quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mais um dia de frio chega ao fim




E mais um dia chega ao fim, não é mesmo?
Hoje foi um longo dia para muitos. Nos molharmos na chuva, passarmos frio, trabalhar o dia todo, falar com algum amigo e vegetar na internet. No meu caso, sou obrigado a conviver com ela no mínimo 08 horas por dia, já que trabalho numa lan house.

Hoje consegui chegar pontualmente, evitando do Peixinho reclamar comigo. Pedi meus dois pães de queijo e suco de maracujá que são de hábito, na verdade é o suco de morango, mas não compraram a fruta ainda.
Enquanto Gabriel fazia seus códigos de html no servidor, fui comprar a ração do Alano.
Alano é um gato que o encontrei no ônibus que me trazia de Cidade Tiradentes naquela sexta-feira tenebrosa. Desde então ele está como o mascote do estabelecimento.
Estava uma chuva lá fora. Falei com Leonor antes de sair. Ela me disse que a chuva de São Paulo estava indo completamente para o Rio de Janeiro. Ela é a panfleteira das lan houses e é peruana. Adoro seu espanhol. Ela me incentivou a dar leite e muita água para o Alano.
O Extra não estava tão cheio assim. Me irritei com uma senhora arrogante que me disse que eu estava na fila errada.

- Por que não vai naquela fila que está menor? Você só está com um produto - acusou ela.
- Aqui falta pouco - disse sem dar muita atenção.
- Moleque sem graça, fica aqui atrapalhando - ela estava atrás de mim.
- Por que não vai você? Não estou com pressa alguma.

Ela se calou então.
Gente chata naquele bairro de escórias. Argh! Pelo menos não era uma Changa.
Changos, é como chamamos carinhosamente os Bolivianos, peruanos, chilenos e os outros povos que também falam e em espanhol. É uma forma de resumir o povo.
Na lan, dei comigo para um Alano muito faminto.
Gabriel e eu conversamos sobre os papos normais, ligamos na Metropolitana e pedimos a música do Red Hot Chilli Peppers. Não, não ganhamos a promoção que nos daria direito a ir ver o show aqui no Brasil.
O trabalho foi normal o dia todo. Almocei e falei com o Chuck Bass, o Vanderson. O baixinho que eu conheci e do qual tô gostando muito.
Depois das 16h, fui para casa de bicicleta. Entreguei-a para o meu pai ir trabalhar, mas antes dei bronca na minha irmã que, ontem fui na casa dela e ela não estava, fazendo eu ir de bicicleta até a Vila Mariana à toa. Ao menos conversei com o Sérgio, o porteiro. Sérgio é o ex namorado da antiga melhor amiga da minha irmã.
Desisti de ir na Academia, que fica na Zona Leste, onde eu morava até duas semanas atrás, por preguiça. Decidi vir até a unidade da Liberdade usar um pouco a internet. Antes, pedi um chocolate quente e uma esfiha de carne. Vim para a máquina e estou até agora.
Conheci alguém que no passado era pra ter conhecido, mas não foi feito. Estudamos na mesma escola e nem imaginávamos que nos veríamos um dia. 04 anos de formação de distância.
Ainda estamos conversando enquanto estou aqui.
Duas amigas leram meus contos e elas adoraram. Espero que mais gente compareça ao blog e gostem também.



Amargurada



Antes do fim, eu andava descalça em meio a chuva naquela areia que já estava lamacenta.

Meus olhos estavam presos no horizonte negro da noite fria, fitando o infinito, além do mar que estava dançando como se zombasse da minha cara de choro.

- Não ria de mim! - eu gritei para ninguém a minha frente.

E ninguém respondeu. Somente o vento e a chuva pareceram se irritar.

Não havia mais ninguém naquela praia. Os covardes se guardaram dentro dos cubículos que os protegiam do molhado. Além do que eram altas horas da noite.

Não vi solução melhor para a minha vida de angústias que caminhar sorrateiramente, em longos passos, sentindo cada gota de chuva cair sobre meu corpo, até o mar com ondas enormes e enraivecidas graças aos ventos. Eu estava chateada com o mundo. Não tinha mais o que fazer nele.

Meu Iphone tocou em minhas mãos. Engraçado, se é que eu podia sentir essa emoção, não estava o sentindo em minhas mãos. Nem me lembrava de estar com ele.

Atendi depois de me irritar com a música que me fazia lembrar ele. E era ele...

