
“É estranho estar aqui de novo depois de anos e dessa forma.”
Lembro-me de quando vim a esta casa com ele, para ficarmos juntos no dia antecessor ao meu aniversário de dezoito anos. Estávamos namorando há apenas doze dias e não tínhamos estados sozinhos desde então.
Ele fora até a minha escola e inventou de que eu estava doente e que tinha ligado para ele ir me buscar, já que minha mãe estava no trabalho e não poderia fazê-lo. Coordenamos. De fato eu fingira estar mal e lhe pedi para que buscasse certo horário. Dera tudo certo.
Sua casa era distante da minha, num bairro não muito afastado. Pegamos um ônibus na principal avenida do meu bairro e fomos ansiosos para termos momentos a sós na casa dele, que estava vazia.
Assim que chegamos, fomos para o quarto dele deixar nossas mochilas. Ainda era cedo, teríamos um lindo dia adiante.
Deitei em sua cama para relaxar e ele deitou-se por cima de mim. Fiz cócegas em sua barriga e a subi de leve. Estávamos rindo, tão alegres e felizes. Fui de encontro a seus lábios e logo ele se debruçou em cima de mim. O corpo dele não fazia tanto peso quanto deveria. Cobria-me completamente. Era como se me protegesse do ar fora do nosso espaço respiratório. Não queria que saísse dali, não queria mais nada, somente ele.
Achei que estávamos prontos para nos amarmos loucamente, pela nossa primeira vez. Ele também estava pronto. Pude sentir como estava.
Como eu o queria e ele queria a mim. Aquele quarto. A imagem desde quarto nunca sairá de minha cabeça. Aquela janela entre aberta, para entrar um fecho de luz, nossas roupas pelo tapete, o suor em nosso corpo nu, a foto que tiramos exatamente depois de que terminamos de nos amar, deitamos cansados e tiramos uma foto para que esta ficasse para sempre guardada em nossas memórias.
Depois de conversarmos um tempo, falarmos um pouco sobre nossa vida, brincarmos um com o outro, estando bem abraçadinhos, ele dissera que estava faminto. Falei que estava também.
Fomos até a cozinha e ele perguntou o que eu gostaria de comer. Sempre adorei batatas fritas e purê de batatas. Fazia tempo que eu não fazia esta refeição. Sabendo disso, ele prontamente me convidou a ir ao supermercado para comprar o que precisava para fazermos isso. Não queria dar trabalho, mas ele disse que também fazia tempo que não comia como gente. Só comia lanches e outras besteiras, e como estava comigo, almoçaríamos como se deve.
Voltamos do supermercado com mais sacolas do que deveríamos.
Compramos refrigerantes, uns doces para comer de sobremesa, e muitas batatas.
Ele colocou algumas músicas eletrônicas que dizia ser suas preferidas. Ouvia-mos enquanto ele cozinhava. Eu ficara sentado observando. Ora ou outra eu o ajudava no que podia, mas ele era eficiente e rápido.
Fiquei pensando em como jamais eu encontraria alguém tão perfeito como ele, que era lindo, calmo, carinhoso, atencioso e mandava bem na cozinha.
Não demorou muito e já estávamos comendo. Às vezes ele dava a comida em minha boca, e eu gostava. Fiz o mesmo algumas vezes. Agora quero chorar quando lembro do que fizemos depois...
Depois que lavei a louça, ele veio por trás de mim e me deu um beijo na nuca. Abraçou-me por trás e me pegou no colo. Conduziu-me até sua cama novamente para saborearmos uma segunda sobremesa. Não tenho vergonha em dizer o quanto gostei... Lembro de uma ironia que eu lhe disse no ouvido:
“Eu te amo tanto, se eu morrer um dia, acho que minha alma jamais vai deixar a terra”. Exatamente o que acontece, não acha?
Era por volta das 16 horas quando não ficamos satisfeitos de nossa presença. Precisávamos ficar mais tempo ainda juntos. Nosso dia tinha de ser mais perfeito do que já estava. Ele me convidara então para ir a um lugar de onde ele gostava muito de ir, até mesmo sozinho: Num morro que havia perto de sua casa. Aceitei de bom grado.
Fizemos um longo caminho até chegar. Ele me mostrou algumas coisas que para mim eram sim valiosas, a meu ver. Mostrou-me onde ele estudara antes, a pracinha onde ele ficava com os amigos quando cabulava, a mini-lanchonete onde sempre comprava salgados e também onde trabalhou antes.
Apontara também para alguns prédios vizinhos pelas ruas que passávamos. Dizia-me que um era onde seu ex-namorado morava, outro era de uma amiga do colégio, outro de uns melhores amigos e no outro morava uma menina que ele tinha namorado também, anos antes de mim.
