Saí um pouco tarde do trabalho.
Certo, todos nós gastamos sempre mais do que temos. Eu fiz essa besteira o mês passado e também neste aqui, o que me fez quase mendigar. Tá, é um exagero, mas estou quase nessa.
Sorte que comprei uma bicicleta há três meses simplesmente para pedalar nos finais de semana. Agora, sem dinheiro para pagar o metrô na volta para casa, tenho que pedalar diversos quilômetros até chegar ao meu destino.
Peguei minha Gatinha, como chamo minha bike, e desci a escadaria do prédio onde eu trabalhava no Tatuapé.
Só eu sei a preguiça que dá para ir trabalhar de bike, principalmente voltar, pois aí você está mais cansado e louco por descanso, e não esforço físico.
Enquanto eu pedalava até a ciclovia, ia com pensamentos que me distraiam completamente da direção. As vezes me sentia como se nem pedalasse. Parecia que ela corria por si só. Pouco eu enchergava o chão. Linhas e mais linhas passavam por mim e eu sem reparar nelas. Só pensava em quanto eu estava sem ninguém, o tempo que eu estava carente que talvez eu me apaixonaria pelo primeiro idiota que passase por mim.
Atravessei a rua e entrei na ciclovia.
Estava uma noite quente. E eu de calça jeans e blusa de frio. Claro, de manhã estava pouco mais de 10 ºC. Estamos vivendo tempos de insanidade, loucos.
Vi o trem passar correndo por mim. Vários deles. Que inveja das pessoas apertadas e expremidas que estavam ali dentro. Pelo menos o unico esforço que elas tinham era de se segurar. Isso se precisasse, pois com o aperto que sofriam, estavam mais enlatados que uma sardinha.
Fitando a estação Carrão, completamente distraído, quase sou derrubado por um brutamontes que passa à toda ao meu lado, numa bike azul.
- Cuidado aê! - gritei.
Mas ele já estava mais a frente.
Pedalei um pouco mais rápido para acompanhar sua velocidade. Ele já não estava mais tão rápido. Deveria ter cansado.
Parecia ser jovem, pelo menos de costas. Quem sabe uns 22 anos, da mesma idade que eu? E me distraí, imaginando coisas. Jamais acontecera essas coisas de vídeos da internet comigo. Nunca. Tentei ficar o mais próximo possível dele para quem sabe, puxar papo. Mas o quê eu diria? Ele acabara de ser grosso comigo.
Já estava bem perto dele agora, então me aproximei mais. Não desisti, embora minhas coxas e panturrilhas reclamassem um pouco de dor.
Continuamos pedalando no ritmo que nossos corpos aguentavam graças ao cansasso. Quando ficamos lado a lado na pista, sendo ele do lado esquerdo, onde os ciclistam voltam da Zona Leste, ele fez sinal com a cabeça, abaixando-a, significando um pedido de desculpas. Fiz o mesmo com a cabeça, assentindo. Agora não havia mais raiva de um quase matar o outro, ou só machucar mesmo.
Ele se recuperou e pedalou feito um louco. Deixei-o ir. Simplesmente baixei a cabeça e olhei para os pneus e para o meu sapato que fazia os movimentos giratórios que eu me locomovesse naquele meio de transporte. Quando fui olhar para o céu, mais uma vez, vi que de longe, o rapaz estava olhando para trás, como se me esperasse ou que estivesse apostando corrida comigo, e eu perdendo de lavada.
Acelerei o máximo que pude, mas o calor era desmaiador. Ele pedalou devagar e rapidamente eu parei, tirei a blusa de frio e a guardei na mochila que eu carregava. Não demorei muito.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eu estava empolgado. Queria continuar pedalando e pedalando com ele todo o tempo.
Apostamos corrida por vários miutos, cansávamos e iamos devagar. Ao recobrar o fôlego, repetíamos o processo.
Mas no caminho inteiro não falamos um com o outro. Era uma brincadeira silenciosa, que limitava-se ás nossas respirações ofegantes, risadas abafadas, carros buzinnando e passando zunindo na Radial ao lado e o metrô passando a galope do outro.
Um amigo eu tinha conquistado, acho. Mas eu o veria novamente?
Não gostei da idéia de perdê-lo. E se ele viesse a ser mais que um amigo?
Mas agora ele estava se afastando novamente.
Ele fez um aceno, como de um tchau e aproveitou para atravessar a rua enquanto o farol estava vermelho para os carros. Eu o estava perdendo. Mas, ele ficaria comigo? Ele parecia ser hétero. Mas porque aceitou numa boa brincar de pega-pega na bike?
Aquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos estava se afastando cada vez mais, e para piorar, meu celular toca. Michele.
