quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Anjo do Prazer


E eu estava apaixonada por ele.
Kadu era irresistívelmente gostoso, de acordo com a foto que eu via em meu MSN.
Eu o conheci através de um site de relacionamento na internet. Conversávamos por diversas horas ao dia. E ele era muito simpático.
A foto que eu estava acostumada a ver era de suas costas. Havia duas cicatrizes que desciam dos ombros até a costela. Não eram de dar pena e nem eram feias, em si. Durante uma conversa ele me contou que se acidentara num dos treinamentos do quartel, quando ainda era recruta.
Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente eu estava apaixonada por ele. As coisas que ele me dizia sobre a vida, como pensava dela, o que queria fazer comigo... como não poderíamos perder muito tempo, pois logo partiríamos... E eu sempre ficava excitada.
Com exatos dois meses de conversas em todos os meios de comunicação, marcamos de nos encontrar-mos em algum restaurante de shopping. Sempre achei que primeiros encontros seriam melhores em locais públicos antes.
Não me cabia de felicidade encontrá-lo, vê-lo pessoalmente. Conversar com ele era como se fosse com alguém dos meus sonhos, como se não existisse na realidade. Precisava saber que ele era mesmo real. Quem sabe não já deixaríamos o parque namorando?
Corei, enquanto esperava ele digitar a confirmação do horário do encontro, que seria hoje.
Empolguei-me e fui logo ao chuveiro.
Depois de secar os cabelos e passar um bom creme hidratante no corpo, vesti uma blusa com renda preta e vermelha, uma jeans escura sem bolsos atrás e um salto preto, não muito alto. Estava um fim de tarde lindo lá fora, quando olhei pela janela para saber se estava frio. Mas não estava. Uma briza calorosa parecia dançar em meu braço, fazendo sua carícia macia.
Chequei a bateria do meu celular e que horas seria no momento.
Ansiosa? Claro que estava. Ainda bem que minha mãe não estava em casa para fazer zilhões de perguntas irritantes. Eu teria que mentir, mas não estava com vontade.
Quando cheguei finalmente à estação de trens que ligava ao Shopping Eldorado, Hebraica-Rebolças, Kadu me mandara uma mensagem de texto.
ACABEI DE CHEGAR. 2º ANDAR - PRÓXIMO À PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO. VOCÊ ME ENCONTRARÁ AO LADO DE QUEM SOU OU FITANDO O IRREAL.
Não entendi muito bem o recado, mas sabia que estávamos a poucos metros de distância. Estávamos dentro do mesmo teto, em tese. Isso já me deixava feliz.
Fui muito bem recebida por diversos pares de olhos. Os masculinos pareciam que queria meu corpo - seios - junto ao seu - na língua. Os femininos talvez me criticassem negativamente. Invejosas, sempre penso. Enquanto subia a escada, pude ver minha silhueta numa das paredes espelhadas que há pelo shopping. Meu cabelo estava bem liso e comportado, as luzes que eu fizera semana passada o deixaram mais atraente. A blusinha era bem sensual, mas de um jeito comportado. A calça dava um pouco mais de volume ao meu bumbum. E o salto não me deixava ser tão baixinha. Meu perfume fazia muitos passarem suas narinas próximas demais a mim. Pelo jeito eu estava mesmo arrazando, mas queria arrazar apenas um...
- Kadu? - chamei ao ser mais lindo que vi no Shopping inteiro. Parado ao lado de um cartaz onde havia dois caras se abraçando numa propaganda de roupas masculinas e do outro lado havia uma escultura de um anjo, apontando uma flecha para algum coração ao longe.
Lembrei-me da mensagem que ele me mandara no celular, mas isso foi de instantes pois no momento que o chamei pelo nome, ele se virou e um ótimo perfume veio ao meu encontro.
- Sabrina minha querida. Estava ansioso para conhecê-la - e sua voz era grossa, mas doce. Tinha um certo poder de autoridade nela, além de que parecia ser muito certinho.
Tive absoluta certeza que ele não era da Zona Leste. Se fosse de lá, ele diria: "E aí gatinha, suave?"
Ignorei esse pensamento e me aproximei para cumprimentá-lo.
Sua mão forte segurou a minha e a levou até seus lábios comprimidos dando um beijo macio. Senti seus olhos me avaliarem.
