quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pela última vez


Ele estava misterioso ao telefone.

Jamais tinha ficado tão tenso ao falar comigo, embora, nos ultimos dias ele estivesse sim, muito estranho.

Aquele sorriso que ele abria sempre ao me ver, o abraço apertado que sempre demonstrava saudade e logo em seguida o beijo molhado significando desejo, já pareciam não existir mais.

Havia alguma coisa acontecendo, mas ele não me contava nada.

A ligação fora para me dizer que o esperasse aqui em casa, que eu não fosse encontrar com o Lipe. Um amigo que ele suspeitava que gostava de mim, embora eu sempre tirasse essas bobagens de sua cabeça. Lipe e eu marcamos de ir ao shopping comprar roupas esportivas para a academia que começaríamos a frequentar na semana seguinte, aproveitando, iríamos comer e quem sabe ver um filme.

Nos momentos em que antecediam a chegada de Rafael, que estava vindo do trabalho, mandei uma mensagem de texto à Lipe, dizendo que me esperasse um pouco mais pois eu me atrasaria. Mesmo sem contar a Rafael, eu iria sair mesmo assim com Lipe. Afinal, seria um encontro para questões acadêmicas, literalmente.

Por minha cabeça passavam zilhões de coisas. Não, ele não descobrira que eu ficara com um garoto na última festa que fui. Não tinha como saber, e eu... estava bêbado, e chateado com ele por não querer ir comigo. E além do mais, nem lembro do rosto desse menino, e nem mudou o amor que sinto por ele.

Deitei-me na cama e fiquei ouvindo músicas que lembravam nós dois. Nossos momentos juntos, nesses quase nove meses de namoro.

Quando ele chegou, já estava quase chorando com uma música melancólica. Ele estava com uma aparência cansada quando abri a porta. Sua pele estava suada, uma camiseta preta com gola V, justa ao corpo musculoso, seus olhos brilhosos demais... Hesitou na soleira da porta, esperando eu sinalizar para que entrasse.

- Demorei muito? - ele perguntou para quebrar o gelo, dele próprio, talvez.

- Acho que não. Não - falei por fim.

Sentamos um na frente do outro, na mesa da cozinha. Ele colocou a mochila no chão e pediu para que eu lhe desse algo para beber. Levantei, peguei uma garrafa de Coca-Cola na geladeira e pus em cima da mesa para que se servisse.

Sentei novamente e ele disse: - Prometa que - ele esperou mais um pouco -, não irá chorar.

Aquilo logo me queimou por dentro. Ai, ai, ai, o que estava por vir?

- Dino, talvez essa seja a ultima vez que tomamos uma Coca-Cola juntos. - Fui com a minha mão segurar a dele, mas ele a afastou, me rejeitando. - E talvez seja a última vez em que nos vemos.

Meus olhos se encheram de lágrimas e já não precisava ouvir mais nada para me fazer chorar mais do que já estava chorando.

- Portanto, peço que me entenda... - e ele levantou meu queixo, mas logo abaixei a cabeça na mesa.

- Você tá terminando comigo? - falei aos prantos, tentando enxergá-lo em meio as lágrimas.

- Por favor - ele pediu com a voz calma e doce -, como verdadeira lembrança sua, eu quero um sorriso. Aquele lindo que você costuma iluminar onde está.

- Como posso sorrir quando você está me matando? - agora eu soluçava e tremia. Mas ele não tentou me fazer sentir melhor. Percebi que estava decidido.

Ele ficou calado me vendo chorar. A dor era forte demais.

Parecia que ele não entendia. Uma vida, queria passar a vida inteira com ele, morar com ele, amá-lo todos os dias... nosso amor era perfeito.

- Eu quero um sorriso seu como última lembrança. Por favor, não chore, não chore! - ele pedia com os olhos cheios de lágrimas.

- Por que última lembrança? Onde você vai? Por que está terminando comigo?

- Não podemos ficar mais juntos. Sabe dos problemas que existem entre a gente. Tem os meus pais, tem o restante da minha família que não nos aceitam...

- Mas não é com eles que você vai viver! Pense melhor, não faz isso comigo.

- Você não está me entendendo. Eu queria ter filhos. Filhos meus. Uma família, ser respeitado.

E a cada palavra eu recebia um corte de foice que atravessava meu coração e peito.

- Mas não é o que você quer. É o que eles querem. Você está cego.

- Lembra daquela tarde em que nos conhecemos? - ele perguntou segurando o choro. Não havia notado que ele mudara de assunto, pois estava ocupado limpando meu nariz e secando meus olhos.

- Como eu poderia esquecer, seus olhos brilhavam como águas cristalinas, aguas que pareciam que eu iria me afogar se tentasse nadar. Vi sua felicidade ali.

- Foi lindo mesmo te conhecer...

- E isso não é ótimo? Tudo que fizemos foi especial, por que quer jogar tudo fora?

Percebi que eu havia o interrompido quando ele disse sem ter me ouvido: - E mais bonito ainda o que aconteceu entre nós, no dia do seu aniversário. Mas já passou, já passou.

E ele fitava o nada enquanto falava. Ainda segurando o choro.

- Agora é preciso que nos separemos. E devemos seguir sem nenhum vínculo.

- Para de falar essas coisas, não aguentaria ficar sem você. Sem te ver, sem saber se está bem.

- O nosso amor estava se transformando somente em rotina, e o amor... O amor é uma outra coisa.

- De onde está tirando essas coisas?

- A sua Coca vai perder todo o gás - ele falou distraído. - Nenhum de nós é culpado, nenhum de nós. Mas desde que começamos a trabalhar, temos nos visto cada vez menos.

Eu ainda estava de cabeça baixa, não conseguia nem respirar direito. Já estava com vontade de vomitar de tanto que já chorara.

- Por favor... Por favor, não chore mais, não chore.

- Eu te amo, te quero, te amo!

- Não, você se acostumou a mim, o amor é uma outra coisa.

Ele então se levantou. Pegou a mochila do chão e estava prestes a sair.

Olhei pra ele com raiva mas chorando mesmo assim.

- E você não liga para o que eu sinto?! Acha que meu coração é feito de papel para você rasgar, amassar e depois jogar fora?

- Dino, eu...

- Sabe o quanto eu me sacrifiquei? - acabei berrando. Ele me fitou um pouco assustado e triste. Subi a manga da blusa de frio que eu estava usando e lhe mostrei a tatuagem que continha seu nome. Era uma lua crescente lilás e ao lado seu nome numa caligrafia impecável. - Isto também nem significa nada pra você, né?

Ele olhou para a tatuagem e começou a chorar, eu o abracei bem forte e ficamos os dois chorando.

A porta só nos observava.

Quando nos soltamos, ele suspirou, limpou os olhos e disse: - Agora eu vou indo, eu vou embora.

É o melhor para nós.

Então se lembrou e pegou o anel prata que estava em seu dedo. Retirou-o e me entregou. Afinal, eu tinha comprado o par.

Chorando novamente, ele falou:

- Eu quero que você tenha sorte, muita sorte. E que seja muito feliz. Que encontre alguém e o ame muito. Quem sabe o Lipe? Ele parece que gosta muito de você.

- Você está quase careca só de saber que ele é só meu amigo... eu só amo você, só você caramba! Você é a razão da minha existência. Sem você estou cego, sem você eu entrego meu corpo à própria sorte.

- Não gosto quando fala essas coisas... me preocupo contigo - ele chorou mais ainda.

- Então me beija e diga para eu esquecer tudo isso, diga que você enlouqueceu e...

- Adeus, adeus - ele disse por fim. Abriu a porta e já estava se afastando.

Me desesperei quando notei que estava mesmo perdendo o amor da minha vida.

E perderia sim, pois eu sabia que em breve os pais dele mudariam de cidade, levando com eles Rafael. Será que era isso? Ele já estava se despedindo?

- Eu te amo, te amo, te amo! - eu falava chorando, ajoelhado no chão. Até batia a cabeça nele quando caí. Fiquei uns segundos lá na soleira vendo ele se afastar e sentindo meu coração vazar sangue. - Adeus. Tchau.

Então pensei melhor.

Fui até seu encontro e agarrei seu braço.

Quando o virei com força, ele me olhou incrédulo.

- Você vai mesmo conseguir viver sem meus beijos... - eu o beijei, do melhor jeito que pude. Alisei seus braços enquanto isso. Estávamos no corredor que dava acesso à rua. Ninguém estava nos vendo. Continuei fazendo minhas mãos passearem por seu corpo - vai viver sem meu toque? Não quer ficar uma ultima vez comigo? - e eu falava não mais alto que um sussurro, perto de sua orelha. Ele estava com os olhos fechados.

Quando me dei conta, estavamos na cama de casal do quarto da minha mãe, eu tirando sua camiseta suada e a jogando no chão.

O desejo falou mais forte. Nos unimos mais uma vez, mas dessa vez foi melhor. Parecia que o medo que ele tinha de me perder tornou muito especial a nossa relação. Estavamos sedentos, excitados, precisavamos entrar um no outro. E logo o frio da depressão que eu sentira... se transformara em calor. Chamas ardentes como se logo ao lado estivesse uma fogueira com muita lenha recém-cortada.

Cada movimento, cada beijo, cada toque, cada arrepio... cada gemido de prazer!

Quando acabamos com nosso ritual do amor, ele ainda deitado por cima de mim. Eu acariciando suas costas nua.