- Alô - atendi meio com pressa, o dedo já no botão de encerramento de chamadas.
- Oi amor, já tá chegando? - e sua voz doce me deixou confuso. O garoto estava um tanto lento pois subia uma ladeira, do outro lado da rua. Mas minha namorada não não adivinharia momento melhor para me ligar, como este.
- Sim, estou quase. Tô de bicicleta, depois te ligo - quando fui desligar, ela gritou: Espera!
Bufei de raiva e pressa, mas falei em tom calmo e passivo. Ela jamais suspeitaria minha tração por homens, e nem que eu estava prestes a ficar com um, assim que ela desligasse a porra do celular.
- Passa no mercado antes de chegar e compra extrato de tomates e pipoca de microondas.
- Certo eu passo. Vou desligar. Beijo.
Não dei tempo que ela retribuisse o beijo. Quase fui atropelado por um ônibus e quase atropelei uma mulher que carregava um monte de sacolas.
- Distraída dos infernos - berrei.
Ela me chingou de algumas coisas e seguiu seu caminho.
Não consegui mais avistar o da bicicleta. Fiquei meio louco e entristecido.
Senti que ele me queria, assim como eu o queria. Jamais isso havia acontecido comigo. E além do mais, eu estava procurando mesmo um companheiro. Há muitos dias eu não estava mais feliz com a Michele. Eu sentia como se aquilo não fosse pra mim, e a cada dia eu me prendia mais naquela situação.
Continuei pedalando pelas ruas que eu desconhecia completamente, enquanto alguns pensamentos ardiam meu coração e confundiam minha mente.
Eu estava cansado por ter acordado cedo e trabalhado o dia todo, estava pedalando e agora estava indo eu nem sabia para onde. Lembrei no dia em que eu ficara andando a madrugada toda com Michele, pelas ruas desertas e perigosas do Centro. Perdemos a chave da nossa antiga casa e estavamos longe de onde perdemos quando nos demos conta. Já não havia mais ônibus e pouco dinheiro tínhamos. Seria a nossa primeira noite de sexo, mas frustrada por burrada nossa. Ficamos a noite toda caminhando, parando as vezes em bancos de praças e conversávamos mais enquanto descansávamos. Quando amanheceu, chamamos um amigo chaveiro para trocar a fechadura e nos dar as chaves novas. Esse pensamento me fez lembrar da vez em que fui num motel com um garoto que conheci pela internet... no meio do prazer todo, acabamos andando e nos jogando pelos espaços do quarto. O extase foi tanto que joguei ele na porta, e ficamos lá, ele prendeu o braço, segurando-se na maçaneta, e eu o puxei com violência para bem perto de mim. A maçaneta caiu no chão e ficamos presos lá, pois a chave ficara do lado de fora.
Freiei a bike para olhar em que ruas eu estava entrando. Não havia sinal algum dele. E agora? Ele poderia já ter entrado em alguma das muitas casas e edifícios que passei. Agora era o fim, não havia meios de encontrá-lo, de forma alguma.
Voltei para a ciclovia. Muitos minutos atrasado... simplesmente fiquei triste comigo mesmo. Eu estava fazendo duas besteiras ao mesmo tempo. O cara era hétero, pensei para me reconfortar. Michele me ama e está fazendo o jantar que eu mais gosto, só não sei bem o por que.
Cheguei em casa, coloquei as sacolas na mesa e me joguei na cama. Michele não me viu entrar pois deveria estar na lavanderia.
Tirei a roupa e tomei um longo banho. Ainda pensando no garoto. Puxa, ele mexeu tanto comigo. Nem sei bem como, mas ele tinha me feito pensar nele durante todo o banho, enquanto eu ajudava Michele a terminar a comida e principalmente quando fui beijá-la... imaginei seu rosto. O mesmo que sorriu para mim quando ficamos lado a lado na ciclovia.
A idéia de nunca mais ver uma pessoa sempre me perturbou. A casa hora que passava, eu não conseguia esquecê-lo.
A idéia de tentar encontra-lo na internet era ridícula. Como seria a pesquisa? Procuro um garoto lindo que montava uma bicicleta azul com detalhes amarelados. Acho que não ficaria legal.
Idéias e mais idéias. Só que o sono era mais forte.
Quando fui me deitar, pronto para dormir e enfrentar a dureza do dia seguinte nas costas, e talvez pernas novamente, Michele se aninhou junto a mim e eu a abracei.
No meio de nossos beijos preliminares, meu celular toca com um tom de mensagem de texto. Peguei-o e li o que um numero desconhecido me dizia: ENTRE NO Facebook E PESQUISE O NOME ABAIXO. IMEDIATAMENTE.