Caminhamos sem muita pressa por uma estradinha reta, até subirmos uma ladeira que nos deixou ofegante.
Quando chegamos ao tal morro, para mim foi como magia. O lugar não tinha muita coisa, ou melhor, nada que representasse isso, mas o momento foi muito especial. Era bem alto, dava para ver a cidade toda dali. Á nossa volta tinha bastantes árvores pequenas, areia branca como de praia e um céu bem azul quase sem nuvens.
Andamos ali de mãos dadas. Peguei minha câmera e tirei fotos do lugar e nossas também. Só lembro de duas coisas que dissemos, quando eu quis filmar nosso beijo, que foram:
- E se esse não ficar bom, a gente faz outra gravação? – perguntara-me ele.
- Não se preocupe. Se der errado, a gente faz de novo, de novo e de novo.
Então nos beijamos, enquanto eu segurava a câmera.
Meu coração dói demais quando penso nisso. Entende o que digo? Eu só penso nisso. Meus pensamentos são travados. Sou preso a esses pensamentos como se eu não pudesse pensar em outra coisa. Quando acaba, é como se dessem ‘replay’ e começasse do começo. Por isso não fico muito em paz.
Ah, mas ainda não acabou.
Fomos até o final do morro, paramos para urinar na metade do caminho de volta. Tivemos de correr em seguida, pois vimos um casal fazendo sexo e eles não ficaram nada felizes de nós os pegarmos no flagra. Era uma mulher de uns quarenta anos, de cabelos horríveis, os peitos caídos e pança de almôndega. O cara era um senhor de cinqüenta e todos. Estavam escondidos atrás dos matos, mas dava para ver mesmo assim.
Já estava ficando tarde e logo eu teria de ir embora. Ele me avisara que sua mãe já deveria estar em casa, então ele também tinha que regressar sem demoras.
Refizemos o caminho tortuoso do morro na volta.
Ao chegar a casa, sua mãe já tinha de fato chegado do trabalho. Estava descansando no sofá enquanto procurava algo para ver na TV. Cumprimentei-a e nos dirigimos para o quarto dele novamente para eu pegar minha mochila e depois ir para minha casa. Ele disse que iria comigo, até lá. Claro que pedi para que não se incomodasse e que só bastava me levar até o ponto de ônibus mais próximo. Ele interveio e disse que me levaria sim até em casa, pois não adiantaria ficar sozinho no quarto pensando em mim sendo que ele poderia estar comigo por este tempo todo. Concordei e então fomos para o terminal de ônibus.
Ele desceu comigo do ônibus. Queria ter ido comigo até em casa, mas não deixei. Levei-o até o ponto onde ele teria de ir embora e ele foi.
Quando eu estava a caminho de casa, meu ex-namorado estava me esperando sem que eu soubesse. Apareceu do nada, chorando, descontrolado. Estava de luvas brancas, provavelmente de médicos, e uma faca era o que ele segurava com as luvas nas mãos. Usava uma roupa totalmente descartável. Senti um arrepio e um sopro sobrenatural como da presença de um corpo frio, encapuzado... Como se fosse a Morte.
Ele não falou muito alto. Eu estava numa rua fazia. Havia um colégio, mas estava inabitado no momento por ser um domingo á noite.
Chorei quando ele falou que minha única escapatória era amá-lo. Ser dele e de mais ninguém. Que eu deveria dar adeus ao meu namorado perfeito. Disse que sentia a minha falta, que não conseguiria jamais viver sem mim e que eu seu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Seu coração não agüentaria em me ver com outra pessoa, como tinham ocorrido minutos antes em outra rua.
Eu pedi para que ele entendesse a minha situação, as ele nem me deixou falar mais nada, ele já estava decidido. Com uma facada certeira em meu estômago, fiquei imóvel. Senti mais algumas facadas e meu corpo não agüentar em pé até eu cair e ele pegar minhas coisas para simular assalto.
Perdi uma boa parte da história seguinte. Não sei onde estou e nem o que estou fazendo. Tenho visitado a casa do meu amor constantemente, mas ele não me vê e não me ouve.
O tempo todo eu choro e corro pela casa dele pedindo sua atenção, gritando para que ele largue seu novo namorado, porque eu estou ali. Estou aqui. Ele mudou. Está mais homem e corpulento. Isso me fere mais ainda. Acho que passou um tempo e eu nem sei o quanto. Algumas coisas mudaram.