Ele me beijou e disse: - Acho que eu preferia morrer a deixá-lo.

Olhei para ele, bem no fundo de seus olhos e sorri.

Meu celular começara a tocar de repente. Era uma mensagem de texto.

- Pega meu celular, por favor? - pedi a ele. - Está ao lado da TV.

Ele pegou e aproveitou e leu: "Ah, o.k. então, te espero no lugar de sempre. Não vejo a hora de te ver denovo. Sabe q eu te amo muito né? Bjos" , uma mensagem do Lipe. - falou para finalizar e me olhou com uma cara de ironia.

Fiquei mudo uns instantes. Ele morria de ciumes do Lipe.

- Bom, agora "não sobrou nada para dizer, exceto adeus!"

E eu deixei meu amor ir embora, provavelmente com o coração magoado.

Vontade de Matar


- Não faz 4 dias que ele foi enterrado. Okay, mas... Tudo bem. Já estou saindo. Ainda não me falaram nada... Não precisa chorar Thamires, quando voltar-mos agente passa na casa da mãe dele. Tá bom, tchau - desliguei o celular.

Coloquei uma camiseta e fui até a pia do banheiro para escovar os dentes. Nossa, desde o assassinato de Kauê não consigo dormir direito, é como se ele ainda estivesse ali comigo. Meu melhor amigo. Meu rosto está amassado e com olheiras. Nem vou fazer a barba hoje. Nem está tão grande.

Thamires me pediu para que eu fosse encontrá-la no cemitério Vila Mariana. Ela namorava meu melhor amigo Kauê Shimoda, asiático, fora assassinado na própria casa com 13 facadas na região do coração. O engraçado é que quem merece não morre assim!

Depois de uma tentaiva inútil de melhorar o rosto, peguei as chaves e fui encontrar o carro na garagem do edifício. Já sentiu a sensação de estar sendo observado? Parecia que algo me seguia, como se fosse algum detetive da polícia que estivesse vigiando as pessoas próximas à Kauê, já que na cena do crime, não houvera arrombamentos, furtos e nem nada mais macabro que sua morte.

Não dei atenção ao tal detetive que não fazia seu trabalho muito bem e liguei o carro. Ao colocar o carro na marcha ré, senti passar por cima do que me pareceu um corpo. Entrei em pânico. Aproveitei que não havia ninguém mais no estacionamento subterrâneo para dar uma espiada no estrago.

O que o sono faz às pessoas? Ele as enlouquece? Faz coisas se mexerem mesmo ela estando paradas e completamente imóveis? Não havia nada embaixo do carro. Sem vestígios de sangue, o pneu não estava furado, não havia sacos de lixo nem nada. Só me pergunto: Que lombada foi aquela?

Entrei no carro novamente. Levei um susto quando a porra do meu celular toca de repente.

- Onde você está? - perguntou Thamires esbaforida ao celular.

- Tô na Lacerda Franco. Só vou virar à esquerda e depois à direita e pronto. Feliz? - Opa! Péssima pergunta para agora. - Não foi isso que quis dizer, não nesse sentido.

Ela desligou o celular.

Eu já não era muito fã de cemitérios, principalmente visitá-los depois das 19 horas.

Não foi difícil encontrar Thamires, sentada no chão olhando a lápide do corpo de Kauê ao longe.

Lugares assim, quando você anda, sente um desconforto nas costas... Uma insegurança. Como se seu anjo da guarda não estivesse te seguindo mais e sim uma presença maligna. Apressei o passo.

- Há quantas horas está aqui? - perguntei. Seus cabelos que eram lisos e bem cuidados, agora estavam bagunçados acho que de tanto ela chorar e passar a mão para o lado. Seu rosto estava pálido, o rímel borrado. Seu jeans estava sujo da terra que tinha no chão do cemitério. Sem falar nas olheiras que pude evr claramente apartir da hora em que a luz de um poste vizinho nos iluminou.

- Não sei - ela me disse como se estivesse sem ar. Olhei bem pra lápide e já até me cansei. Como ela ficou tanto tempo ali? Que coisa chata, era como se passasse um clipe com seus momentos. Ela fitava com vontade a lápide onde indicava: KAUE MATZACUDA SHIMODA

*14-FEV-1982 +10-OUT-2010 MENTIRAS SÃO FRACAS, ELAS SEMPRE PERDEM, A VERDADE É DE DEUS POR ISSO SEMPRE APARECE. Li e re-li a frase para passar o tempo.

Thamirez ao me olhar de verdade perguntou:

- Como sabia que eu estava aqui?

Agaixei-me para olhar em seu olho.

- Tá doida? Nos falamos no celular não tem menos de 10 minutos.

- Meu celular estava com o Kauê quando ele... - ela apertou os olhos - Os policiais levaram para fazer alguma coisa. Ficaram de me entregar depois. - Ela passou a mão no cabelo outra vez. Cobriu o rosto com as mãos. - Não avisei ninguém que viria, como soube que eu estava aqui?

Efeito do sono? Não, dessa vez era alguma maluquice, e minha eu sei que não era.

- Thamires, como é que eu falei com você mais de cinco vezes hoje e você me diz que não está com seu celular há 4 dias? Ontem falei duas vezes com você!

- Sérgio eu já disse que meu celular não está comigo. Se quer saber, ontem eu estava na casa da minha avó ainda. Não pude deixá-la até meu tio Daniel chegar. Sendo que eu estava desesperada pra sair daquela cidadezinha e vir para o enterro... Dele. Mas nem pude. Chorei a noite toda quando minha mãe disse.

Meu estomago começou a revirar. Aquele lugar já estava me dando náuseas.

- Eu juro que não entendo. Era você... era você! - eu tava começando a surtar com a idéia de estar louco. Mas eu tinha no subconciente que era o sono. Mas... anteontem eu não estava com sono quando falei com "ela", não tanto pelo menos. Mas agora era diferente, 41 horas.

Fitei a lápide de Kauê para tentar me distrair por alguns segundos, mas estes pareceram horas. Por passe de mágica, fui levado à lembrança da nossa penultima noite juntos. Me peguei pensando em nós, melhores amigos numa balada de eletrônica, no dia que eu apresentei a Vanessa para ele como minha namorada. Não sei o porque, mas lembrando disso, pude ver detalhes dessa lembrança. Como ele a olhou, como ela o olhou e como eu estava bêbado naquela noite. Não sabia quem me levara ao meu apartamento ou trouxera meu carro. Acordei de ressaca e fiquei em casa. Sorte que era domingo. Quando fiquei totalmente sóbrio, peguei meu Smart e liguei para Thamirez pra saber como tinha sido a noite passada. Pois eu não me lembrava de nada. Lembro-me de quase tudo da conversa.

- E quem levou a Vanessa pra casa? - perguntei.

- Depois que levamos você até aí, Kauê me deixou em casa e disse que podia levar a Vanessa até a dela.

- Humm. Beleza. E aí, ele te mostrou a aliança?

- Que aliança? - senti sua voz de animação total.

- Ops. Desculpe os Spoilers, pensei que ele tinha te mostrado - ela deu um grito muito alto, então me despedi e desliguei, só não sei se ela me ouviu.Tentei ligar para Vanessa, mas só caía na caixa postal. O mesmo acontecia com o celular de Kauê. No instante fiquei preocupado pensando que poderia ter acontecido um acidente ou algo do tipo, mas também pode ser que um está sem rede e o outro descarregado.

Perto da hora do futebol, fui ao bar de um amigo que ficava na esquina da minha rua para ver o jogo lá e tomar algumas cervejas ou Coca com Montilla. Mais tarde eu passaria na casa de Vanessa para amá-la um pouquinho. O jogo começou.

Despertei do devaneio meio assustado.

Olhei para a mão de Thamirez. Não havia sinal de anel algum. Por quanto tempo eu apaguei sem que ela percebesse.

- Vamos sair daqui Thami? Preciso dormir e você comer um pouco - levantei e estendi a mão para que ela tivesse um suporte para levantar. Ela se agarrou ao meu braço enquanto subíamos a pequena ladeira até o portão de saída. Tive a impressão de alguem atrás de mim chamar meu nome. Mais uma vez o sono, sempre ouço milhões de vozes em minha cabeça e me distraio fácil, por isso, decidi deixar o carro ali e ir a pé para casa. Mais tarde eu pegaria o carro.

Na calçada do cemitério, Thamires ainda estava agarrada em meu braço. Acho que um estava servindo de apoio ao outro. Fazia 4 dias que eu não a via. Seu namorado estava morto e ela precisava mesmo de um apoio. Não sei de onde, apareceu um louco na nossa frente e falou em nossa direção:

- Eu não gosto de você! O que fez não tem perdão. Só passei pra dizer que ele te espera com sua família. Não demore!

O louco passou por nós e seguiu seu rumo. Nos entreolhamos.

- Ele disse pra você ou pra mim? - perguntei.

- Nem ouvi o que ele disse. - ela deu de ombros, secando o nariz. Estava muito chorosa.

Deixei Thamires em casa. Passei no primeiro bar que vi e pedi um café bem quente. Em seguida fui na delegacia onde estavam apurando o caso de Kauê tentar retirar o celular de Thami. Depois de horas argumentando, e depois deles informarem que já não precisavam mais, consegui retirar o celular de Thami, assinando um relatório que nem sei exatamente do que era. Não pude ler, só estava precisando saber o que continha naquele celular.