- O que você quer? - minha voz era dura e meus lábios estavam bem úmidos. Expressei toda a minha dor nessa pergunta.

- Por favor, precisamos conversar. Você não me deixou explicar...

- Explicar o quê? - eu gritei, e ao longe, um trovão gritou mais alto. - O que eu vi já bastou tudo. A semanas que eu vejo.

- Era só um truque. E hoje não foi bem isso, ela, ela que fez tudo, ela que... - ele parecia muito desesperado. Não quero me lembrar de seu nome. Ele me machuca.

- Basta! - interrompi novamente. - Lamento te interromper nessa história mal contada. Quero que você se dane! Você e a vadia da minha prima.

- Amor, ela me embebedou.

- Não me chame desse jeito, nunca mais!

- Por favor. - ele implorava e eu percebi que estava chorando.

- Quantas chances eu terei que dar a você? Quantas mais?

- Você sabe que me ama.

Desejei bater nele nesse momento.

- Não! Eu amei, agora não mais. Sabe o que é sentir saudade? Sabe o que é se humilhar? Sabe o que é pegar o cara que você ama na cama com outra? Sabe o quanto isso dói?

- Você precisa saber que foi ela, e não eu. Eu te amo...

- Cala essa maldita boca! Cala...

Eu surtei e joquei o Iphone o mais longe que consegui. Ele afundou na lama.

O vento fazia meu vestido preto voar como louco, mesmo pesado e ensopado.

Em momento algum deixei de caminhar, de enfrentar o meu destino. O mar me convidava a visitá-lo, a fazer parte dele. Enquanto isso, eu não sentia meu coração. Era como se ele fosse negro ou que não existisse.

Magoada e querendo matar alguém, decidi matar meus sentimentos e a mim mesmo. Senti como se a alma do meu coração em abandonasse, me fazendo então uma mulher amargurada. Não tinha mais espressão no rosto, a não ser que interpretasse meus olhos aprtados como rancor e ódio. Mas isso eu sentia por dentro.

Senti o gelo todo daquela água fria do mar cortando minhas pernas. Maior foi a dor e a agonia quando foi subindo para as minhas coxas. Não olhei para trás. apenas para o nada que tinha a frente. Estava arrepiante, literalmente. A chuva estava muito forte. Raios passavam não muito longe de mim e os trovões ensurdeciam e me fazia pular com o susto. O mar travesso me jogava de um lado a outro. A água agora passava pelos meus seios.

Determinada, continuei avançando. As ondas enormes que vinham sempre me cobriam, e me jogava para trás, e eu avançava como podia depois.

"Mas por que você quer partir, Regina? Seu namorado vai continuar vivendo. Ele não irá deixar de ficar com ninguém. Seguirá a vida dele, assim como todos. Por que você não recomessa e morre quando for para morrer. Ainda não é a hora, ainda tem muito o que fazer. A felicidade pode ser encontrada sempre que a necessitarmos, basta correr atrás, e não ter orgulho. Se ele existir, faça-o ficar extinto, mas não deixe que isso faça você ficar paralisada no além e dar um fim a algo que não está nem no começo".

Esse pensamento me veio à cabeça, exatamente com a voz da minha falecida avó, que lutou tanto contra uma doença, pois ela queria muito viver e poder pedir o perdão da filha dela, minha mãe, mas a doença a venceu e ela se foi, sem antes realizar o maior desejo de seu coração.

Fiquei parada olhando em volta de onde eu estava e olhando para meu próprio corpo.

- Não vou perder o restante da minha vida por você, Jefferson. Você não merece. Acho que eu posso reverter a situação.

Quando eu tentei voltar, notei que eu estava longe de mais e as ondas eram muito altas e mais fortes que o normal.

Eu dava dois passos, muito dificeis e pesados à frente, mas a o mar me puxava para trás. Até vir uma outra onda e me cobrir inteira. Fiquei sem fôlego e fui respirar, mas no mesmo instante, veio mais uma e outra em seguida. Estava numa área funda do mar e não conseguia chegar a tempo na superfície para poder respirar. O mar me jogou para um lado e para o outro, e depois eu não conseguia mais respirar. Estava sentindo como se eu fosse explodir... e então, não vi mais a água, não senti mais como ela estava fria e nem me debati mais pela falta de ar. Eu não precisava mais dele.