E eles eram castanho-claros, mas tinham um brilho diferente que me fazia acreditar que ele estava muito feliz em me ver.
Olhei-o novamente. Forte, moreno. Cabeça raspada e o corte parecia bem feito.
- Demorei muito? - perguntei para quebrar o clima tenso que eu estava sentindo.
- Não mais do que demoraram para colocarem uma escultura ridícula como essa aqui - ele apontou para o anjo com rosto infantil.
- Ela é bonita. Enfim... o que vamos fazer? - falei descontraída. Sintia algo muito diferente perto dele. Alegre. Ou algo mais que isso. Era uma felicidade muito grande estar com ele.
Ele estava contente também. Estava sorrindo enquanto dávamos passos curtos para o nada. De nenhuma maneira estava constrangido ou sendo safado. Ele transparecia que eu era dele. Só dele, então nem se preocupava.
- Quero te levar a um lugar de que gosto muito.
Epa. Eu queria continuar em meu terrítório. Não poderia conhecer o dele agora. Era muito cedo ainda.
- Calma - pedi a ele. - Acabamos de chegar.
- Aqui foi somente o ponto do encontro. A noite tem muito mais a oferecer do que ficar na companhia de tanta gente desnecessária.
Estava chateada com o término do meu namoro que fora há cinco semanas. Eu queria me divertir, de qualquer forma possível, mas a lembrança dele não me saia do pensamento. Para me livrar daquelas imagens que me faziam chorar sempre que eu pensava com afinco, aceitei alegremente o convite.
- Ótimo - disse ele segurando minha mão e me conduzindo para a saída do Shopping. - Está uma noite abafada. Precisamos de um lugar com vento. Quero sentir a briza da noite com você ao meu lado e ver seus cabelos esvoaçarem.
Ele falava sempre com os lábios perto de mim. O rosto sempre quase colado ao meu. Arrepios era o que minha pele mais sentia naquele momento.
Paramos em frente a um carro preto. Lindo, por sinal. Era um Fluence, da Renault. Não acreditei que aquele carro era dele. Será que agora eu me dera bem na vida? Além de lindo e bem encorpado, provavelmente tinha uma vida financeira bastante boa.
- É o carro do seu pai? - perguntei tentando tirar minha dúvida.
- Não. É meu.
Dei de ombros e sentei no banco do passageiro. Era macio. Assim que ele entrou, ligou o ar-condicionado. Muito vento saia dali. Até o estranhei.
- Você parece gostar muito de vento - comentei.
- Sinto muita falta dele - respondeu. - Aqui em baixo quase não o sinto.
Seguimos viagem. Ele não falava tanto assim. Pela internet nos falávamos mais. Mas ele havia me dito que era mesmo muito calado, embora eu tivesse conseguido puxar papo e ele entrado e o aproveitado. Riu algumas vezes e também olhava enraivecido para algumas árvores sinistras que passavamos.
Estava bem escuro por onde seguíamos a uma velocidade razoavel. Não foi difícil perceber que ele estava me levando para o Centro, e não demorou mais que quinze minutos para chegarmos. Já estava tarde. O trânsito estava livre.
Kadu me contara sobre sua família, sobre alguns amigos, coisas que gostava de fazer e como passava o tempo. Ele não parecia um rapaz comum. Não estava estudando e nem tentanto ingressar numa faculdade. Apenas trabalhava, pelo que me disse, de detetive particular.
Não sei se ele era tímido ou estava me respeitando, mas em momento algum ele tentou "avançar o sinal". Até ali não rolara amassos e nem coisas do tipo. Mas ele deixou eu apoiar meu braço em sua perna quente.
Paramos perto da Rua João Brícola. Quando ele desligou o ar, reparei que nem viemos ouvindo música alguma. Nem precisamos disso. A companhia dele não era chata ou menos ainda, irritante. Estava sendo um dos melhores encontros da minha vida e nem estava precisando de uma música para marcar aqueles momentos.
- Lá - ele apontou de repente, enquanto checava se meu cabelo estava legal, no espelhinho que tem naqueles protetores de visão contra o sol. - Quero te levar lá em cima.
Olhando para seu dedo, segui para onde ele queria e me deparei com um edifício enorme, o maior que vi em São Paulo. Uma réplica do Empire State Building. Era o BANESPA.