Sua mãe às vezes sente minha presença. Gosto muito de minha sogra, mas ela tem medo disso. Algumas vezes ela se assustou tanto achando que havia visto vultos e assombrações na casa que até foi parar no hospital. Só por que eu um dia fizera um esforço danado para chamar a atenção de alguém que eu acabei conseguindo derrubar uma bíblia que estava em cima de um móvel na sala enquanto todos falavam de mim.
Fiquei contente quando minha sogra promoveu uma oração em meu nome. Até chorei – não sei como - de alegria.
Passo muito tempo na casa deles. Vivendo a vida deles. Não gosto de sair.
Na verdade eu costumo a sair à noite, enquanto dormem.
Tenho visitado muito meu ex-namorado também. Preciso fazer ele me pagar pelo que ele fez. Destruiu meus sonhos e quero fazê-lo viver um pesadelo também. Acreditar que não existem mais sonhos, somente o que é do mal e assustador.
Ele estava enlouquecendo. Contava a todos que ele via fantasmas e coisa do tipo, mas como sabiam que ele usava drogas e era um perturbado, não acreditavam. Os pais estão com medo dele. Eu costumo aparecer e assustar apenas ele. Ninguém jamais descobrira que ele foi quem me matara. Ele se culpa, mas não se entrega de jeito nenhum.
Ele estava hoje subindo para o quarto e eu de repente decidi que teria de acabar com ele também, mas antes teria de botar medo nele.
Quando subiu o lance de escadas, se deparou com minha imagem. Sim, eu estava forte o bastante para uma aparição. Não fiquei nem três segundos. Ele me viu e jogou o prato de biscoitos e o copo de chocolate ao leite que vinha trazendo para cima. Segurou-se nas paredes e fechou os olhos. Estava escuro.
Comecei a falar com ele.
Ele fez um escândalo. Desceu correndo as escadas e gritou pelos parentes que estavam em casa.
Eles apareceram e não entenderam nada do que tinha acontecido. O garoto estava muito assustado e começara a chorar. Acabou revelando o que tinha acontecido aos pais e a minha ex-cunhada. Abraçaram-no e disseram que ele teria de se desculpar com a minha mãe e que deveria arcar com as conseqüências por ele ser um irresponsável.
Claro que ninguém acreditara que eu aparecera de verdade, mas ele estava muito perturbado. Havia muito tempo que eu o importunava. Uma vez fiquei puxando os cobertores dele, fiz a porta se abrir e fechar fazendo um alto barulho. O que eu mais fazia era acordá-lo abraçando. Passando a mão nele, fazendo carinhos. Ele sempre ficava sem dormir e se encolhia na cama, como um garotinho. Houve vezes que ele passara três noites sem dormir. Eu gostava de chatear ele.
Bom, fora isso, estou mais tranqüilo. Ainda sofro por não ter podido viver o que eu queria. Jamais eu havia amado. O amor é tão bom. Ele me amava. O vi chorar várias vezes em seu quarto. Neste quarto. O quarto que sempre será mais que uma casa para mim, pois é aqui que eu habito. Já vim varias vezes aqui antes. Sempre.
Agora digo tchau a vocês e peço que não me chamem novamente.
Sinto que não voltarei a vê-los, pois pretendo matar a todos. Estejam avisados. Não sou um espírito bom. Fizeram-me um monstro. Sofrer é o pior castigo de alguém. Espero que passem pelo que passei.
Agora deitarei na cama que um dia eu pude sentir o homem da minha vida junto a mim, como se fôssemos apenas um.
- Pronto. Ele calou-se – dissera o homem mais velho sentado à mesa.
- Acredita em tudo que ele contou Fábio? – uma mulher que estava mais próxima a ele perguntara. Estava com uma cara aflita.
- Sim, por que mentiria. Agora, me preocupo em pensar em ele ser tão vingativo e matar nós cinco por termos o chamado e tentado saber da história dessa casa.
- Mesmo a outra família não morando mais aqui, ele se prendeu a casa. É dele. E essa cama jamais pôde ser removida daqui. Os que tentaram, surgem boatos, de que morreram depois que deixaram a casa.
Estavam todos no escuro, apenas á base da luz de velas. Havia muitos candelabros com velas acesas pelo recinto. Uma mesa redonda e cinco curiosos mediúnicos querendo respostas espirituais.
Estavam começando a remover as coisas para deixarem a antiga casa mal-assombrada, como ficou conhecida, quando uma vela que estava num pires caiu na mesa e ficou pingando. Daqueles pingos viraram uma grande poça e então de repente umas palavras foram escritas como que a dedo: ADEUS.
Um incêndio inexplicável ocorrera e nenhum dos cinco médiuns saiu com vida do local.
uAlLlLll
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