Trollando Ao Vivo


domingo, 28 de agosto de 2011

Honra ao Mérito de Escritor - Humpf!


Dia 30 de Sembro!Hmm. Esse foi um dia importante e vou guardá-lo para todo o sempre.Ao ganhar o que considero Prêmio por Valorização e Reconhecimento de Perfeita Obra-Literária, percebi que enquanto um já tem a certeza, outros não tem a esperança de que algo dará certo e só esperam a premiação passar para sair daquela tortura já que aceitou que não vai ganhar nada mesmo.Em agosto, meu amável professor de Biologia (Almir, The best of the Best's), organizou uma espécie de olimpíadas em meu colégio para promover o meio ambiente. Teríamos uma série de 13 modalidades a serem realizadas, uma por dia, apartir de 13 de Setembro. Essas modalidades, cada uma era avaliada por algum professor em pontos para serem somados no final. O prêmio para a sala que arrecadasse mais pontos era de um passeio VIP ao parque de diversões Hopi Hari e mais alguma coisa que não me recordo.Minha sala é composta por: bagunceiros, brincalhões, desenteressados, jogadores de truco, preguiçosos, 1 inteligente (adivinhe quem é) e uns outros que... esperam alguem resolver alguma coisa para eles clicarem em CTRL+L e ficarem numa boa. Com isso, nossa sala não tinha chance alguma de progredir e ir ao tal parque de graça.Eu fiz a minha parte, mas com o propósito de mostrar o meu trabalho de escritor. Não vacilei, fiquei quase 5 aulas completas escrevendo uma história adaptada sobre o meio ambiente que havia trabalhado nela há algum tempo. Foram 9 páginas, mais de 10 minutos esperando minha mão se recuperar do músculo dolorido na palma, 4 tentativas fracassadas de segurar a caneta como antes eu segurava no começo do original e uma pausa para o intervalo.Isso deu o resultado de 1440 pontos, que foi revelado no dia 29 e me deixou na frente de duas outras salas.O professor Almir deixou bem expecífico, que o prêmio foi pra mim, e não para o restante da sala que não ajudou em nada, nem a me emprestar uma caneta preta.Foi difícil ir até o centro da quadra (onde estava sendo o evento) e receber a minha medalha de Honra ao Mérito. Eu já sabia que ia ganhar, mas na hora, você perde até a confiança. Quando ele anunciou diversas salas que haviam ganhado na Gincana, Simpósio, Reciclagem, Plantações e etc. Quando chegou em Produção Literária, tudo dentro de mim se contorceu mas continuei em pé esperando.Quando anunciou meu nome como o vencedor do 1C, eu tremi e dei uma olhada para onde estavam alguns dos colegas da sala que eram brincalhões e bagunceiros, mas que eram muito legais comigo e muito engraçados. Eles tentaram me acordar chamando a minha atenção e ir buscar o prêmio. Meu primeiro prêmio de Literatura, que desse, concerteza virá muitos. Eu espero. Ao me colocar a medalha, Almir me deus os parabéns tirou uma fotografia, assim como ele fez com os outros ganhadores. O pessoal da minha sala foi à loucura quando voltei, eles pulavam e gritavam "Nono A eu vou comer o seu bolo". Eu ri, pois eu sabia o significado disso.O nono A acabou ganhando o passeio para o Hopi hari.Dei uma boa olhada em minha medalha que estava reluzente em meu pescoço.Foi a unica medalha que a minha sala ganhou.