- Mas não está aberto para visitas a essa hora. Está?
- Não, não está - e ele me deu um sorriso travesso.
Gostei da sensação que senti. Talvez em meu estado normal, se algum amigo meu ou qualquer outro me pedisse para fazer uma loucura assim, entrar num edifício como este, um banco, onde poderíamos ser presos por cruzar os seguranças, com certeza eu não aceitaria. Mas eu estava com ele. Eu queria fazer isso. Sentia necessidade de arriscar. Sentia prazer nessa adrenalina louca.
Ele segurou meu rosto e puxou minha cabeça para mais perto. Fiz o mesmo e nos beijamos com certa energia descontrolada. Um êxtase explodia ali. Suas mãos não paravam quietas e nem as minhas. Pude conhecer boa parte de seu corpo e ele do meu.
Antes de começarmos a nos despir, ele se afastou de mim. Saiu do carro e veio até a minha porta para abrí-la. Um cavalheiro.
"Não acredito nesse cara", pensei toda boba.
Segurando minha mão, ele gritou: - Vem, vamos. - e saimos correndo pela rua até a entrada do edifício.
Eu me encostei na parede da entrada, para que nenhum dos seguranças me visse. Kadu não estava muito preocupado. Parecia conhecer a área.
- Vem, acho que agora já dá - ele me puxou.
Eu já estava com muito medo de que desse algo errado. E ainda por cima, não entendia o por que de ele fazer isso. Comecei a tremer.
- É melhor irmos a outro lugar...
- Que nada. Quero que seja perfeita essa noite.
As palavras dele me deram coragem. Não queria que se estragasse por minha causa. Entramos no edifício pelo Hall principal. Havia um segurança encostado numa parede mais ao longe e o zelador estava anotando algumas coisas numa prancheta, sentado à uma mesinha perto do segurança. Era muito sofisticado o lugar.
Kadu me conduziu rapidamente para as escadarias.
- E as câmeras? - perguntei sem fôlego.
- Elas não importam agora.
- Mas...
- Corre, vamos pegar o elevador somente no sétimo andar.
Suspirei de pensar nisso.
Corremos um bocado, desviando de alguns seguranças que vinham de outros corredores. Tentamos fazer o menor barulho possível.
- Kadu, você não está pensando direito - acusei. - Se vamos pegar os elevadores, neles há câmeras. E sempre há um porteiro ou quem for observando essas câmeras. Vão nos pegar.
- Não se preocupe, já disse. - ele falou calmo, sem parecer me ouvir, o que me deixou irritada.
Chegamos ao sétimo andar. Até que eu não estava tão cansada. Pegamos um elevador que nos levou até o vigésimo sexto andar, depois pegamos o outro que nos deixou no trigésimo quarto. Subimos mais uns lances de escada e passamos pela porta que dava à sacada do edifício. Fiquei me perguntando se era tão fácil assim invadir um prédio. Principalmente um como esse.
Foi maravilhoso sentir aquela ventania da noite no rosto. Meus cabelos se sentiram livres para voar, assim como algum pombo que passara voando um pouco ao longe. Mas eles chegam a essa altura?
Ficamos um tempo adimirando a lua quase-cheia e os edifícios com suas muitas luzes ligadas. Os carros passando lá em baixo, mas ainda sim estava um silêncio delicioso.
- Essa é a coisa mais louca e romântica que alguém já fez por mim - eu disse a ele, encostada no murinho de costas para a cidade. Ele veio e ficou na minha frente. Me deu um frio na barriga a sensação de cair lá embaixo.
- Está gostoso o vento, né? - e me beijou de um jeito apaixonado.
Jamais senti um medo maior do que o que ele me fez passar. Ainda me beijando, senti ele me agarrando e me suspendendo. Ele me sentou no murinho do edifício. Me senti insegura, como se eu fosse cair a qualquer momento. E olhar para baixo e me deparar com aquela altura não ajudava em nada.
- Não tenha medo, anjinha. Não vai acontecer nada contigo.
- Tenho medo de altura, me desce... - eu falava rindo de tanto mando que eu estava.
- Não precisa temer. Preciso de você e não te faria mau algum - ele falou me olhando de um jeito alegre - Como vou te levar às nuvens agora?
Bati no braço dele de leve.