Quando cheguei em casa, o sono e o cansaço me fizeram desmaiar na cama, afinal eu precisava estar recarregado para o dia seguinte. Não foi difícil sonhar com aquelas cenas outra vez. As que mais me fazem perder o sono.

Estava eu no bar, vendo o jogo do palmeiras e guarani, quando sentou o primo do Kauê no banco ao meu lado.

- E aí Jeff? Beleza? - cumprimentei-o

- Beleza cara. Nem chamou o Kauê pra vir beber com você hoje? - seu tom de voz era meio presunçoso.

- Nem sei onde ele está. Liguei pra ele mas só dava caixa postal.

- Ah! Ele desligou o celular mesmo, antes de eu sair pra trabalhar.

Kauê e o primo moravam juntos.

- Você trabalhou hoje? Vida de porteiro é dura. Não estudou, se lascou! - eu ri dando-lhe um soco leve no braço.

- Pois é. Não é facil mesmo. Pra uns é até legal, enquanto uns saem para trabalhar e outros dormem, outros levam mulheres da balada pra dormir em casa...

- Kauê fez isso? Quando? - interessei-me muito pelo papo.

- Hoje oras - ele parecia que queria chegar a algum lugar. - Hoje de madrugada vocês não estavam numa balada aí?

- Sei, mas nem lembro muito, fiquei bêbado lá. Comemorando a promoção lá no trampo.

- Hmm, legal. Parabéns - ele apertou minha mão. Demonstrou estar feliz de verdade. - Só acho que se a Thamires souber ela não vai gostar.

- Claro que ela não vai gostar, traição é traição. Eu não suportaria.

- Acho que eu matava um se alguém me traisse - ele disse me olhando estranhamente. - Os próprios infratores, de preferência.

Para descontrair e tentar olhar o jogo, eu disse:

- Seu macabro! - rimos sem parar.

O bar inteiro se agitou com um gol do palmeiras.

- Agora eu bebo com alegria. Verdão tá 1 à 0 - falei dando uma boa golada na minha Coca Amontilada.

- Agora só preciso de uma loira como a que meu primo levou pra casa hoje - ele disse feliz com o gol do palmeiras.

- Uma loira? - levantei a sombrancelha.

- Antes de sair, eu o ouvi a chamar de Va... "Va" alguma coisa. Vanessa! É foi isso.

Quase cuspi a Coca Amontilada na camisa de um homem que estava sentado no banco à minha frente. Estavamos encostados a um balcão. Meu peito começou a queimar, e logo a doer.

- Como é? - loira e se chama Vanessa, estava com Kauê, sendo que ele foi levá-la pra casa. Os dois celulares estavam desligados até aquela hora. Jeff ainda não voltara pra casa desde que saira do serviço. Céus, será que... não!

- Quando a vi mais cedo, podia jurar que eu ja tinha visto aquela moça com você antes. Talvez você já tenha ficado com ela.

- Acho que você ta falando de alguem que eu conheço - tomei outro gole de Montilla, mas sem a Coca dessa vez. Minha sobrancelha estava levantada, era assim que acontecia quando eu começava a me irritar.

- Conte essa história direito - segurei no braço dele, talvez forte demais.

- Ei, larga aí! Se aquela era sua mina, deveria bater no Kauê, o talarica sem vergonha, eu nem sabia - ele defendeu-se - Só tava comentando.

- Beleza - tentei me acalmar. Fitei-o com ódio, mesmo no fundo sabendo que seu unico defeito fora fazer inferno comigo. Peguei uma nota de $20 e dei ao meu colega dono do bar. Sai em disparada do bar.

Parecia que eu só tinha fechado os olhos. Acordei todo suado. Um calor como jamais tinha sentido antes. Senti-me sem ar. Tirei a camiseta. Na hora vi o celular de Thamires que ainda estava dentro de um saco plástico. Peguei o celular e começei a mexer a procura de informações. Fui primeiro nas ligações feitas. Confirmado, eles haviam se falado por quase uma hora no dia da morte do Kauê. Certamente foi depois de uma bela madrugada de sexo proibido, daí ele ligou para conversarem sobre o que tinha rolado, e que agora estava gostando mesmo dela e essas babaquices que o Kauê faz com todas. Mas com a minha Vanessa e ele tendo a amorosa Thami? Quase destroçei o celular quando fui nas mensagens recebidas. Não prestei atenção no número mas parecia o dela, só a mensagem parecia que pulava do visor do celular. Parecia que a voz de Vanessa gritava pra mim: AMOR, ACHO QUE ESTOU GRÁVIDA, COMECEI A SENTIR OS SINTOMAS ONTEM. E AGORA, O QUE FAREMOS? Essa mensagem vi que foi enviada um dia depois de ele morrer, afinal, só foram encontrá-lo morto muitas horas depois. No dia seguinte. Eu o encontrei.

Larguei o celular no chão me lembrando do dia 10, ultimo domingo de Kauê Shimoda.

Depois que saí do bar, me senti um montro, sai correndo pra buscar meu carro e ir encontrá-los. Pegá-los no flagra. Mas não tive essa sorte. Nem mesmo Kauê sabia, mas eu tinha uma chave de sua casa. Uma cópia completa desde a do portão à porta.

Quando ele saiu do banho, eu estava sentado à uma das cadeiras. Ele levou um baita susto. Já estava vestido, pois se não o tivesse, teria deixado a toalha cair.

- Como conseguiu entrar? - ele perguntou surpreso.

- Não estava trancada - respondi com um tom normal. - Por que está nervoso?

- Olha... Sérgio, antes que meu primo diga alguma coisa...

E o desgraçado se entregou. Então era mesmo verdade.

- Achou que eu não saberia, né? - levantei-me da cadeira, jogando-a no chão. Ele recuou uns dois passos.

- Calma aí Sérgio. Thami deve ter lhe contado que...

- Pobre da Thami, enganando-a e com quem? Com a Vanessa, Kauê! - Não aguentei e dei-lhe um soco no nariz com toda a minha força. Ele caiu pra trás batendo a cabeça na quina da mesa que era quadrada, o que fez a parte de trás da cabeça cortar-se. Ele caiu quase desmaiado no chão.

- Ai minha cabeça... - ele gemia, ou melhor, chorava.

- Isso, chora seu traidor do caralho! Cadê aquela sua frase que você queria por na sua tumba? "Que a verdade é não sei o quê, não-sei-o-que-lá." Hein? Eu a descobri. Descobri a verdade. Ela era minha. MINHA! - saquei uma faca do cós da minha jeans e a afundei em seu peito sem me importar com sua dor ou o sangue que jorrava dali. Depois de fazer a faca ir e voltar algumas vezes, fazendo aquele barulhinho esponjoso que eu estava adorando ouvir, meu braço cansou e minha raiva já tinha passado um pouco. Descontara minha raiva no verdadeiro ser que a merecia por completo. Precisava limpar a bagunça.

Sem pressa alguma, procurei um vidro de alcool que eu sabia que ele tinha, do ultimo churrasco que fizemos. Passei em meu punho e no nariz dele. Limpei todos os vestígios que consegui. Começei a andar por cima de tapetes e panos. Evitei soar, limpei digitais da porta, da cadeira, mesa... Não havia nada para me incriminar.

Consigo lembrar ainda que, quando me preparei emocionalmente, quando pensei melhor no que fiz, decidi ir até lá começar o teatro. Só precisava agora acabar com a mãe de Vanessa e estaria tudo bem.

Foi simples, a peguei desprevenida quando ela saia da escola onde lecionava à noite e a arrastei para trás da escola. Tapei sua boca e não deixei que ela me visse. Dei uma facada em suas costas, na região da barriga, com a intenção de matar somente a filha de uma puta, literalmente. Ela estava grávida de 05 meses de uma menina. Mas que fosse as duas. E para me vingar dela, bati sua cabeça numa árvore, com força suficiente de deixá-la desmemoriada. Essa era a intenção na verdade. Larguei-a desacordada. Com certeza no dia seguinte eles a encontrariam. Oh, foi mal, dia seguinte é feriado das crianças. Acho que os insetos vão ter o que comer essa noite. Sangue docinho. Hmmm.

Mas depois dessas experiências de assassino profissional, tenho sentido coisas, ouvido coisas. Ah é, lembrei de olhar no celular para saber com qual Thami eu estava falando. Não era possível uma coisa dessas.

Mexendo nos menus de chamadas recentes em meu celular, me assustei com o impossível número para qual eu ligava e recebia as chamadas de Thami. No visor do celular, havia os caractéres impossíveis de alguma operadora: HH666. Telefône do inferno? Impossível, essas coisas não existem. Meu celular começou a vibrar na minha mão. Alguem estava ligando... um tal de HH666...

Um arrepio tomou conta de todo meu corpo. Deixei-o chamar enquanto eu olhava ligações recentes minhas no celular de Thami. Nada.

Meu celular atendeu automaticamente e ainda por cima no viva-voz. Agaixei-me na cama para ouvir.

- CALMA AÍ SÉRGIO! POR FAVOR NÃO! SOCORRO! SOCORRO! PARA SÉRGIO - era a voz de pânico e dor de Kauê no celular. Antes de continuar aquela tortura. Taquei meu celular na parede. Pareceu funcionar pois a bateria foi para um lado e o chip para o outro. Para não enlouquecer, fui até onde eu tinha estacionado meu carro, na frente do cemitério, e iria na casa de Thamires.

