eu preciso ir.
- O quê? Como assim? Me explique tudo. Tudo. Não pode ir e me deixar grávida. Assim desse jeito - eu estava gritando. Estava histérica e queria bater nele. Que cachorro dos infernos.
- Quanto menos você souber, melhor. A única coisa que deve saber é que tudo o que você desacredita, existe. Vou tentar te proteger de imprudências, mas não será sempre. Por ora, pelo menos, está só. Volto daqui a uns anos para saber como está a criança.
No momento em que eu fiquei de costas para pegar um pedaço de ferro que estava escostado na parede da entrada e fui para bater nele, Kadu havia desaparecido, assim como suas roupas.
Fiquei imaginando como eu passaria pelos seguranças do prédio, agora. E minha mãe já deveria estar louca atrás de mim.
Minha cabeça estava doendo e eu me sentindo um lixo. Deprimida, jogada fora como nada. Usada e enchida com uma coisa nojenta e repugnante. Estava agora dentro de mim.
Não me lembrei de me vestir. Alguma coisa com certeza estava confundindo minha cabeça. No elevador espelhado do teto ao chão, vi meu corpo como estava: algumas marcas da relação, o cabelo estava meio rebelde, minha blusa estava no lugar adequado, e me deparei com minhas pernas e minha calcinha branca, fio-dental. Não coloquei o jeans. Prendi meu cabelo e sequei a lágrima que escorria agora, borrando meu rímel. Não estava sentindo frio... eu estava quente. Vingança.
Ele me dissera algo sobre precisar dessa criança e desse desafio. Agora eu precisava destruir isso. Estava decidida a acabar com os planos dele. E principalmente com esse ridículo de ter um filho logo cedo. Eu iria me jogar na frente do primeiro carro que passasse.
Decidida a me matar para não destruir a minha vida - embora, eu não conseguia pensar por mim mesma. Parecia que alguém dentro de mim o fazia. Peguei uma daquelas marretas que servem para quebrar janelas em caso de incêndio e levei-a na mão. Com certeza algum segurança me veria ali dentro e me seguraria até a polícia chegar. Eu teria de matá-lo.
E foi o que fiz com o primeiro que se espantou ao me ver. Era um cara de uns quarenta anos. Cortei o pescoço sem dó. Mas aquela não era eu. Eu só estava vendo, usando os olhos. Minhas mãos e pernas outro ser controlava. Era essa a unica explicação. Até meus pensamentos, minhas decisões.
Droga!, acabei cortando mais um. Não tive certeza se esse morrera, mas eu avancei como uma onça em suas costas e ele caiu no chão desmaiado.
Quando finalmente deixei o prédio, me vi numa rua totalmente vazia, exceto pelos carros já estacionados.
Vi o carro de Kadu, que agora eu tinha a certeza de não ser dele, e sim de alguém que ele roubara.
E depois eu vi em minha cabeça algo que eu nem estava vendo exatamente.
Olhando cabisbaixa pelas ruas desertas, tudo o que ela pode ver. Os sonhos se tornando sólidos, tornados reais.
Todos os edifícios, todos aqueles carros. Eu os via na minha frente, mas de relance, via como se eu estivesse do alto. Como se voando rápido.
Ignorei essas imagens malditas sacudindo a cabeça. Um Trolebus se aproximava. Ouvi seu barulho aos poucos e o farol. Corri o que consegui com os saltos em direção do Trolebus, mas eu fui jogada para a calçada.
- Fique longe de mim, Kandauberth! - eu gritei, mas com uma voz longe de ser a minha.
Saí correndo de onde eu estava e fui para o lado mais perigoso que achei. Seguindo pelas ruas movimentasdas de escórias. Homens que usavam todo o tipo de drogas, mendigos e quem sabe também sedentos pelo sexo. Continuei com o pique pois eu estava apropriada para um estupro. Novinha e gostosa e ainda nua...
E quando eu corri na direção dos caras, o chão mudou. Não eram mais aqueles pedacinhos de pedra branco e preto, era um buraco enorme, como se eu estivesse num penhasco. Mais um passo e eu cairia num vão negro e amendrontador. Não queria morrer assim. Voltei então para as ruas. Quando voltei, olhei para o telhado do prédio de três andares que tinha mais a frente. Pude ver Kadu e uma mulher brigando. Discutiam algo.
Ela agora lutava com ele. Dava socos e tentava chutá-lo. Ele se defendia como podia. Eu agora era um ser mágico também? Podia ver anjos? Pude ouvir quando ela disse: - Você não precisava dela! Você me traiu!
Essa anjo era a namorada dele?
Corri em direção ao prédio para ouvir melhor, já que eles gritavam a vontade, já que ninguém ouviria mesmo.
- Pare de tentar matá-la Randret, meu bem. E o nosso semi-deus? Como vamos vencer essa guerra sem ele?
- Kandauberth, você não deve acreditar no que aquela velha idiota disse a você. Isso é só um rumor - ouvi mais um tapa. - Seus amigos não entraram nessa, entraram?
- Não, apenas eu. Mas no meu caso é diferente. Ele será o mais poderoso que já existiu. Ele foi feito da manera correta. O ritual foi feito como se seguiu com Agnâncio Bouregard III.
- Sei quem foi ele, mas isso não se deve ao fato de você fazer a troca de sangue com aquela humana nojenta.
- Depois falamos disso. Você está em missão e eu acabei a minha. Preciso repor as energias e a humana descansar. Não a mate ou estaremos fodidos.
- Estaremos o quê? - ela perguntou sem entender.
- Deixa... - ele falou sem graça - você não entenderia.
De relance, vi suas asas negras se estenderem novamente e se juntarem a escuridão da noite. As da moça eram mais passivas. Bonitas de se ver, mesmo que por menos de dois segundos. Podia ser a minha visão turva e a sequencia ser rápida demais para meu raciocínio, mas eram roxas. Um roxo brilhante. Mas só de eu piscar, eles desapareceram.
Queria eu desaparecer. Nua, machucada e grávida, fui para uma estação, fechada pelo o horário tardio, tentar o caminho de casa.