- Bobo. - Então pensei em algo melhor para dizer. Na verdade foi como se isso escapasse da minha boca. - Há outras maneiras de me levar às nuvens.
Então ele preencheu todo meu corpo com o seu.
Estava ventando, mas não era um vento frio. E não me arrepiei quando ele tirou minha blusinha, deixando-me somente com o sutiã.
Suas mãos continuavam passeando por meu corpo, mas eu não queria que ele parasse. Estava entregue àquele prazer que eu sentia. Uma adrenalina emocionante.
Ele me colocou de costas para ele. Apoiei minha perna direita num degrau e deixei a outra no chão. Kadu então foi beijando suavemente minhas costas nua. Sem pressa, desabotoou meu jeans e o abaixou. Ele não me permitia lembrar que havia formas de nos pegarem ali. Na verdade estavamos muito alto, e não havia câmeras do lado de fora. Só quem nos observava era a linda lua brilhante, que parecia não estar tão longe. Além das elétricas, sua luz nos iluminava por completo. Não havia tantas nuvens no céu.
A briza então decidiu acariciar minhas pernas, o que me fez perceber que eu estava sem a minha calça e sem também minha roupa íntima.
Ainda inclinada para a parede, com o rosto bem encostado na parede, Kadu dava beijos em meu bumbum, apalpava e deslizava sua mão quente pelas minhas costas, levando-a até a altura da minha cabeça, que as vezes ele puxava para baixo pelos cabelos. Eu estava totalmente entregue. Não queria que ele parasse. Ele não iria parar.
- Está na hora - ouvi ele sussurrar, levantando-se e ficando junto a mim. Fui penetrada com cautela...
A adrenalina, os movimentos dele, a cidade a minha volta, os carros passando na velocidade que se permitiam... vi o céu e estrelas também. Debruçada sobre aquele muro, em todas as posições possíveis para os corpos humanos. Para nós. A maior loucura que eu fizera, e acho que jamais faria algo pior que isso.
Então me senti diferente. Meu corpo esquentou de repente. Até tremi, mas não de frio. Senti Kadu fazendo movimentos mais rápidos e decisivos. Foi então que ele me encheu de algo quente e expesso. Eu estava de quatro, com os braços apoiados no chão. Enquanto ele gemia de prazer intenso, me segurou pelos seios e me puxou para ficar de joelhos como ele. Beijou-me e senti seu rosto suado. Então ouvímos algo não muito longe daqui. Ainda de joelhos, vi o que jamais tinha visto ou o que jamais sonharia em ver porque até aquele momento, eu sabia e tinha a sã concicência de que aquilo não existia. Vi um anjo debruçado com um trompete, ou algo do tipo, anunciando alguma coisa. E ele soprava...
Logo surgiram outros anjos e mais trompetes. O mais próximo de nós estava no topo do edifício, em pé, com o trompete na boca, anuncinado o mesmo que os outros.
Não estava uma barulheira, como deveia estar. Parecia ensaiado.
Os anjos tinham os olhos todo branco. Sem pupíla. As asas negras como de águia eram bem visíveis. Logo eu pude ver diversos anjos de uma vez e isso me assustou. Principalmente quando fui pegar minhas roupas no chão e fui me segurar em Kadu. Ainda estava nu e sem medo algum de cair, estava no parapeito do prédio com os braços abertos, como se recebesse raios invisíveis. Então um sorriso de triunfo brotou em seu rosto e ele me olhou. Um olhar de agradecimento e ao mesmo tempo de safado. Não consegui entender nada do que estava acontecendo.
- Obrigado a todos. Deu certo. Deu certo - ele gritava para o nada. Mas na verdade eu sabia que era para os anjos que a pouco estavam nos observando. Sumiram? Eu não os via mais.
Continuei observando-o sem entender muita coisa. Não consegui ficar tão amedrontada quando deveria, pois eu com certeza estava entorpecida no momento. Algo me impedia de pensar naquela irrealidade que acontecera e estava acontecendo. Cheguei mais perto dele para perguntar o que seria tudo aquilo.
- Obrigado, linda jovem - ele me disse fitando meu rosto. Realmente estava alegre. Eu nem dissera nada.