Quando cheguei, tive uma surpresa em ver uma espécie de "novo velório" na sala de Thami. A Sra. Shimoda, mãe de Kauê, estava sentada no sofá, com Thami detada com a cabeça em seu colo. A Sra. Shimoda alisava os cabelos de Thami enquando ela chorava segurando a barriga. O irmão mais novo de Thami, Victor de 17 anos, estava falando com dois médicos que estavam no portão. Quando entrei, cumprimentei-os normalmente. Sem entender exatamente o que eles faziam ali.

- Thami, o que houve?

Ela não me respondeu. A Sra. Shimoda cuidadosamente deitou a ex-nora numa almofada e veio ter comigo perto da cozinha.

- O que aconteceu com ela? - perguntei preocupado.

- Ontem, depois que a trouxe, ela jura que recebeu uma ligação de Kauê, de um número estranho que mais parecia um código, pedindo socorro. Ele queria que ela o salvasse e o tirasse das mãos e da faca do assassino.

- Ele disse... quem era? O assassino? - perguntei mostrando interesse.

- Santo Deus. Não me diga que você acredita mesmo nela? - ela olhou tristemente para os sofá onde Thami estava. - Já que a avó não está aqui para ajudá-la, eu sou a unica que pode, por isso chamei os psiquiátras para...

- Leva-lá a um sanatório? - completei espantando-me. - Acha que ela está louca?

- Bom... é que... além disso, ela está sofrendo de depressão desde que o Kauê morreu. Até eu, que sou mãe dele estou sendo mais forte. Mas... ela ficou assim depois que perdeu o bebê.

- Que bebê? Ela estava grávida?

- Sim, ela deu a notícia por torpedo, vê se pode? Em vez de contar ao marido em sua presença, sentados, de mãos dadas. Assim como fiz com o Sr. Shimoda muitos anos antes.

- Não consigo entender... o celular dela estava com o Kauê.

- É que, depois que levaram você pra casa, naquele dia que vocês sairam, ela, meu filho e sua namorada passaram na casa dele pra acho que dar uma acordada, e também a Vanessa precisava usar o banheiro, além de lavar o rosto e etc, daí a Thami deitou-se na cama e pra esperar Vanessa e largou o celular na cama dele, e o esqueceu. No dia seguinte, ela mandou pelo meu celular o torpedo para o celular dela, contando a notícia da suposta gravidez. Mas ela ficou triste quando não obteve resposta.

Comecei a ficar sem ar. Não queria mais ouvir aquilo.

- Desculpe-me Sra. Shimoda, ele era meu melhor amigo e... esse monte de coisas me deixa muito abalado. Preciso ir.

Aliás, eu precisava ir num lugar antes. Saí de lá às pressas.

Com o celular de Thami, que eu esquecera de devolver, disquei o numero de Jeff.

- E aí Jeff, beleza? - eu disse com animação muito bem disfarçada.

- Fala Sérgio. O que manda?

- Humm, tem como voçê me encontrar na Avenida Turmalina? Perto do Parque da Aclimação?

- Agora? Tá tarde véio.

- Por favor? - insisti. - Preciso conversar com algum amigo.

- Ta bom, to indo. Te encontro em 20 minutos.

Eu o esperei pacientemente. A armadilha estava armada. Ele tinha que me contar que palhaçada era aquela. Eu tinha sacado metade dela. Como ele era formado em Hardware e em outros cursos de computação, ele sabia como hackear tanto computadores como aparelhos celulares. Seria fácil para ele codificar algum celular para aparecer o código: HH666 que poderia ser muito bem "Health hell - Saúde infernal" - que ele sempre falava quando estava gripado ou com qualquer coisa fora do padrão da saúde - e 666, o número da besta, para me assustar de alguma forma. Agora, as presenças, o corpo que atropelei na garagem e a ligação tanto pra Thami quanto pra mim, isso... não sei explicar.

- Demorei muito? - ele perguntou assim que chegou.

- Vamos entrar no parque. - falei com a voz seca.

Ele não entendeu muito bem, mas me seguiu.

Senti sua respiração mudar, ele ofegava. O medo já havia o possuido. Eu o estava levando para um lugar vazio, onde não houvesse testemunhas para a minha faca agir.

Quando paramos perto de uma árvore de aparência bem antiga, ele disse pra me surpreender:

- Deixe-me ver a faca que está presa ao seu cinto, nas suas costas?

- Como sabe que...

- Ela parece ser feita de prata. Pois é brilhante, jamais foi usada a não ser para assassinar seu melhor amigo e sua namorada.

Eu avancei contra ele, colocando meu braço para enforcá-lo contra a árvore.

- Vai me matar como matou os pobres inocentes?

Nessa hora nem sabia mais o que fazer, a palavra inocentes me deu um forte arrempedimento num coração que eu nem tinha mais, depois ouvi um farfalhar atrás de mim um grito no mega-fone: PARADO! LARGUE A ARMA E MÃOS NA CABEÇA! DEVAGAR! - O filho da puta tinha trazido policiais. Mas como ele fez para me incriminar?

- Assim como você, sou louco também, psicopata, e até doido por facas. Ah... como elas brilham... como elas cortam facilmente a pele de alguém, é uma coisa fascinante não acha? Por isso que gostamos de matar com elas. Gosto do som que faz, e você?

- Cala essa boca seu cretino inútil - dei-lhe dois socos no estômago.

- MANDEI LARGAR A ARMA! AFASTE-SE DA VÍTIMA E MÃOS NA CABEÇA! - os policiais avançavam lentamente. - VOCÊ NÃO VAI SE MACHUCAR, NÃO MACHUQUE-O TAMBÉM!

- Eu só brinquei com você. Eu queria ver você matar. Saber se tinha coragem. Por que, eu vi muito você andar com a Thami e jamais nem trepar com ela. Porra, pensei que você fosse gay. Daí inventei a história mais burra e você caiu. E sabe por que? Por que você é um burro, assassino barato. Tem muito o que aprender. Te dou uma chance de se vingar quando sair da prisão. Ah, antes que eu me esqueça, acharam o corpo da Vanessa. Tive coragem de filmar e entregar pra eles. Tadinha dela, nem fez nada...

- Argh! Por quê?! - gritei pra ele enforcando-o mais uma vez Quando fui esfáqueá-lo, senti por menos que uma fração de segundo, duas balas perfurarem meu crânio. Jamais vou saber a resposta dessa minha pergunta.

Danos ao Coração, parte 2 - Danos Permanentes


Bruno não sabia das ligações que Dave me fazia. Mesmo que eu as ignorasse e depois apagasse do registro, não contava pra ele.
Começamos a namorar no dia seguinte ao episódio na casa de Dave, duas semanas atrás. Desde então, Dave não deixa de me ligar. Bruno está sendo perfeito, me trata bem, está comigo quando não está trabalhando, é muito carinhoso e me sinto bem ao seu lado. As vezes o sinto inseguro em relação a Dave. Em sua cabeça existe uma Fernanda que ainda ama e sofre por Dave, mas aos poucos irei mostrando-lhe que mudei, e para melhor, agora que finalmente esqueci Dave, não completamente pois ele ainda me perturba com suas ligações.
Não, não vou atendê-lo. Além do mais, não quero ouvir sua voz. Por que não quero? Será que Bruno tem razão? Vou ter uma recaída? Eu não confio em mim? É melhor evitar até estar mais forte. É isso.
Depois de mais uns dias me escondendo do celular, ouço um toque diferente ao me aproximar dele, que estava em cima da mesa da cozinha, local onde deixo assim que chego em casa do trabalho, era uma mensagem de texto. Não reconheci o número, mas li a mensagem:
POR QUE NÃO ME ATENDE? MUDOU DE NÚMERO OU TÁ SÓ FUGINDO? SÓ QUERIA PEDIR DESCULPAS POR EU TER FALADO AQUELAS COISAS NO DIA QUE ESTAVA AQUI.
FOI MAL, NÃO PENSEI DIREITO. ME LIGA, PRECISO FALAR COM VOCÊ. P.S: SEU PERFUME FICOU AQUI, AINDA O SINTO TODA NOITE NO MEU TRAVESSEIRO.

Sentei-me na cadeira mais próxima. Minha mãe surgiu da sala de estar e avaliando-me perguntou:
- O que houve menina? Está tão pálida.
- Nada não. é o calor. Ele costuma abaixar a minha pressão. - só consegui dizer por essa ser uma verdade, embora, num momento de mentira.
Enquanto minha mãe estava na pia lavando o arroz para fazer o jantar, corri para o quarto para falar com minha irmã. Precisava lhe contar sobre Dave. Ela estava a par de tudo. Foi com ela que desabafei quando cheguei em casa semanas atrás. Ela me abraçou e chorou junto quando lhe contei meu sofrimento, ela o insultou de todas as coisas na conversa, mas quando mostrei-lhe uma foto dele, ela "entendeu" meu amor por ele.
- Nossa, faz tempo que não o vejo. Está diferente. - disse ela.
Assenti.