Aquele da Bicicleta


Saí um pouco tarde do trabalho.
Certo, todos nós gastamos sempre mais do que temos. Eu fiz essa besteira o mês passado e também neste aqui, o que me fez quase mendigar. Tá, é um exagero, mas estou quase nessa.
Sorte que comprei uma bicicleta há três meses simplesmente para pedalar nos finais de semana. Agora, sem dinheiro para pagar o metrô na volta para casa, tenho que pedalar diversos quilômetros até chegar ao meu destino.
Peguei minha Gatinha, como chamo minha bike, e desci a escadaria do prédio onde eu trabalhava no Tatuapé.
Só eu sei a preguiça que dá para ir trabalhar de bike, principalmente voltar, pois aí você está mais cansado e louco por descanso, e não esforço físico.
Enquanto eu pedalava até a ciclovia, ia com pensamentos que me distraiam completamente da direção. As vezes me sentia como se nem pedalasse. Parecia que ela corria por si só. Pouco eu enchergava o chão. Linhas e mais linhas passavam por mim e eu sem reparar nelas. Só pensava em quanto eu estava sem ninguém, o tempo que eu estava carente que talvez eu me apaixonaria pelo primeiro idiota que passase por mim.
Atravessei a rua e entrei na ciclovia.
Estava uma noite quente. E eu de calça jeans e blusa de frio. Claro, de manhã estava pouco mais de 10 ºC. Estamos vivendo tempos de insanidade, loucos.
Vi o trem passar correndo por mim. Vários deles. Que inveja das pessoas apertadas e expremidas que estavam ali dentro. Pelo menos o unico esforço que elas tinham era de se segurar. Isso se precisasse, pois com o aperto que sofriam, estavam mais enlatados que uma sardinha.
Fitando a estação Carrão, completamente distraído, quase sou derrubado por um brutamontes que passa à toda ao meu lado, numa bike azul.
- Cuidado aê! - gritei.
Mas ele já estava mais a frente.
Pedalei um pouco mais rápido para acompanhar sua velocidade. Ele já não estava mais tão rápido. Deveria ter cansado.
Parecia ser jovem, pelo menos de costas. Quem sabe uns 22 anos, da mesma idade que eu? E me distraí, imaginando coisas. Jamais acontecera essas coisas de vídeos da internet comigo. Nunca. Tentei ficar o mais próximo possível dele para quem sabe, puxar papo. Mas o quê eu diria? Ele acabara de ser grosso comigo.
Já estava bem perto dele agora, então me aproximei mais. Não desisti, embora minhas coxas e panturrilhas reclamassem um pouco de dor.
Continuamos pedalando no ritmo que nossos corpos aguentavam graças ao cansasso. Quando ficamos lado a lado na pista, sendo ele do lado esquerdo, onde os ciclistam voltam da Zona Leste, ele fez sinal com a cabeça, abaixando-a, significando um pedido de desculpas. Fiz o mesmo com a cabeça, assentindo. Agora não havia mais raiva de um quase matar o outro, ou só machucar mesmo.
Ele se recuperou e pedalou feito um louco. Deixei-o ir. Simplesmente baixei a cabeça e olhei para os pneus e para o meu sapato que fazia os movimentos giratórios que eu me locomovesse naquele meio de transporte. Quando fui olhar para o céu, mais uma vez, vi que de longe, o rapaz estava olhando para trás, como se me esperasse ou que estivesse apostando corrida comigo, e eu perdendo de lavada.
Acelerei o máximo que pude, mas o calor era desmaiador. Ele pedalou devagar e rapidamente eu parei, tirei a blusa de frio e a guardei na mochila que eu carregava. Não demorei muito.
Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eu estava empolgado. Queria continuar pedalando e pedalando com ele todo o tempo.
Apostamos corrida por vários miutos, cansávamos e iamos devagar. Ao recobrar o fôlego, repetíamos o processo.
Mas no caminho inteiro não falamos um com o outro. Era uma brincadeira silenciosa, que limitava-se ás nossas respirações ofegantes, risadas abafadas, carros buzinnando e passando zunindo na Radial ao lado e o metrô passando a galope do outro.
Um amigo eu tinha conquistado, acho. Mas eu o veria novamente?
Não gostei da idéia de perdê-lo. E se ele viesse a ser mais que um amigo?
Mas agora ele estava se afastando novamente.
Ele fez um aceno, como de um tchau e aproveitou para atravessar a rua enquanto o farol estava vermelho para os carros. Eu o estava perdendo. Mas, ele ficaria comigo? Ele parecia ser hétero. Mas porque aceitou numa boa brincar de pega-pega na bike?
Aquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos estava se afastando cada vez mais, e para piorar, meu celular toca. Michele.