- Quem é? - Michele perguntou puxando meu pescoço para baixo.
Saí da tela de mensagens antes que ela pudesse ler.
- Da Claro, me andando aqueles protocolos de atendimento.
- Bem atrasado, né?
- Pois é - falei me levantando e ligando o computador. - Liguei lá faz uns quatro dias, lembra?
Ela assentiu e virou-se para o outro lado. Estava cansada também. Senti que ela estava chateada com alguma coisa. Mas ignorei.
Estava ansioso e o PC demorando muito para iniciar.
Quando iniciou e a internet se conectou automaticamente, cliquei no favorito do Facebook, que deixo na minha barrinha do Google Chrome. Pesquisei o nome do sujeito da mensagem e quando clico... aquele da bicicleta estava com seu perfil bem ali na minha frente. Quase chorei de felicidade quando o encontrei. Ele aceitou meu pedido de amizade quase de imediato. Começamos a conversar...
Ele me falou que pensou em mim também, mas se manteve na dele. Que queria ouvir a minha voz, assim como eu agora queria ouvir a dele.
Não vi as horas, não. E nada ao meu redor. Eu estava com a atenção totalmente voltada ao Facebook. O papo estava muito longo, se estendera por mais uma hora ou duas. Ele parecia empolgado também em me conhecer de verdade. Ele me disse qu namorava com uma garota também, mas que já não estava tão ligado nela e principalmente por ela ser ciumenta. Alguns detalhes de sua vida, músicas favoritas e lugares também. Eu precisava ficar com ele.
De repente, tomo um susto com uma lágrima que cai em meu ombro nu. Michele estava chorando ao ler toda a conversa pelo Facebook.
Não achei lugar para enfiar a minha cara.
- Hoje - ela começou, com os lábios e voz tremendo por causa do choro - ou, ontem no caso que passou da meia-noite, fazemos dez meses de namoro. Você não se lembrou disso?
- E-e-eu...
- Claro que não. Quantas coisas descubro aqui, do nada. Por isso você adora sair com seus amigos, né? Aqueles da balada?
- N-não - eu nem tinha palavras.
- Deve ter me traido zilhões de vezes... e com homens ainda por cima. Acho que a dor é ainda maior.
- Calma, eu posso explicar que...
- Explicar o quê? Eu li aqui, ao seu lado, você todo empolgado marcando de se encontrar com um cara que nem conhece. Que só pedalou com ele por alguns minutos. Já nós temos uma história já... Sorte a minha, ou azar, que você é um retardado. Muito distraído e perdido nessa sua cabeça oca. Como não me viu, ouviu ou sentiu eu atrás de você lendo tudo?
- O fone de ouvido me faz viajar ainda mais.
- Eu não acredito nessa situação - ela baixou a cabeça e começou a chorar.
Deixei ela quieta e respondi ao garoto da bicicleta que depois conversaríamos, pois estava cansado.
- Michele, então esse é um bom momento para dizer que não dá mais. Faz um tempo que queria te falar isso, mas fui adiando e acho que já é tarde agora, para não fazer você sofrer.
- Você não vai me deixar para ficar com um homem.
- Eu não disse isso, mas... Mi, faz tempo que eu não gosto mais de você como gostaria.
- E você me diz assim?
- Como queria que eu te contasse? Eu tô muito confuso. Eu só quero me deitar e pensar sobre tudo.
- Inclusive naquele veadinho da bicicleta?
Aquilo me atingiu na alma.
- Você me vê assim, agora?
Coloquei minha camiseta de volta, peguei minhas coisas de trabalho e a mochila e saí, deixando Michele chorando ao me olhar pela janela da cozinha. Me vendo partir.
A besteira que eu tinha feito era imensa. Minha vida poderia estar arruinada agora. Meus pais me jogariam muitas coisas na cara, não teria mais meus amigos heteros, na empresa provavelmente me desrespeitariam, nas ruas, em casa... olhos e mais olhos me fitando e me condenando. Ao menos acho que é assim. Tenho certeza que Michele, sendo como é, vai fazer um inferno na minha vida para eu voltar para ela, e quem sabe, destruir qualquer um que se aproxime de mim.
Milhões de pensamentos me veio na cabeça enquanto eu pedalava a Gatinha pela ciclovia até uns bancos que ficavam próximos à estação Penha. Eu passaria a noite ali, decidindo o que faria do amanhecer.
Olhei para a ciclovia e me lembrei dele: Caio. Minha vida agora estava - ou amanhã estaria - um caos, tudo por causa daquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos. Agora eu tinha que fazer valer a pena, e ele também, ou eu iria me jogar de bike nos trilhos do trem.
A unica coisa que restava para mim era esperar.
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