- Amanda? - chamei ao entrar no quarto. Ela estava debruçada na cama lendo uma revistinha de horóscopo e ouvindo música nos fones.
- Oi, tava esperando você chegar do trabalho. - disse ela parecendo animada.
Amanda era um ano e meio mais nova que eu. A achava até mais bonita. Seu cabelo era mais liso e arrumado que o meu, seu corpo parecia ser perfeito e tinha sorriso muito simpático. No que eu me considerava melhor era em quantos caras lindos eu fiquei. Mas o que eu mais queria, não obtive sucesso, então...
- O Dave me mandou um torpedo.
- Finalmente. Já tava achando que ele era burro. - brincou ela.
- Por quê? - tentei entender. Sentei-me ao seu lado na cama.
- Faz quase um mês que ele tenta falar com você e você nem atende, se ele queria mesmo dizer algo para uma pessoa que não atende o celular, mandaria um torpedo, daí ele pode falar sem você desligar. Você leu o torpedo até o final, né?
- Li.
- Então parabéns pra ele.
- Não faz sentido. Enfim... ele me pediu desculpas e...
Contei-lhe o conteúdo do torpedo. Para a minha surpresa, ela não tirou o sorriso do rosto. Estava animada com minhas palavras.
- Vai fundo Fernanda.
- Vai fundo pra onde? Eu namoro o Bruno, esqueceu?
- Mas você não o ama. E não o fará feliz assim.
- Como não? Não estou nem aí pro Dave.
- Está sim, admita. Você ainda o ama e ficou balançada com o torpedo.
- Quê? Pára de dizer besteiras.
- Você nem ama o Bruno, tá com ele só pra não ficar sozinha chorando e...
- Cala a boca. - disse irritada. O barulho da panela de pressão maquiava os meus gritos que começaram a surgir. Deixei ela falando, fui até a gaveta pegar uma roupa de sair. Ia dormir na casa do Bruno hoje.
- Fica com o Dave. Não desista dele. Você lutou por mais de 3 anos...
- E de tanto lutar, os guerreiros acabam cansando.
- Os fracotes.
- Os que querem uma vida melhor.
- Não vão ser felizes assim.
- Escuta aqui Amanda. Pára. Você já tá começando de novo. Você pensa que sou uma personagem de um dos livros que você lê e desgosta por causa do final? Do jeito que você não pode mudar os destinos delas, não pode mudar os meus.
- Como assim? - ela perguntou interessada.
- Bruno e eu vamos morar juntos em breve. - cochichei perto do ouvido dela. - Mas não conta nada pra mãe ainda. Vamos contar quando estiver tudo certo. To indo tomar banho.
- Beleza.
Vi quando Amanda pegou o celular dela e repôs os fones no ouvido. De relance a vi pegar também o meu celular.
- Vou pegar uma música pelo BLUETOOH! - gritou ela.
- Tá. - respondi do banheiro.

Por causa do trabalho e da faculdade, Bruno só me viu 2 vezes nessa semana. Havia alguns trabalhos para entregar e pouco tempo para executar todas as tarefas diárias. As vezes penso que ao namorá-lo, estou dando mais uma responsabilidade a ele. Atarefando-o mais ainda. Isso me deixa mal e constrangida quando o vejo atrás do notebook e de uma pilha de livros e cadernos.
Passei alguns dias sem vê-lo, indo de casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Estava com um pouco de saudade dele, mas algo me fazia não ligar tanto em não estar com ele. Dave não me ligara mais. Disso eu sinto falta. Gostava tanto de torturá-lo - e de me torturar com o toque da chamada.

Notei Amanda um pouco misteriosa essa semana. Ela parecia apressada as vezes e quando eu entrava em nosso quarto, ela parecia sempre desesperada em guardar algo ou me tirar de lá.

Estranho, ontem logo após eu terminar uma ligação com Bruno, o mesmo me avisara que me ligara e eu não o atendera, fui verificar os registros de chamada e sim, havia duas ligações perdidas de Bruno. O que me intrigou, foi ao verificar as ligações feitas e notar o número de Dave ali. A ultima vez que liguei pra ele foi a mais de um mês quando fui até lá. Mas aqui no registro mostrava uma data muito recente. Não me lembro de ter ligado para Dave, nem como "sem querer". A possibilidade de Amanda ter ligado era irrelevante, afinal, ela nem tinha contato com ele.
Bruno ficou diferente comigo nos ultimos dias. Não sei o que houve. Parecia que o amor que ele sentia por mim tinha se acabado ou coisa assim. Ele estava me evitando, quase não falava comigo, estava sempre extressado e "com coisas demais na cabeça". Ele tinha esfriado, quase não pedia meus beijos, agora que eu, depois de tanto tentar, estava começando a amá-lo.

Já estava começando a me sentir sozinha. Minha irmã não estava falando muito comigo, só o necessário. Bruno estava sempre ocupado, o que me deixava chateada, pois ele nem tinha mais tempo pra mim. Qualquer coisa era mais importante. Perguntei-lhe hoje pela manhã o que estava de errado quando passe pelo serviço dele.

- Que surpresa! - ele disse mas não me pareceu sentir emoção alguma em me ver. Até perdi um pouco da vontade de estar ali. Me deprimiu.
- Vim te ver já que você não faz mais isso. - falei olhando para o chão. A essa altura ja estava a ponto de dizer tchau.
- Você sabe que estou sem tempo, e você mesmo deve estar muito ocupada com... ultimamente. Olha, meu ônibus ali no ponto, tchau, tenho que ir. Entra no MSN quando chegar. - e saiu correndo.
- Bruno! - chamei indignada. Ele não voltou.
Não acreditei quando ele entrou mesmo no ônibus e o ônibus virou na esquina. Minha cara deveria estar horrível pois não paravam de me olhar. Haviam muitas pessoas naquela rua e todos os pares de olhos estavam mirando as lágrimas que escorriam pelo meus rosto.

Por que eu sempre tinha que ficar sozinha?
Cheguei em casa e me joguei na cama. Minha irmã não estava em casa, estranhamente. Aproveitei para chorar o quanto pude e pensar. Pensar o que eu tinha vivido nesses dois meses com o Bruno. Lembrei-me de Dave. Queria vê-lo. Sempre conseguia me destruir ou buscar forças com ele. Afinal, ele era tão legal, meu melhor amigo, até. Eu tinha de ligar pra ele. Pedir desculpas por não ter atendido o celular e... é, era isso o que eu tinha de ter feito. Precisava beber algo hoje, nem que fosse uma cerveja. Que dane-se o MSN. Não estava mais afim de falar com o Bruno hoje, se ele conseguia me evitar, eu também conseguia. Tinha que aproveitar que estava curada. Tinha que testar se eu ainda amava o Dave ou se meu coração fora costurado. Se desse certo, estava disposta a arrancar as linhas que Bruno usou e substituí-las por novas, pelas linhas de Dave. Mas no fundo, sabia que ele não queria nada comigo.

- Dave? - falei ao atenderem ao segundo toque. Estava tensa. Envergonhada, mas decidida.
- Porra Fernanda, finalmente, eu...
- Não fala nada. Olha, vamos sair pra algum lugar? Beber alguma coisa, sei lá...
- Faz o seguinte, pode vir aqui? Conversamos melhor.
- Aí na sua casa? Não posso ir pra Suzano uma hora dessas. Está tarde e...
- Que Susano? Sabe muito bem que agora to morando aqui no Centro. Esqueceu?
- Na verdade... - pra não prolongar a conversa com ele e perder a minha coragem em vê-lo, decidi mentir. - .. é, esqueci. Enfim, me diz onde posso te encontrar que vou. To afim de me distrair.
- Okay.

Combinamos que ele me esperaria perto de casa, o destino escolheríamos depois.
Depois de ter passado um bom tempo me arrumando, perfumando e ajeitando o cabelo a cada 2 minutos, consegui sair. Já passava das 21h o vi da esquina. Vi quando ele saiu de uma loja de conveniencias de um posto de gasolina. Estava tão... gostoso. Estava usando uma bermuda jeans que deveria ser da ECKO, e uma camiseta lilás que sei que fui eu quem lhe deu, não fazia muito tempo. O boné era meio que um marrom-amarelado. Era clarinho, mas só o deixou com o rosto mais maduro. Gostei do visual. Onde será que iríamos?

- Oi gata. - me deu um beijo no rosto. Não lembro se foi o frio, mas me arrepiei na hora. O perfume que ele usava era um dos que eu mais gostava. Dave era perfeito.
- Dave, olha... - suspirei adquirindo fôlego para começar, mas fui interrompida com a boca de Dave vindo em direção da minha. Não tive tempo para pensar em outra coisa que não retribuir àquele beijo e o abraço gostoso. Não acreditei que eu estava beijando o cara que mais amei na vida, o qual eu tinha vontade de estar o tempo todo, de construir uma família e ser feliz. Sim, estava acontecendo, ele estava mesmo me beijando.
Não quis - na verdade nem tentei ser forte. Ele me chamou para ir ao apartamento dele, para conhecer. Ficava na Aclimação. Não muito longe de onde estávamos. Para um homem, estava organizado até. Não havia muitas coisas fora do lugar, nada demais, capaz que ele tinha acabado de deixar ali.
- Não nos demorei lá fora porque eu pedi pizza. Não me faça essa cara, achei que dormiria aqui.
- Não posso, tenho que trabalhar amanhã.
- Falte. Precisa de folga.
- Dave, não...
- Deixa pra lá... senta aqui.
- Sentei me ao seu lado num sofá a frente da Tv. Ela permaneceu desligada, aliás, não teríamos lhe dado a atenção devida.