- Alô - atendi meio com pressa, o dedo já no botão de encerramento de chamadas.
- Oi amor, já tá chegando? - e sua voz doce me deixou confuso. O garoto estava um tanto lento pois subia uma ladeira, do outro lado da rua. Mas minha namorada não não adivinharia momento melhor para me ligar, como este.
- Sim, estou quase. Tô de bicicleta, depois te ligo - quando fui desligar, ela gritou: Espera!
Bufei de raiva e pressa, mas falei em tom calmo e passivo. Ela jamais suspeitaria minha tração por homens, e nem que eu estava prestes a ficar com um, assim que ela desligasse a porra do celular.
- Passa no mercado antes de chegar e compra extrato de tomates e pipoca de microondas.
- Certo eu passo. Vou desligar. Beijo.
Não dei tempo que ela retribuisse o beijo. Quase fui atropelado por um ônibus e quase atropelei uma mulher que carregava um monte de sacolas.
- Distraída dos infernos - berrei.
Ela me chingou de algumas coisas e seguiu seu caminho.
Não consegui mais avistar o da bicicleta. Fiquei meio louco e entristecido.
Senti que ele me queria, assim como eu o queria. Jamais isso havia acontecido comigo. E além do mais, eu estava procurando mesmo um companheiro. Há muitos dias eu não estava mais feliz com a Michele. Eu sentia como se aquilo não fosse pra mim, e a cada dia eu me prendia mais naquela situação.
Continuei pedalando pelas ruas que eu desconhecia completamente, enquanto alguns pensamentos ardiam meu coração e confundiam minha mente.
Eu estava cansado por ter acordado cedo e trabalhado o dia todo, estava pedalando e agora estava indo eu nem sabia para onde. Lembrei no dia em que eu ficara andando a madrugada toda com Michele, pelas ruas desertas e perigosas do Centro. Perdemos a chave da nossa antiga casa e estavamos longe de onde perdemos quando nos demos conta. Já não havia mais ônibus e pouco dinheiro tínhamos. Seria a nossa primeira noite de sexo, mas frustrada por burrada nossa. Ficamos a noite toda caminhando, parando as vezes em bancos de praças e conversávamos mais enquanto descansávamos. Quando amanheceu, chamamos um amigo chaveiro para trocar a fechadura e nos dar as chaves novas. Esse pensamento me fez lembrar da vez em que fui num motel com um garoto que conheci pela internet... no meio do prazer todo, acabamos andando e nos jogando pelos espaços do quarto. O extase foi tanto que joguei ele na porta, e ficamos lá, ele prendeu o braço, segurando-se na maçaneta, e eu o puxei com violência para bem perto de mim. A maçaneta caiu no chão e ficamos presos lá, pois a chave ficara do lado de fora.
Freiei a bike para olhar em que ruas eu estava entrando. Não havia sinal algum dele. E agora? Ele poderia já ter entrado em alguma das muitas casas e edifícios que passei. Agora era o fim, não havia meios de encontrá-lo, de forma alguma.
Voltei para a ciclovia. Muitos minutos atrasado... simplesmente fiquei triste comigo mesmo. Eu estava fazendo duas besteiras ao mesmo tempo. O cara era hétero, pensei para me reconfortar. Michele me ama e está fazendo o jantar que eu mais gosto, só não sei bem o por que.
Cheguei em casa, coloquei as sacolas na mesa e me joguei na cama. Michele não me viu entrar pois deveria estar na lavanderia.
Tirei a roupa e tomei um longo banho. Ainda pensando no garoto. Puxa, ele mexeu tanto comigo. Nem sei bem como, mas ele tinha me feito pensar nele durante todo o banho, enquanto eu ajudava Michele a terminar a comida e principalmente quando fui beijá-la... imaginei seu rosto. O mesmo que sorriu para mim quando ficamos lado a lado na ciclovia.
A idéia de nunca mais ver uma pessoa sempre me perturbou. A casa hora que passava, eu não conseguia esquecê-lo.
A idéia de tentar encontra-lo na internet era ridícula. Como seria a pesquisa? Procuro um garoto lindo que montava uma bicicleta azul com detalhes amarelados. Acho que não ficaria legal.
Idéias e mais idéias. Só que o sono era mais forte.
Quando fui me deitar, pronto para dormir e enfrentar a dureza do dia seguinte nas costas, e talvez pernas novamente, Michele se aninhou junto a mim e eu a abracei.
No meio de nossos beijos preliminares, meu celular toca com um tom de mensagem de texto. Peguei-o e li o que um numero desconhecido me dizia: ENTRE NO Facebook E PESQUISE O NOME ABAIXO. IMEDIATAMENTE.
- Quem é? - Michele perguntou puxando meu pescoço para baixo.