- Obrigada eu - falei parada muito próxima dele. Estava receosa que ele caísse lá embaixo. Mas ele não estava sentindo o mesmo que eu, pouco estava preocupado por ainda estarmos sem as roupas. - A pouco eu vi um...
- Um não, vários - ele afirmou com precisão. - Anjos. Também sou um. Você acaba de me devolver as asas.
- Sério? - que pergunta mais retardada. Garota, anjos não existem! - Mas como eu fiz isso?
- Paixão e muito prazer.
- Pode me explicar? - pedi olhando atentamente para ele. Aproveitei para cruzar os braços, enquanto ele pulava ao meu lado e recolocava a cueca box branca que usava muitos minutos antes de eu arrancar com os dentes.
- O ritual mágico constituía em encontrar uma moça e que houvesse a confiança pura entre o sacrificio e o anjo.
- Eu fui um sacrifício?
- Sacrifiquei sua vida pois preciso do que esse ritual gerou e vai gerar.
- Do que está falando? - me assustei. Recoloquei minha blusinha, e minha calcinha enquanto isso. Não estava descalça.
- Houve uma troca de sangue. Isso faz parte do ritual. Para a troca de sangue ocorrer, o sacrificio deve estar entregue a paixão e pedir o prazer. Você o fez direitinho. Para que desse mais certo ainda, precisávamos ser assistidos pelo ante-penúltimo dia de lua crescente. Isso faria com que minhas asas voltassem, pois eu reestabeleceria a magia sobre você. Eu também gostei de você e estava entregue a paixão e ao prazer. Como eu não gostaria? Só o fato de eu voltar a ser eu mesmo denovo... - e ele ficou de costas e estendeu os braços deixando-os á altura dos ombros. Logo, compridas asas negras puderam ser vistas por mim por poucos segundos. Logo ela desaparecera, como se só piscasse ali.
- Eu as vi de relance... eu não consigo entender o que quer me dizer.
- Você não pode ver minhas asas. Sabe que elas estão aqui, mas não poderá vê-las. Mas nosso filho poderá ver... tudo. Do jeito como o mundo é.
Meus olhos lacrimejaram.
- Nosso o quê?
- Você está grávida de um semi-deus agora.
- Como pôde fazer isso comigo? Nem sou maior de idade ainda... como vou cuidar de um filho? E o que diabos é semi-deus?
Ele revirou os olhos.
- Semi-deus é uma criança metade-humana, metade-deusa. Ele será mais poderoso do que eu. Eu usei você, mas vai me recompensar. Vai me agradecer depois. Agora, eu preciso ir.
- O quê? Como assim? Me explique tudo. Tudo. Não pode ir e me deixar grávida. Assim desse jeito - eu estava gritando. Estava histérica e queria bater nele. Que cachorro dos infernos.
- Quanto menos você souber, melhor. A única coisa que deve saber é que tudo o que você desacredita, existe. Vou tentar te proteger de imprudências, mas não será sempre. Por ora, pelo menos, está só. Volto daqui a uns anos para saber como está a criança.
No momento em que eu fiquei de costas para pegar um pedaço de ferro que estava escostado na parede da entrada e fui para bater nele, Kadu havia desaparecido, assim como suas roupas.
Fiquei imaginando como eu passaria pelos seguranças do prédio, agora. E minha mãe já deveria estar louca atrás de mim.
Minha cabeça estava doendo e eu me sentindo um lixo. Deprimida, jogada fora como nada. Usada e enchida com uma coisa nojenta e repugnante. Estava agora dentro de mim.
Não me lembrei de me vestir. Alguma coisa com certeza estava confundindo minha cabeça. No elevador espelhado do teto ao chão, vi meu corpo como estava: algumas marcas da relação, o cabelo estava meio rebelde, minha blusa estava no lugar adequado, e me deparei com minhas pernas e minha calcinha branca, fio-dental. Não coloquei o jeans. Prendi meu cabelo e sequei a lágrima que escorria agora, borrando meu rímel. Não estava sentindo frio... eu estava quente. Vingança.
Ele me dissera algo sobre precisar dessa criança e desse desafio. Agora eu precisava destruir isso. Estava decidida a acabar com os planos dele. E principalmente com esse ridículo de ter um filho logo cedo. Eu iria me jogar na frente do primeiro carro que passasse.