- Olha, desde o dia que você saiu daquele jeito, fiquei mal. Preocupado pois estava a maior chuva e você nem sabia o caminho até a estação e...
- Eu sabia o caminho sim, e não estava chovendo tanto.
- Deixa eu terminar... por favor. - ele estava com medo de tropeçar nas palavras. Ele estava com um rosto tão lindo, tremendo quase. Seus olhos castanhos brilhavam. - Fiquei pensando no que me disse, e fiquei pensando em como a minha mãe chorou naquela noite quando meu pai faleceu.

Eu congelei e morri junto. Não acreditei naquela informação. Só o fiz porque ele estava com a cabeça baixa e a voz quase morrendo também.

- Não acredito que o seu pai... Dave eu sinto muito. - meu abraço dessa vez não foi com segundas intenções. Não resisti e chorei enquanto o abraçava.
- Ja passou. O fato não é mais esse. - ele me disse tentando ficar sério. - Eu a vendo sofrer daquela forma, com dor por perder alguém que ama, com quem viveu por muitos anos, feliz e contente, com quem riu e chorou até, e teve filhos. Ela ficou muito abalada, pois ninguem esperava que ele morresse dormindo, não apresentava nenhum sinal de doença. Enfim... pensei no que me disse antes de sair, e avaliei com carinho tudo. Acho que comecei a gostar de você depois do enterro do meu pai, uns dias depois. Pois foi quando eu fiquei mais pensativo e dando mais valor a vida. Saí daquele trampo que não me servia pra muita coisa e agora estou em outro por aqui, que paga muito mais. Ajudo minha mãe e vivo bem aqui. Vim pra cá buscar especialmente uma coisa: Você. Acho que não suporto mais ficar nesse apartamento sozinho, te ligando e sem você atender o celular, me deixando triste e sem razão pra ter abandonado tudo e todos em Suzano.
Eu só escutava ele falar. Estava sendo difícil aderir tudo aquilo sem chorar. Era o que sempre esperei ouvir de um cara. Jamais imaginei que quem me diria isso, seria ele. Dave.
- Eu descobri que te amo. Descobri que quero ficar com você pois não vejo com quem mais ficar se não você. Não consigo me imaginar com outra pessoa. Não quero conhecer mais ninguém.
- Dave... - chorei. Iria acabar nos ferindo, de alguma forma, mas teria que fazer. - Não posso ficar com você. Não vai mais dar certo, eu namoro com outro, eu...
- Eu sei que você ainda gosta de mim, não faz isso comigo. Pensa em como será a sua vida, ou a minha. Não estraga isso, por favor.
- Não posso, pense em como estou compromissada, a mãe de Bruno é um amor, ela poderia se chatear, não quero magoá-la.
- Sinta como eu te amo. Sinta como eu te quero.
Dave me puxou para perto dele e me deu um beijo quase desesperado. Nossos lábios se encontraram com uma certa química indiscutivel. Não queria de jeito nenhum estragar aquele momento. Ele colocou meus braços em volta de seu pescoço, foi então que me senti vulnerável.
Ele sussurava coisas no meu ouvido dizendo que me amava e que não podia me perder, por nada desse mundo. Foi então que não aguentei e me entreguei de verdade. Disse a ele o que sempre quis dizer, mas dessa vez falei no momento certo e não foi aos berros. Ele me beijava cada vez mais e lambia meu pescoço. Era tão... excitante sentir aquela língua quente descendo cada vez mais. Não queria parar. O clima esquentou mais quando tirei a camiseta dele e vi aquele corpo maravilhoso e o volume que estava ali escondido na bermuda.
Não demorou muito para ele me levar para o quarto dele. Não me lembro de sentir repulsa por ter realizado um dos meus desejos secretos e com quem eu amava, e que com certeza voltara a amar. E o mais importante... que também me amava.
Estavamos muito ocupados quando o cara da pizza chegou. Suspeitamos que fosse porque o interfone não parava de tocar.
Quando acabou, me perguntei se tínhamos tomado banho. Foi muito intenso.
Passamos o restante da noite conversando e combinando como seria dali pra frente. Não foi difícil decidir o que fazer. O que concordamos foi: Dane-se o povo, abra as portas para o nosso amor.

Fui pra casa quando Dave foi trabalhar. Decidi tirar mesmo o dia de folga.
O que eu não parava de fazer era pensar. Como contar ao Bruno. Coitado, não queria magoá-lo. Ele me ajudou tanto. Tinha paciência quando eu ficava muito mal no começo. Contei-lhe sobre Dave quando chegamos em sua casa naquele dia. Ele entendeu direitinho e não fez mais perguntas. Provavelmente ele acharia isso uma covardia.
Quando cheguei em casa, minha mãe já tinha ido trabalhar. Minha irmã provavelmente estaria no computador. Ao entrar no quarto, notei que ela estava no banho, e essa quando entra, não sai mais do chuveiro. Sentei-me ali para acessar meus emails e vi quando uma janela de conversa apareceu do nada na tela e em seguida, a mensagem de ausente que foi deixada por Amanda. Era uma janela de conversa do Bruno com ela, que ocorreu antes de eu chegar. Ele mandara: Opa, desculpa a demora. Tava ocupado. e logo abaixo estava a mensagem de ausente dela.
Procurei nos registros se havia mais conversas entre eles. Sim, havia. A burra guardava todas as conversas. Me espantou quando vi o email do Dave ali também. Ela tinha contato com dave e Bruno?
Abri os dois para ler antes que ela saísse do banheiro.
No de Dave, foi de dias atrás, falaram sobre ele ligar e eu não atender, sobre um torpedo que ele mandara e ela respondera pelo meu. Ah, eu já desconfiava que ela havia mandado torpedos pelo meu celular, mas não que fosse pra ele. Ali havia ela colocando o dave cada vez mais perto de mim, dizendo pra ele não desistir de mim e... QUE ESTAVA AFIM DE TIRAR O MEU NAMORADO. Não acreditei que estava lendo aquilo:

Amandinha zika'em diz: Sou apaixonada pelo Bruno. Só por isso vou te ajudar a ficar com a minha irmã. Vou falar algumas coisas pro Bruno, vou entrar no msn dela, já que sei a senha dela, e falar umas coisas frias pra ele pensar que ela não gosta mais dele.

David Paulo diz: Blza, se vs conseguir fazer com que o namoro dos dois esfrie, ela virá pra mim, daí você pode ficar com o outro.

Amandinha zika'em diz: Suave' :D deixa comigo.

David Paulo diz: O.k. Obrigado mesmo, cunhadinha. -q

Amandinha zika'em diz: kkkkkkkkk' =D

Amandinha zika'em está Offline.

Fiquei chocada com aquilo. Fui enganada, entrei num jogo de capricho. Mais indignada com o que ela falou para o Bruno. Em umas partes ela dizia que não pode dormir, pois eu ficava chorando dormindo e chamando "um tal de Dave" e coisas sem noção. Dizia que eu tinha sido pra um e outro lugar e com amigos, enquanto pela hora, eu estava no banho, me preparando pra dormir.
Minha irmã era uma monstra. O tempo todo tentando ficar com meu namorado, me jogando para outro. E então Dave só queria fazer sexo comigo e mais nada? E todas aquelas coisas que ele me disse?

Enquanto meu mundo caia e tudo girava, Amanda saiu do banho e correu desesperada para onde eu estava. Ela percebeu que eu tinha lido uma boa parte de suas traições.

- Eu posso explicar.
-Você acabou comigo. Você acabou comigo. - eu gritava. Acertei um tapa em seu rosto. A marca ficara bem visível. E nem usara toda a força que minha raiva sempre despertava. Quando fui dar-lhe outro tapa, ela revidou.

- Eu tentei te ajudar a ficar com o cara que você amava.
- Bruno é o cara que eu amava.
- Ah, então consegui? Você ama o David agora!
Avancei outra vez, mas ela recuou. Estava irritada e nem sabia ao certo o por quê. Precisava ver Bruno e explicar o que tinha acontecido.
- Vocês dois se merecem. Me fizeram ficar mal com o Bruno. Estou com nojo dos dois.
Peguei minha bolsa e sai. Pude ouvir quando ela gritou: Tudo que o Dave disse é verdade.
Se é verdade, como ela sabe? Com certeza ela mandou ele dizer, pra ficar realista.

Meu Deus, como eu ia desfazer essa coisa toda? A minha vida seria toda de chorar por coisas que fazem comigo? Essa era meu defeito, ser frágil?
Não consegui ligar para Bruno, decidi ir até seu local de trabalho.
Quando cheguei, fui recebida por Conceição, a recepcionista. Mulher simpática e conhecida minha. Espantou-se quando em viu.
- O que faz aqui Fernanda?
- Vim ver o Bruno, ele está?
- Estranho, ele saiu dizendo que ia encontrar com a namorada. Que qualquer coisa deixasse recado.
Ser frágil nunca mais. Uma vozinha falou em minha cabeça quando eu quase chorei.
- Obrigada, deixe um recado meu. Diga pra ele mandar lembranças minhas pra mãe dele. Diga que sentirei muita saudade dela. Diga que viajei.
- Vai pra onde? - ela perguntou interessada.
- Isso não importa agora, só decidi pegar férias.
- Tá, direi a ele.

Amandinha iria adorar saber que o cara que ela ama está com namorada nova. Nem eu nem ela. Isso não é demais?
Bom, agora só precisava dar uns tapas em Dave também, mas não no momento, não estava afim de falar com ninguém. Precisava de um tempo pra pensar.
Peguei o metrô e fui para o meu trabalho. Iria acertar uns 15 de férias.
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Depois da discussão que tive ontem com Dave, é capaz que ele não queira mais me ver, a não ser que... não, é claro que tudo aquilo era mentira. Se bem que homem é difícil chorar, e ele chorou dizendo que me amava. Tudo tá me deixando muito confusa, principalmente minha menstruação que não desce há 6 dias.