Saí da tela de mensagens antes que ela pudesse ler.
- Da Claro, me andando aqueles protocolos de atendimento.
- Bem atrasado, né?
- Pois é - falei me levantando e ligando o computador. - Liguei lá faz uns quatro dias, lembra?
Ela assentiu e virou-se para o outro lado. Estava cansada também. Senti que ela estava chateada com alguma coisa. Mas ignorei.
Estava ansioso e o PC demorando muito para iniciar.
Quando iniciou e a internet se conectou automaticamente, cliquei no favorito do Facebook, que deixo na minha barrinha do Google Chrome. Pesquisei o nome do sujeito da mensagem e quando clico... aquele da bicicleta estava com seu perfil bem ali na minha frente. Quase chorei de felicidade quando o encontrei. Ele aceitou meu pedido de amizade quase de imediato. Começamos a conversar...
Ele me falou que pensou em mim também, mas se manteve na dele. Que queria ouvir a minha voz, assim como eu agora queria ouvir a dele.
Não vi as horas, não. E nada ao meu redor. Eu estava com a atenção totalmente voltada ao Facebook. O papo estava muito longo, se estendera por mais uma hora ou duas. Ele parecia empolgado também em me conhecer de verdade. Ele me disse qu namorava com uma garota também, mas que já não estava tão ligado nela e principalmente por ela ser ciumenta. Alguns detalhes de sua vida, músicas favoritas e lugares também. Eu precisava ficar com ele.
De repente, tomo um susto com uma lágrima que cai em meu ombro nu. Michele estava chorando ao ler toda a conversa pelo Facebook.
Não achei lugar para enfiar a minha cara.
- Hoje - ela começou, com os lábios e voz tremendo por causa do choro - ou, ontem no caso que passou da meia-noite, fazemos dez meses de namoro. Você não se lembrou disso?
- E-e-eu...
- Claro que não. Quantas coisas descubro aqui, do nada. Por isso você adora sair com seus amigos, né? Aqueles da balada?
- N-não - eu nem tinha palavras.
- Deve ter me traido zilhões de vezes... e com homens ainda por cima. Acho que a dor é ainda maior.
- Calma, eu posso explicar que...
- Explicar o quê? Eu li aqui, ao seu lado, você todo empolgado marcando de se encontrar com um cara que nem conhece. Que só pedalou com ele por alguns minutos. Já nós temos uma história já... Sorte a minha, ou azar, que você é um retardado. Muito distraído e perdido nessa sua cabeça oca. Como não me viu, ouviu ou sentiu eu atrás de você lendo tudo?
- O fone de ouvido me faz viajar ainda mais.
- Eu não acredito nessa situação - ela baixou a cabeça e começou a chorar.
Deixei ela quieta e respondi ao garoto da bicicleta que depois conversaríamos, pois estava cansado.
- Michele, então esse é um bom momento para dizer que não dá mais. Faz um tempo que queria te falar isso, mas fui adiando e acho que já é tarde agora, para não fazer você sofrer.
- Você não vai me deixar para ficar com um homem.
- Eu não disse isso, mas... Mi, faz tempo que eu não gosto mais de você como gostaria.
- E você me diz assim?
- Como queria que eu te contasse? Eu tô muito confuso. Eu só quero me deitar e pensar sobre tudo.
- Inclusive naquele veadinho da bicicleta?
Aquilo me atingiu na alma.
- Você me vê assim, agora?
Coloquei minha camiseta de volta, peguei minhas coisas de trabalho e a mochila e saí, deixando Michele chorando ao me olhar pela janela da cozinha. Me vendo partir.
A besteira que eu tinha feito era imensa. Minha vida poderia estar arruinada agora. Meus pais me jogariam muitas coisas na cara, não teria mais meus amigos heteros, na empresa provavelmente me desrespeitariam, nas ruas, em casa... olhos e mais olhos me fitando e me condenando. Ao menos acho que é assim. Tenho certeza que Michele, sendo como é, vai fazer um inferno na minha vida para eu voltar para ela, e quem sabe, destruir qualquer um que se aproxime de mim.
Milhões de pensamentos me veio na cabeça enquanto eu pedalava a Gatinha pela ciclovia até uns bancos que ficavam próximos à estação Penha. Eu passaria a noite ali, decidindo o que faria do amanhecer.
Olhei para a ciclovia e me lembrei dele: Caio. Minha vida agora estava - ou amanhã estaria - um caos, tudo por causa daquele garoto lindo da bicicleta azul com detalhes amarelos nos adesivos. Agora eu tinha que fazer valer a pena, e ele também, ou eu iria me jogar de bike nos trilhos do trem.
A unica coisa que restava para mim era esperar.