Decidida a me matar para não destruir a minha vida - embora, eu não conseguia pensar por mim mesma. Parecia que alguém dentro de mim o fazia. Peguei uma daquelas marretas que servem para quebrar janelas em caso de incêndio e levei-a na mão. Com certeza algum segurança me veria ali dentro e me seguraria até a polícia chegar. Eu teria de matá-lo.
E foi o que fiz com o primeiro que se espantou ao me ver. Era um cara de uns quarenta anos. Cortei o pescoço sem dó. Mas aquela não era eu. Eu só estava vendo, usando os olhos. Minhas mãos e pernas outro ser controlava. Era essa a unica explicação. Até meus pensamentos, minhas decisões.
Droga!, acabei cortando mais um. Não tive certeza se esse morrera, mas eu avancei como uma onça em suas costas e ele caiu no chão desmaiado.
Quando finalmente deixei o prédio, me vi numa rua totalmente vazia, exceto pelos carros já estacionados.
Vi o carro de Kadu, que agora eu tinha a certeza de não ser dele, e sim de alguém que ele roubara.
E depois eu vi em minha cabeça algo que eu nem estava vendo exatamente.
Olhando cabisbaixa pelas ruas desertas, tudo o que ela pode ver. Os sonhos se tornando sólidos, tornados reais.
Todos os edifícios, todos aqueles carros. Eu os via na minha frente, mas de relance, via como se eu estivesse do alto. Como se voando rápido.
Ignorei essas imagens malditas sacudindo a cabeça. Um Trolebus se aproximava. Ouvi seu barulho aos poucos e o farol. Corri o que consegui com os saltos em direção do Trolebus, mas eu fui jogada para a calçada.
- Fique longe de mim, Kandauberth! - eu gritei, mas com uma voz longe de ser a minha.
Saí correndo de onde eu estava e fui para o lado mais perigoso que achei. Seguindo pelas ruas movimentasdas de escórias. Homens que usavam todo o tipo de drogas, mendigos e quem sabe também sedentos pelo sexo. Continuei com o pique pois eu estava apropriada para um estupro. Novinha e gostosa e ainda nua...
E quando eu corri na direção dos caras, o chão mudou. Não eram mais aqueles pedacinhos de pedra branco e preto, era um buraco enorme, como se eu estivesse num penhasco. Mais um passo e eu cairia num vão negro e amendrontador. Não queria morrer assim. Voltei então para as ruas. Quando voltei, olhei para o telhado do prédio de três andares que tinha mais a frente. Pude ver Kadu e uma mulher brigando. Discutiam algo.
Ela agora lutava com ele. Dava socos e tentava chutá-lo. Ele se defendia como podia. Eu agora era um ser mágico também? Podia ver anjos? Pude ouvir quando ela disse: - Você não precisava dela! Você me traiu!
Essa anjo era a namorada dele?
Corri em direção ao prédio para ouvir melhor, já que eles gritavam a vontade, já que ninguém ouviria mesmo.
- Pare de tentar matá-la Randret, meu bem. E o nosso semi-deus? Como vamos vencer essa guerra sem ele?
- Kandauberth, você não deve acreditar no que aquela velha idiota disse a você. Isso é só um rumor - ouvi mais um tapa. - Seus amigos não entraram nessa, entraram?
- Não, apenas eu. Mas no meu caso é diferente. Ele será o mais poderoso que já existiu. Ele foi feito da manera correta. O ritual foi feito como se seguiu com Agnâncio Bouregard III.
- Sei quem foi ele, mas isso não se deve ao fato de você fazer a troca de sangue com aquela humana nojenta.
- Depois falamos disso. Você está em missão e eu acabei a minha. Preciso repor as energias e a humana descansar. Não a mate ou estaremos fodidos.
- Estaremos o quê? - ela perguntou sem entender.
- Deixa... - ele falou sem graça - você não entenderia.
De relance, vi suas asas negras se estenderem novamente e se juntarem a escuridão da noite. As da moça eram mais passivas. Bonitas de se ver, mesmo que por menos de dois segundos. Podia ser a minha visão turva e a sequencia ser rápida demais para meu raciocínio, mas eram roxas. Um roxo brilhante. Mas só de eu piscar, eles desapareceram.
Queria eu desaparecer. Nua, machucada e grávida, fui para uma estação, fechada pelo o horário tardio, tentar o caminho de casa.

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