Estava deitada em minha cama, relaxando um pouco enquanto a carne estava no fogo. Alguém começou a bater na porta, quase desesperadamente, sem dar uns segundos para o próximo toque a porta. Fui ver quem era.
- Dona Maria? - era a mãe de Bruno. Ela entrou chorando e me dando um abraço. Quase caímos em cima do fogão que estava próximo. - O que aconteceu? Por que está assim?
- Ai Fernanda, o Bruno foi assaltado ontem a noite e foi baleado. - ela tremia enquanto falava. Lhe dei um copo de água para que se acalmasse. - eu estava preocupada pois ele nem tinha voltado. Me ligaram do Hospital.
- Meu Deus, mas que horas foi?
- Não sei, não sei. Ele está no Hospital, não pode ir comigo? Por favor.
Não consegui dizer não pra aquela senhora que era quase minha mãe. Estava aflita e muito triste. Mas na hora que eu ia saindo, minha pressão baixou e eu quase caí no chão se Dona Maria não estivesse segurando meu pulso.
- Fernanda? O que houve? - perguntou preocupada.
- Nada. - respondi - Deve ser o calor que está aqui dentro. Quando faço alguma coisa em panela de pressão, as vezes minha pressão baixa.
- A minha também. Está melhor?
- Estou, vamos.

No hospital, foi dificil ver Bruno deitado ali, desacordado. Não aguentei, comeceia chorar ao lado dele. Fiz um carinho no rosto e ele se mexeu, e aos poucos acordou. Foi retomando os sentidos.
Pouco a pouco, lhe contaram o que houve e porque estava ali. Depois que a enfermeira que viera saber se ele acordara saiu e sua mãe estava no banheiro. ele falou comigo.
- Me desculpa Fernanda. Me desculpa por tudo.
- O quê? Se desculpar pelo o quê? Não fez nada, olha, eu que...
- Não, nada do que sua irmã disse ou fez teve efeito. Desde que ela me disse que gostava de mim, eu inventei umas coisas também e ela parou de se meter entre nós. Mas já era tarde. Eu descobri uma coisa, e por isso, fiquei com nojo de mim, e quis ficar longe de ti. Eu preciso te falar, mas não quero que sinta muito nojo ou raiva de mim, eu não sabia. Eu tenho... AIDS.

Será que eu tinha também? Por isso que eu vinho sentindo coisas estranhas nos ulimos dias?

- Eu estava com suspeitas e fiz o exame de sangue. Deu positivo - ele parecia que cuspia as palavras. Dá dó ver uma pessoa com nojo de si. - e agora, nos exames que fizeram, acusou de novo. Eu quero que você verifique se está infectada. Mas uma coisa eu tenho certeza, caso não tenha pegado nada, quero que fique bem longe de mim. Não quero que fique infectada com esse vírus maldito.
- E se... caso eu tiver?
- Bom, só você poderá decidir se quer viver e morrer no vírus comigo. Ou não sei... nem sei como será minha vida a partir de agora.
A dor de Bruno se tornara também a minha dor. E se eu estava infectada e passei esse vírus para Dave também? Eu não ia suportar uma coisa dessas. Uma culpa... que com a qual não conseguiria conviver.

- Farei os exames. - prometi a Bruno.

Durante a semana, fiz os exames, ajudei Bruno a se recuperar, perdoei a minha irmã, e voltei com Dave, quero dizer, começamos a namorar. Ele estava tão feliz. Quando ele me abraçava, e também me beijava, eu sentia que todas as palavras que foram ditas naquela noite eram verdadeiras.
Eu era muito feliz quando todos a minha volta eram felizes. Descobri que a mentira que Bruno inventara para a minha irmã, era que ele disse ser gay e estava comigo para se mostrar hétero. Mas ele mesmo desmentiu pra ela e lhe deu uma chance, quando viu que eu estava com outro.
Tudo ia bem.
Hoje peguei o resultado dos exames e quando li, quase pulei de alegria. Como se um peso saísse das minhas costas. Não estava com HIV nem nada do tipo, mas ao contrário, em vez da morte, eu traria uma vida. Estava grávida.
Quase que saí correndo do consultório para contar a Dave. Faria-lhe uma surpresa.
Fui até o prédio onde ele trabalhava. Pedi para liberarem minha entrada sem precisar interfonar nem nada. Subi, quando saí do elevador, naquele enorme corredor, onde as salas ficavam no próximo, eu os vi. Uma menina - ou mulher - muito mais linda que eu, com roupa típica de escritório, cabelo solto, não muito longo. Estava com os braços envolvidos em seu pescoço e ele quase caindo pra frente pois ela não era tão alta, mesmo com aquele salto de bico fino que eu não usaria por medo de cair. Ele me viu e ficou muito assustado. A moça também. Eu simplesmente rasguei o papel e disse: ACABOU!
Entrei no elevador novamente antes que fechasse.

Danos ao Coração


Saí de casa com a mala pronta.
Estava disposta a reconstruir meu coração, juntando os cacos que consegui encontrar.
Eu não sabia se o que eu sentia por eles era paixão, daquelas fortes demais que te causam torpores quase incuráveis, ou amor. O amor é sempre o mais forte de tudo. Mas uma pessoa pode amar duas pessoas?
Cheguei na estação da Sé e olhei no painel de informações para decidir qual destino tomar. Fiquei ainda mais dividida. Leste ou Oeste? Onde irei passar o final de semana? Decidi ir pelo mais difícil, embora eu soubesse que, o lado mais fácil estava me esperando com os braços abertos. Mas eu amava o lado difícil a mais tempo.
Peguei meu celular e disquei o número de Dave.
- Alô - ele atendeu um tanto surpreso.
- Dave. Gostaria de saber se posso ir até sua casa hoje? - perguntei fechando os olhos rezando para que ele apresentasse algum problema e me fizesse desistir dessa loucura que já estava arrependida de cometer.
- Claro que pode - ele confirmou animado - Minha mãe vai adorar te receber.
- Hmm - mordi o lábio - Você pode me pegar na estação? Não lembro o caminho até sua casa.
- Com todo o prazer Fernanda. Ao meio-dia estarei lá - ele desligou o telefone.
Você é burra Fernanda, pensei, agora está feito. Lado leste escolhido.

Dave estava na catraca da estação Calmon Viana esperando-me pacientemente. Ele me seguiu com os olhos no trajeto de subir e descer as escadas até a saída.
- Você está bonita - ele me deu um beijo no rosto, cumprimentando-me.
- Faz tempo que não me vê, é isso.
Dave deu de ombros. Seguimos por uns minutos por caminhos que eu faria até mesmo desacordada, mas para Dave, eu não sabia nem onde pisar. Queria estar na presença dele, por isso o convidei a me buscar. Precisava dele, de seu corpo, de seus beijos. Foi por ele que derramei litros de lágrimas sem que ele soubesse de minha paixão descontrolada por ele.
Levei uma pequena mala para passar o final de semana. Até ali eu não acreditava que havia cancelado o final de semana com Bruno só para sofrer um pouco mais. Mas e se nesse final de semana tudo mudasse? Estava disposta á na hora certa extravasar e lhe contar tudo. Sou uma mulher de atitude, não posso esperar, não consigo.
A Sra. Lira é um doce de pessoa, me recebeu como se eu fosse uma de suas filhas, com tanto amor e carinho. Me hospedei no quarto de Janeide, irmã mais nova de Dave. Falamos sobre diversas coisas. Por ela ser da minha idade, nos demos muito bem, além do mais, nos conhecíamos bem, só não éramos próximas uma da outra.
A hora de dormir pra mim foi a pior. Sempre soube que os pais de Dave dormiam cedo, mas não tanto. 21 horas e os senhores já estavam roncando. Janeide estava deitada em sua cama, com fones de ouvido esperando o sono chegar. Segurei-me com força ao colchão para não ir até o quarto "dele", nem que fosse para uma conversa, embora eu quisesse algo mais. Há anos eu queria. Que vida chata era essa? O que será que ele estava fazendo em seu quarto?
Quando Janeide dormiu, sorrateiramente fui até a porta do quarto de Dave. Estranhei pois, não havia sinais de alguem lá dentro. Não havia sons de respiração ou roncos. Decidi entrar. Como suspeitei, ele não estava. Dei de ombros. Estava com sede e a cozinha pareceu chamar meu nome. Atendi ao chamado. Abri a geladeira e peguei uma jarra de suco, mas antes de pegar um copo, ouvi vozes no portão. Decidi ouvir para saber se era Dave que estava lá.
Era ele mesmo conversando com alguém. Não pude ver quem era pois ele estava na frente, também não pude ouvir pois falavam muito baixo. O espírito da Louca Ciumenta baixou em mim, então tive coragem de abrir a porta da casa e sair para saber com quem ele conversava assim e vi o que eu não queria ver: ele estava beijando uma outra garota que na certa era sua namorada. Por que não me falou dela?
Entrei. Minha sorte foi que eles não notaram minha presença, mas com a raiva e meu coração mais quebrado ainda, fiz um favor de quebrar algo mais. Com a cabeça ainda lá fora, bati a mão sem querer no copo que estava em cima da mesa e ele caiu no chão. Pouco depois Dave entra enquanto eu varria os cacos.
- O que houve? - ele perguntou fechando a porta à chave.
Estranhei seu gesto. A namorada foi embora?
- Estava distraída e o copo escapou de minha mão. - inventei a primeira coisa que veio a mente. - Vou dormir.
- Okay. To indo também.
Não consegui olhar seu rosto. Por que eu gostava de sofrer assim? Por que eu era masoquista com os sentimentos? Ainda era sexta e eu já estava destruída sentimentalmente. Voltei chorando para o quarto.
Deitei a cabeça no traveseiro fazendo promessas de que tentaria ver Dave como o amigo que ele sempre foi, e não como... Chorei ainda mais com isso.
No dia seguinte, ele me chamou para sair. Aceitei de primeira. Ele me levou num shopping que havia na avenida principal do bairro dele. Não era lá muito grande como os da capital, mas até rendeu um bom passeio. Fomos a uma praça e passamos a tarde quase toda conversando. Dave me falou que tinha uma ficante que estava ficando apaixonada por ele, mas ele já estava com vontade de dispensá-la.
- Mas por que você vai fazer isso com ela?
- Fernanda, eu tenho 19 anos. Não posso me prender a um namoro agora. Por que daí tem sexo e mais sexo, e logo vem filho. Não quero ter filho agora, e nem tão cedo. Vai tirar minha liberdade que tanto lutei pra conseguir.
Era meio estranho ouví-lo falar daquele jeito.
- Não sabia que você não tinha sentimentos assim.
- Vai me dizer que você ama algum cara? Ta na cara que você prefere ficar também.
Mudei de assunto antes de eu falar alguma bobagem e depois começar a chorar na frente dele. Por ele.
A noite fiquei um bom tempo em seu quarto. Estavamos conversando como amigos comuns. Como sempre escondi bem meus sentimentos por aquele ser sem sentimento. Ouvimos algumas de suas músicas preferidas, falamos da saudade que nós sentiamos de alguns colegas de escola que foram fazer alguma outra coisa e perdemos contato.
De tanto conversarmos, já estava ficando com sono e deitei-me em sua cama que era de casal. O frio estava feroz lá fora. A chuva o dava forças. Encolhi-me ali naquela cama enorme. Arrepiei-me quando ele disse:
- Quer dormir aqui comigo? - sua voz não saiu com ar safado ou galanteador, e sim como uma pergunta comum, mas com uma leveza que deixou seu rosto mais lindo do que já era.
- Para Dave. Vou pro quarto da sua irmã. - mas não me levantei, só me espreguiçei.
- Para de besteira. - ele me puxou pra perto. - Não vai rolar nada, só dorme aqui comigo. Te esquento mais que os cobertores da minha irmã.
- O que vão pensar?
- Nada, por que não há por que ter preconceito. Você só vai dormir comigo. Dormir. - ele deu ênfase a palavra.
Dave pegou um cobertor enquanto eu me aninhava em sua cama. Quando deitou, ele me abraçou. Tive vergonha de chegar mais perto e me agarrar aquele corpo que estava mesmo mais quente que os cobertores.
- Tá com frio? - ele sussurrou em meu ouvido.
- To sim. - consegui sussurrar respondendo. Minha cabeça estava confusa. Me senti uma vadia deitada naquela cama. O que eu estava fazendo deitada ali? Mas quando Dave me pedia alguma coisa, eu simplesmente não conseguia negar.
Sem dizer nada, ele me abraçou e me deixou a vontade de retribuir o abraço. Dormi quase imediatamente com o conforto de seus braços me abraçando e minha cabeça deitada próxima a sua, no ombro.
Domingo amanheceu chuvoso. Havia diversas camadas de nuvem cobrindo o céu que eu mais gostava: Azul com sol forte.
Dave e Janeide alugaram uns filmes para vermos depois do almoço. Mas não imaginaria jamais que eu não almoçaria naquela casa.
Quando fui ao quarto de Dave chamá-lo para o almoço, ele estava falando ao celular com alguém que me pareceu ser sua "namorada". Ele dizia algo sobre estar apaixonado por ela e que sua prima - que tenho certeza ser eu - o tinha feito perceber como é legal amar e etc.. O que eu fiz? E nem sou prima dele.
Sua "namorada" se chamava Raquel, mas ouvi ele dizer Aline. Então ele ficava com uma, dormia com outra e jurava amor por outra. O espirito da Louca Ciumenta baixou novamente em mim e entrei no quarto quase arrancando as dobradiças da porta.
Ele se assustou com minha ação e olhou pra mim meio confuso.
- O que é que você esta falando? - falei parecendo estar possuída.
- Amor, vou desligar, minha... irmã ta tendo um daqueles acessos. Te ligo depois.
Não aguentei, ele me chamou de irmã. Meu chão sumiu e me senti caindo no abismo. A cara dele piorou ainda mais o que eu estava sentindo. A essa altura eu tinha me mostrado uma doida e sem noção pra ele.
Não consegui fazer outra coisa a não ser correr. Ele veio atrás de mim mas não olhei pra trás. Passei pelo portão, atravessei a rua sem nem olhar para os lados, isso resultou um quase atropelamento por uma moto. Entrei num matagal que tinha à frente da casa de Dave. Na verdade era uma plantação de cana e mais algumas coisas que nem me lembro por não prestar atenção. Entrei no matagal e ele continuou atrás de mim. Quando parei, ele me chamou.
- Fernanda! Espera.
Eu olhei pra ele, bem na hora que uma lágrima escapava de meu olho esquerdo.
- O que está acontecendo? - ele perguntou sem saber se ia até mim ou se era mais seguro ficar onde estava.
- O que está acontecendo? Eu te amo é o que está acontecendo - eu disse rangendo os dentes de raiva e ódio de mim. Nessa hora eu nem sentia a chuva forte que caía. Com a certeza que depois dessa conversa, eu jamais olharia na cara de Dave, contei-lhe tudo que ele deveria saber. Já que ele gostava de assassinar corações, ele deveria provar de sua própria arma assassina para saber como dói. Eu acho - Ontem tive vontade de agarrar você e te puxar pra mais perto do meu corpo. Fazer sexo com você e mais o que quisesse fazer! A mais de 4 anos eu te amo e você diz que sou sua irmã?
- Eu te vejo dessa forma, eu não sabia que...
- Cala a boca, eu só preciso gritar um pouco - falei tentando me organizar - Quer saber, pra mim chega de você, cansei de lutar à toa. De entregar meu coração á você e você na mesma hora pisar em cima. Cansei.
- Quem cansou foi eu. Para com esses papinhos de "coração quebrado", e essas babaquices aí. Amar é complicado, sou mais ficar. Isso é bem melhor. Se você ou qualquer outra me ama, o problema é de vocês, não pedi isso. Só pedi sua boca e seu corpo, mais nada.
Pela primeira vez, o olhei com nojo. Tive vontade de correr até ele e bater em sua face até sangrar, mas ele não ia deixar.
Ele me deixou ali, virou-se e foi para casa resmungando que estava se molhando à toa e que eu já tinha enchido sua paciência.
Me ajoelhei numa poça de lama e comecei a pensar no pobre e amável Bruno. Eu o deixara para sofrer o final de semana inteiro. A essa hora ele deveria estar deitado em sua cama, escutando a nossa música "Sings" da banda Bloc Party, e fazendo algum trabalho da faculdade. Queria estar ao seu lado, fazendo companhia, beijando sua boca, abraçando seu corpo e ele fazendo o mesmo por mim. Mas eu não sentia o mesmo amor que eu sentia por Dave. Depois daqueles minutos na chuva e na poça d'água, decidi que daria uma chance a nós dois.
Me recompus e fui arrumar minhas coisas que na verdade já estavam prontas. Não almocei, fui direto ao chuveiro. Enquanto me secava, liguei para Bruno pedindo para que ele fosse me buscar na estação Calmon Viana. Mesmo sendo longe pra ele, sem pensar ele aceitou.
Não vi mais o rosto de Dave naquela tarde. Me despedi do Sr. e Sra. Lira e de Janeide e fui para a estação.
Pela primeira vez, meu coração bateu de uma forma diferente quando vi o largo sorriso no rosto de Bruno, ali do lado de dentro da estação me esperando para embarcarmos juntos. Do jeito que eu queria. O vi de uma forma diferente e agora talvez fosse pra valer. Juntaria até os pequenos cacos que sobraram de meu coração e com Bruno, eu o reconstituiria.
Seu beijo de cumprimento foi longo e reconfortante. Não vi nada a minha volta, só deixei o momento acontecer. É nessas horas que agente diz: "se arrependimento matasse...". Por que eu tive de vir pra cá? Mas para essa pergunta eu tinha uma resposta: Eu queria ter a certeza do meu amor por Dave, como vi que este não iria dar certo, o jeito é seguir a vida e não me prender ali naquele sofrimento eterno.
No trem, encostei a cabeça na vidraça e lágrimas escaparam dos meus olhos - precisava aprender a detê-las a tempo - quando lembrei-me dos 3 dias na presença daquele ser sem sentimentos. Aquele... monstro! Fiz uma cara de choro horrível.
- Depois você me conta - disse Bruno - Mas não precisa ficar triste, eu estou aqui. Sempre. - ele me abraçou.
Deitei-me em seu peito, deixando as más lembranças para trás.
Naquele trem, eu não embarcaria nunca mais.
A chuva parou de cair.